8. Quatro anos.

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Depois de chegar em casa e tomar um banho, ainda com meus pés doloridos dos patins, lá estava eu: batendo à porta de Enzo. Por mais que eu dissesse a mim mesma que seria estranho, que seria incômodo, eu não consegui evitar.

Ele abriu a porta com um sorriso no rosto.

- Que bom que você veio! - ele exclamou - Entre.

- Sua casa realmente cheira a bolo - eu disse, rindo

Eu reparei discretamente na sala de estar. Apesar dessa casa ser bem menor do que a na qual eu estava morando agora, eu podia ver que ele manteve o mesmo estilo. A maior parte dos móveis era de madeira escura e a parede num tom cinza não tão claro. Havia quadros abstratos na parede em tons terrosos e algumas fotografias. Pareceria um chalé se as paredes também fossem de madeira.

- Eu vou buscar um para você - ele falou

- Não precisa, você já me deu um hoje.

- Mas esse é de outro sabor, oras!

Ele riu e eu concordei. Segui seu caminho, chegando à cozinha e me encostando na porta, sem entrar. A cozinha era diferente do resto da sala. O cromado dos fornos e instrumentos culinários dominava o ambiente.

- Uau, quer dizer que você tem uma cozinha industrial aqui? - falei, impressionada

- Não chega nem perto de ser industrial, mas eu não conseguiria atender à demanda com fornos convencionais.

Ele colocou uma luva de silicone e abriu a porta de um dos fornos, tirando de lá uma travessa de bolinhos. O cheiro se espalhou pelo ambiente e eu podia ver o vapor saindo dos bolinhos. Ele retirou um de dentro das cavidades específicas da travessa e colocou em um prato. Pegou uma faca e o cortou ao meio.

- Venha ver mais de perto - ele falou a mim

Eu fiquei ao seu lado e vi o chocolate de dentro da massa escorregar pelo prato. Aquilo parecia delicioso. Eu olhei para sua face, vendo seus olhos brilharem. Ele parecia completamente apaixonado.

- Isso está perfeito, Enzo. Você tem muito talento - eu falei

- Isso na verdade é de família. Meu avô, um italiano daqueles bem presos à cultura, era um dos melhores pizzaiolos da cidade.

- E você não quis ser pizzaiolo também?

- Eu comi tanta pizza quando criança que me enjoei. Até hoje não consigo comer mais que dois pedaços. Mas os doces sempre foram minha paixão.

Eu sorri, vendo-o olhar o chocolate escorrendo com um brilho diferente nos olhos.

- Bom, não vamos ficar na cozinha. Se quiser ir para a sala enquanto eu termino aqui... - ele falou e eu aceitei

Passei ao lado escada, voltando à sala. Comecei a reparar nas fotografias na parede. Em uma das fotos, tirada em uma cachoeira, eu finalmente pude saber como era Catherine. Ela tinha cabelos pretos bem escuros na altura do ombro. Não eram completamente lisos e isso a deixava mais jovem. Tinha olhos verdes, pelo menos parecia na foto. Seu rosto era redondo e corado e ela não era magra, seu corpo tinha volume e se encaixava bem com sua face. Ela era linda. E ele também era, com o rosto mais feliz, os olhos menos abatidos. Eu senti meu coração pesar ao vê-los.

- Pronto, espero que goste - ele disse, trazendo dois pratos

- Tem alguém nesse mundo que não goste de petit gateau? Se existir, deve estar no hospício - eu disse a ele, rindo

- Bon appetit! - ele exclamou em francês, me dando uma colher

Saboreei o primeiro pedaço, me sentando no sofá.

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