Chuva. Sinto a chuva cair no meu corpo. Meu corpo não estava morto, mas meu espirito sim.
Ouço meu nome, e os gritos de Pedro que me puxa do chão como quem tenta me reanimar. Ele grita pelos outros e por socorro. Com minha cabeça em seu colo consigo ver minha camisa que agora já não era mais branca. Era vermelha. Vermelho sangue. Meu olhos se fecharam novamente. Tento me mover, mas não consigo. Não sinto meu corpo.
Ouço mais gritos, mais vozes, mas não consigo ficar acordado.
...
"Estou em casa deitado no sofá, Lana ainda filhote corre até mim. Na cozinha ouço a voz de minha mãe me chamando. Meu coração está em paz, feliz, radiante. Como eu sentia falta daquela voz me chamando.
- Levanta, sai dessa tv e vem almoçar. - Ela diz. Na tv passava o Xou da Xuxa e na vitrola tocava Ângela Maria. Acho que eu morri e estou no céu, no meu céu. No que eu acreditava ser o céu naquele momento.
Corro até ela e a abraço dizendo o quanto eu a amo. Choro abraçado e sentindo seu cheiro.
- Porque você está chorando? - Ela pergunta.
- Acho que eu morri.
- Você não morreu, nem pode morrer. Não agora. Lembre-se do que eu te falava sempre. Busque seus sonhos. Não deixe que nada o impeça de ser quem você é. Viva oque você quer viver, até o fim. Vá atrás até as ultimas consequências. Ninguém pode te dizer oque fazer. - Ela disse passando as mãos molhadas em meu rosto. - Eu te amo, você é o filho que eu pedi a Deus. Viva seus sonhos.
...
Abro os olhos e vejo as luzes do hospital. Uma enfermeira com o mesmo nome da minha mãe troca o meu soro.
- Oi Gabriel. Que bom que você acordou. Vou chamar o médico. - Diz a enfermeira Lúcia antes de sair do quarto.
Eu estou estranho. Meus olhos queimam, mas eu não consigo coça-los. Tento me mover e também não obtenho sucesso.
Me desespero. Não consigo sentir o meu corpo e começo a gritar.
Ela voltou com o médico que me olhou nos olhos e começou a tentar me acalmar.
- Calma Gabriel. Me escute! Oque está acontecendo? - Ele perguntou.
Eu disse que não conseguia sentir meu corpo. Ele continuou pedindo que eu me acalmasse e me explicou tudo o que tinha acontecido.
Eu estava com duas costelas quebradas, um braço operado por conta de uma fratura exposta, as duas pernas muito machucadas, e tinha acabado de acordar de um coma induzido de cinco dias.
- Você deu sorte de estar vivo Gabriel. Tivemos que operar sua cabeça por conta de uma hemorragia. Por isso você pensa que não está sentindo seu corpo. É só um reflexo do que você passou. Mas se tudo der certo em algumas horas seu quadro vai voltar ao normal. Seu anjo da guarda trabalhou bem. - Ele disse com um sorriso no rosto.
Sorte. Será que eu tinha sorte de estar vivo?
Após a visita do médico, Pedro e Laura entraram no quarto. Pedro trazia algumas flores, enquanto Laura tinha alguns biscoitos em uma vasilha.
- Finalmente acordou Gabriel, minhas orações fizeram efeito. Nós estávamos muito tristes com toda essa situação. - Laura disse me dando um beijo na testa. Enquanto Pedro segurava minha mão do outro lado da cama.
Eu não consegui falar muito. Não queria dizer a eles como eu me sentia naquele momento. Eu estava literalmente destruído.
Elena havia voltado pra Nova York e deixado um bilhete pra mim em casa, e prometeu voltar assim que possível. Já Lana, havia passado esses dias cabisbaixa e quase não comia, "parece que ela sabe" dizia Laura.
Eu ainda estava na área de terapia intensiva, por conta disso as visitas não podiam durar muito tempo. Eles me perguntavam oque tinha acontecido e eu só dizia que não lembrava. Segundo Pedro, a polícia estava investigando como ataque homofóbico, e tentativa de assassinato, já que nada havia sido roubado.
