Eu podia resumir todas as aulas que eu já tive nessa faculdade em duas palavras: completo tédio. Eu escutava, eu anotava, eu estudava, eu fazia trabalhos, mas sem satisfação, sem prazer em fazer aquilo. E parece que todos me julgavam por isso. Parecia que todos amavam o curso e estavam com o futuro certo, menos eu. Talvez por isso eu me sentia um pouco excluída e tinha poucas amizades. Corrigindo: nenhuma amizade, no máximo colegas para perguntar sobre a data de uma prova. E, como já era de se esperar, essa solidão apenas fazia tudo mais entediante. Era segunda-feira e eu já tinha saído da faculdade e ido para o trabalho. O movimento não estava muito bom e eu e Karina estávamos encostadas no balcão, como de costume, esperando alguma coisa para se fazer naquele meio tempo.
- Você vai vir com os patins amanhã? - Karina disse
- Vou. Infelizmente.
- Eu pensava que você não viria. Que faria um protesto, que se recusaria.
- E eu quero lá ser demitida? Além do mais, eu seria demitida sozinha, já que vocês ficaram quietas quando tiveram o poder de contestar comigo.
- Desculpa por isso - ela disse - É que esse emprego é a minha única forma de viver, eu não posso perdê-lo.
- Você não se imagina fazendo outra coisa?
- Eu não tenho nenhum talento, Montreal. Parece que minha única vocação na vida é anotar pedidos, entregar pedidos, pegar a gorjeta, limpar a mesa e sorrir.
- Pelo menos você tem dentes bonitos para sorrir - eu falei, brincando - Mas eu te entendo...
- Não, você não me entende. Você tem talento.
Eu fiquei parada por um segundo. Ela sabia da minha paixão por fotografia? Eu sempre mantive esse segredo somente para mim.
- Eu? Talento?
- Sim. Você está sempre contestando. Sempre falando o que pensa, sempre defendendo o que acha certo. Poucas pessoas têm esse dom.
Eu fiquei um pouco aliviada e depois refleti sobre aquilo. Eu nunca havia parado para pensar nessa minha característica de modo positivo.
- Eu aposto que você tem um talento escondido - falei, mudando de assunto
- Não, não tenho. Eu vou morrer sozinha nesse uniforme brega.
- Karina! - a repreendi - Não fale assim. Não desista assim tão fácil. Mas, falando nisso, você não tem noção do que foi meu fim de semana.
- Por favor, desembucha! - ela riu
Eu contei sobre as aulas de patins, sobre a piscina, sobre Enzo contando sua história para mim e sobre Daniel estar apaixonado. Ela ouvia com atenção e soltava uns comentários no meio de meu monólogo. Por sorte, o movimento estava fraco, já que eu devo ter passado pelo menos uma hora tagarelando sobre tudo e intercalando a conversa com algumas limpezas de mesas e sorrisos aos clientes.
- Sua sortuda! - ela exclamou quando eu finalmente tinha contado tudo o que aconteceu e me encostei no balcão novamente
- Sortuda? Eu estou é cheia de problemas.
- Eu morreria por problemas assim. Você teve dois instrutores de patins, um deles é gato para caramba, nem tente me contradizer porque eu já o vi pessoalmente, e anda sempre com trajes de banho na piscina. Agora tem um outro apaixonado por você!? Qual é? Nem pra dividir com o resto aqui?
- Eu não quero ter um outro apaixonado por mim! Ele é uma criança.
- 19 anos não é bem uma criança.
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21 Azulejos
General FictionNão há nada mais angustiante que uma vida monótona. Montreal sabia disso. Acordar, trabalhar, estudar e dormir. No outro dia, repetir a sequência. Aos 26 anos, ela sabia que sua vida tinha um propósito, algo mais significativo do que apenas servir e...
