Vendo as possibilidades...

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Eu não vou pro laboratório agora. Mamãe me mandou uma mensagem dizendo que viria pra casa com o papai. Que bom.

Luka me mandou uma mensagem também, perguntando se eu estava bem. Ela é muito prestativa e um pouco preocupada demais com a gente, principalmente com o Flink. Ela acha que por ser o mais novo, ele deve ser protegido. E porque ele é um "Cinnamon roll". Eu concordo com as duas afirmações.

Huhg, que fome... Eu peguei uma garrafa de ketchup e um pedaço de torta da geladeira. Nham.
Eu não sei porque o tio Papyrus diz que meus "gostos alimentares" são parecidos com os do meu pai. Ele nem gosta tanto de torta. E nem pode comer tanto assim... A comida vaza pelo estômago dele e as vezes, ele fica meio sujo. Heh he he, é engraçado.

Mamãe também disse que mais tarde iamos sair juntos. Vovó convidou a família toda pra um jantar na casa de campo dela. É muito lindo lá, bem grande e não muito longe.
A comida da vovó Tori é muito boa.

Resolvi subir para o meu quarto, denovo, e aconteceu a coisa mais estranha, inusitada, bizarra, e até assustadora que eu já tinha visto.

Entrei no meu quarto, e vi o sol se pondo da minha janela. Eu me aproximei e vi um fio, bem fino e brilhante, contra a luz da janela.
Eu, sem pensar duas vezes, toquei no fio.

Na minha frente, a paisagem, a janela, até meu telescópio eram uma coisa e estavam num lugar.

Quando eu pus os dedos na linha, tudo mudou de repente, como uma foto. A janela estava antiga, tinham casinhas simples lá fora e muitas árvores, o que não dá mais pra ver agora por causa das casas altas. O sol, que ainda estava se pondo, já tinha sumido e o céu estava um pouco róseo e escuro pela noite. Meu telescópio, que antes estava pra cima e virado para a janela, ficou abaixado e virado para a parede.

Eu dei um baita grito e caí no chão, largando a linhazinha. Quando eu soltei, tudo voltou ao normal, e a linha tinha sumido.

Eu fiquei no chão, perplexa. O QUE DIABOS ACONTECEU AQUI?

"Tudo bem aí em cima?" Eu ouvi a voz do Flink lá embaixo.
"T-tudo bem... E-eu só deixei cair uns livros..."
"Ah bem..."

Meu coração batia forte e eu sentia um formigamento no meu olho... Mas que raio de negócio é esse que meu olho só vive doendo agora? E é só o direito!

Você vai ver isso de vez em quando na sua frente. E quando ver, você vai saber.

AI MEU DEUS, isso é o que eu tô pensando? Linhas temporais?! Não é possível. Não, não, NÃO. Eu pirei. Eu tô louca. O ketchup tava vencido. Eu tô delirando.

Não pode ser real. Não pode ser...
Como assim, Gaster?! FOI AQUELE MALDITO QUE FEZ ISSO COMIGO? Como?!
Eu sinto minha cabeça um pouco dolorida, mas logo passou.
Passou. Toda a dor que eu senti. Fiquei como se não tivesse acontecido nada.

Se for culpa do Gaster, eu acabo com aquele fantasma...

Ouvi o carro do papai e da mamãe lá fora e me aproximei da janela, devagar. Mamãe fica bonita de roupa de trabalho formal. É um terno com um pin da Runa Delta, a marca que representa os monstros, já que ela é embaixadora deles.
O papai só usa um suéter normal com um jaleco branco. Engraçado... Agora que eu lembrei, numa foto antiga do papai com o titio Papy, o pai deles (meu avô) usava um jaleco preto. Não faz sentido.

Depois disso, os meus país, Flink e Flowey, e eu fomos pra casa da vovó.
Até aí tudo bem. A noite caiu rápido, e o caminho pra casa da vó Toriel é lindo... Dá pra ver o Monte Ebott, a floresta ao longe, e a cidade. Mas o caminho é bem aberto, sem árvores perto da pista.
O céu ficou rosado e o sol se pôs no horizonte quando avistamos o chalé.

Estavam todos ali. Tias Alphys e Undyne, Luka, Tio Papyrus, que mora lá com a vovó e o vovô, até a Mettaton tava lá com o Napstablooky. Ah ele é muito legal. Ele é nosso vizinho, num prédio perto de casa. Um prédio chique, só porque mora a Mettaton lá na cobertura. Ele me dá conselhos quando eu estou pra baixo e sentamos no telhado, relaxando.
Muffet veio também. Ela gosta de cozinhar como vovó Tori e tio Papyrus, e tem uma confeitaria famosa. É tudo pras aranhas do subsolo acharem um lugar legal pra viver.