Fim da hora de visitas, hora de voltar a dormir. A enfermeira me deu uma injeção que me fez apagar novamente em segundos.
Dessa vez sonhei com um campo de girassóis, Gustavo vinha em minha direção dizendo o quanto me amava. Minha vontade era de correr até ele, mas eu estava acorrentado ao chão. O desespero tomava conta de mim. Eu me senti sem ar e de repente tudo escureceu. As flores estavam mortas e uma chuva torrencial caía. Gustavo havia sumido.
Acordei gritando.
- Gabriel, acorda. Acorda você teve um pesadelo. - Eu reconheci a voz, mas meus olhos não abriam. - Calma, respira. Eu estou aqui.
Com alguma dificuldade, eu consegui abrir os olhos e vi Gustavo ali do meu lado.
- Oque você está fazendo aqui? - Perguntei chorando. - Vai embora Gustavo. Eu não quero te ver. Sai da minha vida, isso tudo é culpa sua.
- Como assim, culpa minha? Oque foi que eu fiz? - Ele disse segurando meu rosto que doía.
Eu fechei os olhos e não queria mais dizer nada.
- Desculpa Gabriel, eu fui um fraco. Eu não devia ter te deixado, por favor, fala comigo, eu não estou mais conseguindo viver sem você. Eu estou há cinco dias sem dormir. Tive medo de te perder pra sempre. - Ele disse chorando.
- Foi o Fábio - Eu disse.
Seus músculos se retraíram e eu pude sentir a fúria nos seus olhos.
- Eu estou nessa cama de hospital por causa dele Gustavo. Seu amigo fez isso comigo. Eu estou sem sentir meu corpo por causa dele e muito provavelmente por causa da sua esposa.
- Como assim? Como você sabe que foi ele? - Ele perguntou andando pelo quarto.
Eu disse que um pouco antes de apagar, senti alguém se aproximando de mim e dizendo em meu ouvido "gostou coisinha? Eu te disse pra manter distância". Fábio havia feito aquilo comigo, e ele não estava sozinho.
Gustavo se ajoelhou e começou a chorar feito uma criança.
- Não adianta chorar Gustavo. Por sorte eu estou vivo. Agora sai daqui e volta pra sua esposa. Com sorte eu saio logo dessa cama e vou embora da cidade.
- Eu não estou casado com a Claudia, eu dei entrada nos papéis há algum tempo. Eu só estou morando na casa da minha sogra até a audiência pra decidir quem vai ficar com a guarda do Théo. Eu tentei te dizer isso no dia da festa. - Gustavo então abre a camisa e me mostra a medalha. - Ta vendo isso aqui? Eu nunca tirei do peito. Eu nunca consegui te esquecer Gabriel, é com você que eu quero ficar pelo resto da vida. Só fiz isso tudo pelo meu filho, me perdoa Gabriel, por favor.
Gustavo estava chorando ao meu lado e leva minha mão até o seu peito.
- Está sentindo? Meu coração só bate assim quando eu estou perto de você. - E pela primeira vez depois de acordar eu pude sentir minha mão. Ainda sem forças pra mantê-la em pé, mas eu pude sentir os pelos do peito de Gustavo, e seu coração disparado.
- Vai embora Gustavo! Por favor, vai embora. Eu não quero te ver! -Eu disse em meio às lagrimas que caíam.
Gustavo então atendeu ao meu pedido, mas não sem antes dizer que se vingaria de Fábio.
- Eu não vou deixar isso desse jeito. Ele vai pagar pelo que fez com você e eu vou te reconquistar Gabriel. Eu te amo e nunca mais vou deixar que nada nos separe. - Ele voltou e me beijou.
Eu amava o Gustavo, mas estava com raiva. Com raiva dele, com raiva de mim por amar aqueles olhos apertados por trás daqueles óculos.
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Até o fim...
RomanceFomos ensinados a acreditar que o amor é como os contos de fadas que víamos ou líamos quando éramos crianças. Mas no mundo real isso é bem diferente. Às vezes precisamos passar por alguns contratempos até conseguirmos chegar ao tão esperado "Felizes...