Tia Chara veio também... Ela fica encostada na parede perto da lareira, calada. Sempre é assim. Não fala com quase ninguém, enche o mano e a prima de beijos, abraços e doces, e papai às vezes faz umas piadas com ela, mas ela não ri de quase nada. Não ri fazendo barulho, eu digo, ela só sorri. Um sorrisinho constante.

Tio Papy ficou brincando com Luka e Flink, junto com o vô Gorey. Eles estão tão fofos! É muito engraçado.
Vovó ficou conversando com minhas tias madrinhas. Ah eu nem falei no que elas trabalham. Alphys ainda é cientista e Undyne é chefe de polícia. É bem legal.
Tio Papyrus não faz nada de.muito grande na vida, exceto fazer tudo ficar mais legal. Ele faz espaguete por encomenda, junto com a vovó. Ela faz tortas doces e geleia de lesma. Tudo bem bonitinho, feito com carinho. Delivery é uma coisa que humanos gostam. Apesar das lesmas serem mais pedidas por monstros.
Papai diz que antigamente, o espaguete do Papyrus era de "um gosto indescritível", quase incomestível. Mal dá pra acreditar. Ele melhorou pra caramba então!

Bem, a comida estava bem gostosa. E como em toda reunião de família, lá vem as perguntas típicas.

"Helv! Como vão os estudos?"
"E como vão os namoradinhos, hein?"
"Você têm feito amigos na escola?"
"Têm se alimentado corretamente?"

Isso é um saco. Mas é legal também. Saber que as pessoas que realmente ligam pra você, são sua família.
Eu respondi tudo.

"Ah, vão indo bem..."
"O que é isso?"
"Sim, alguns..."
"Sim, vovó..."

Tudo estavam tão bem. Papai e Tia Chara nem discutiram hoje. Nem a vovó olhou com cara feia pro vovô. Eles estão voltando!
Eu me sinto feliz. Mas também sinto que algo está errado...
Sei lá, é como se tudo isso fosse desaparecer...

Fiquei nervosa do nada. Tia Chara não para de me observar...

Acho que eu vou tomar um ar...

O jantar acabou e todos foram pra sala. Lá tem uma janelona com uma varanda grande, que dá pra ver um lago logo ali.
Fui pra lá e fiquei olhando as pessoas que eu amo se divertindo sem mim...

Chara parou de olhar pra mim e ficou falando algo com a mamãe.

Eu sentei no parapeito, e olhei os meus pés debaixo das meias...
Eu sou um monstro... E com muito orgulho.

E aconteceu denovo...
Uma linha. Brilhante e flutuante, esticada na minha frente...
Eu me assustei e minhas mãos foram até ela por impulso... Tudo mudou.

Estava de manhã, ou a tarde, não sei, uma hora do dia que o sol está baixo. A sala estava toda vazia. Exceto a vovó, que lia um livro na poltrona. Ela parecia triste... Muito triste. Tentava se concentrar na leitura, mas soltou o livro no colo. Tentou tomar um gole de chá, mas a xícara caiu... Ela se levantou e começou a chorar. Meus... Olhos se encheram de lágrimas. Porquê isso está acontecendo?
Ela andou até a lareira, devagarinho, e a Mamãe apareceu. Ela estava com os olhos inchados, aparentemente tinha chorado muito também... As duas se abraçaram...

Eu virei o rosto e eu juro, pelo que é mais sagrado, que eu vi um caixão.

Vocês não sabem o que é sentir medo, dor e aflição. Eu senti tudo isso. E a visão sumiu. Eu devo ter soltado a linha. Voltou a ser noite, e todos estavam ali se divertindo...
Eu comecei a chorar e caí no chão denovo. Meu coração batia muito forte, e eu fiquei preocupada... Não podiam me ver chorando assim...
Virei o rosto para as estrelas e passei a manga da jaqueta no meu rosto.
Saí dali rápido e trombei com Chara.
"Oh, olhe só, olá. O que a mocinha estava fazendo?"
"Ah, nada tia... Só..."
"Vendo as estrelas não é? Você gosta muito disso."
"Sim..."
"Que legal. Mas a sua expressão não foi muito feliz, eu acho. Você estava vendo... As possibilidades?"
Do quê que ela... Ah não. Ela me viu? Só eu tive essa visão? Ninguém mais viu certo? Então porque ela disse isso?
"O-o quê?"
"Ah nada não. Esqueça."

Depois disso tudo, ninguém além dela perguntou nada pra mim. Que bom.

Eu...  Eu preciso... "dormir". Preciso falar com Gaster...
Porque se tem alguém que vai se encher de perguntas, esse alguém é ele.

LegacytaleWhere stories live. Discover now