"Oi Gabriel"

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Já havia se passado mais de um mês desde que chegamos de Nova York e a cada dia que se passava eu e Gustavo nos víamos e falávamos menos.

Com Pedro viajando, e Laura cuidando de Harold que estava no hospital após operar o joelho, eu me sentia sempre sozinho. Apesar do carinho de Lana, eu sentia falta de ter com quem conversar.

Até que certo dia voltando de uma breve caminhada com Lana, vejo Gustavo saindo de casa.

- Oi, Você não me disse que vinha aqui hoje. - Eu disse quase que baixo demais.

- Oi Gabriel.- Ele disse de costas, ainda fechando a porta de casa.

Eu podia sentir que ele estava me evitando.

- Nós precisamos conversar Gustavo. Eu entendo que você esteja preocupado com essa história da guarda do Théo, mas eu estou sentindo a sua falta. Você não me liga mais e quando vem aqui, vai embora sem ao menos falar comigo. Está acontecendo alguma coisa? Eu fiz algo errado? - Ele estava parado, sem conseguir olhar nos meus olhos. - Olha pra mim Gustavo, fala alguma coisa pelo amor de Deus!

- Eu vou voltar pra Claudia! - Ele disse ainda sem olhar pra mim.

Eu não conseguia dizer nada. As palavras simplesmente não saiam da minha boca. Me faltava ar. Lana que parecia saber oque estava acontecendo, fazia "carinho" com o focinho em minha mão.

- Como assim? - Foi tudo oque eu conseguia dizer.

- Eu recebi um e-mail com uma foto nossa na boate. E um texto que dizia que eu precisava voltar a ser quem eu era, ou essas fotos parariam nas mãos do juiz. Você sabe oque isso significa Gabriel? Significa que eu posso perder o meu filho pra sempre. E ele é uma das coisas mais importantes da minha vida Gabriel. - Ele leva as mãos ao pescoço e tira o colar que eu dei a ele. - Toma, isso é seu!

Eu não conseguia me mexer ao ouvir aquelas palavras, mas ao ver ele me devolver o cordão, me fez ter uma reação que eu nunca imaginei ter.

O empurrei com força com as duas mãos, que o fez dar alguns passos pra trás, seguidos de vários tapas, aos quais ele não revidou. Misturado com todos os tapas, socos e empurrões, eu pedia que ele me dissesse que aquilo era tudo mentira. Gustavo que não reagiu em momento algum, me abraçou com força e começou a chorar.

- Me perdoa. Eu te amo, mas eu não posso. Eu te amo muito, mas eu não posso! - Ele disse me beijando, como se aquele beijo fosse o ultimo suspiro do nosso amor.

- Posso te pedir uma coisa? Fica com a medalha. Assim, sempre que você olhar pra ela, você vai se lembrar de mim. - Eu pedi colocando o cordão de volta no pescoço dele.

Nós não nos despedimos. Ele entrou no carro e partiu!

...

Passei dias trancado dentro de casa. Só via a luz do sol, que agora quase não dava as caras, quando abria a porta pra receber Iza, que vinha trazer comida. Já que eu não tinha coragem de aparecer na cidade e dar de cara com Claudia e Gustavo juntos.
Segundo Iza, ela agora fazia questão de fazer compras na cidade, mas estava sempre acompanhada de Fábio.

- Gustavo nunca mais apareceu lá no centro Gabriel. Pelo menos não com ela. Das pouquíssimas vezes em que o vi por lá, foi com o Théo. - Ela dizia isso, ou o quanto a Claudia estava feia, (como se isso fosse possível), toda vez que nos encontrávamos.

Certa noite pedi uma pizza e não foi ela quem veio fazer a entrega. E sim o Pedro. Chovia bastante aquela noite. O tempo de Lilith parecia ter voltado ao "normal".

- Boa noite! Foi daqui que pediram uma pizza de frango com catupiry com borda recheada extragrande? - Ele disse ainda de capacete.

- Oi Pedro! - Eu disse vestindo meu pijama do Star Wars. - Entra logo antes que a pizza esfrie.

Pedro então tirou aquela parafernália que os motoqueiros usam pra andar de moto na chuva, e eu pude ver que por baixo de todas aquelas capas, ele vestia um pijama de unicórnio rosa.

- Que merda é essa Pedro? - Eu disse sem conseguir segurar o riso.

- Eu fiquei sabendo dos últimos acontecimentos e tinha certeza de que você estaria trancado em casa, de pijamas e assistindo filmes de terror. Qual é o de hoje? Humm, O exorcista. Você sabe que eu tenho medo, mas vou te acompanhar. Posso? - Ele perguntou balançando o chifre do unicórnio. Pedro tinha acabado de voltar de Los Angeles, onde precisou ir resolver algo referente ao seu diploma.

Eu não podia dizer não pra ele. Fora que eu estava precisando de companhia, nem que fosse pra ficar em silêncio.

Pedro passou o tempo todo falando idiotices pra me fazer rir. E por mais doloroso que fosse, eu conseguia sorrir.

Deitamos no chão da sala e lá pela metade do filme ele perguntou se podia me abraçar.

- Melhor não Pedro! - Eu disse.

- Hey, é só um abraço. Oque isso pode fazer de mal? - Ele disse me puxando para o lado dele.

Passamos a noite ali. Abraçados no tapete da sala e acordamos com Lana lambendo nossos rostos.

- Nossa que saudades que eu tinha de ser acordado assim. Lembra de quando...- Eu o interrompi.

- Pedro, eu estou me recuperando de uma situação que não me fez bem. Eu não tenho condições de me envolver com ninguém por enquanto. Não vamos começar a falar de nós, por que isso não vai acontecer. Pelo menos não agora. - Eu disse me levantando.

Ele então me puxa pela cintura e me joga no chão novamente. E subindo em cima de mim, ele faz um "juramento".

- Eu juro que só quero fazer o possível pra te ver sorrindo novamente. Juro jamais tentar te beijar, abraçar, ou fazer qualquer outra coisa sem o seu consentimento. Seremos só bons amigos que um dia já foram namorados. - Ele disse me dando um abraço apertado.

- Já quebrou um dos juramentos. - Eu disse enquanto nós riamos deitados no chão da sala.

Tomamos um café reforçado e ele me convenceu após uma boa caminhada, a ir almoçar no restaurante de Iza, onde ao chegarmos fui surpreendido com um abraço apertado.

- Finalmente saiu da toca, senhor morcego. Você conseguiu hein Pedro. - Ela disse beijando meu rosto. - Sentem-se que eu vou preparar algo especial pra vocês.

Nos sentamos e enquanto esperávamos o almoço, vejo Claudia entrar, mas ela não me vê.
Fico quase imóvel, rezando pra ela saia do restaurante sem me ver. Ela havia entrado somente pra comprar um maço de cigarros.
Mas assim que ela pega o que veio buscar, Fábio entra e Lana o vê. E como um cão de guarda ela rosna ao vê-lo e aquilo chama atenção dos dois.

- Olha quem eu vejo aqui? - Claudia veio com seu andar de lince até nossa mesa.

Lana se retrai ao meu lado. Mas eu a faço ficar quieta.

- Tudo bem Gabriel? Você anda sumido, nunca mais te vi por aqui. Aconteceu alguma coisa? - Ela disse com num ar de deboche, enquanto Fábio nos encara de longe. Eu não conseguia falar nada e talvez esse deva ser o meu maior defeito. Com uma das mãos ela leva um cigarro até a boca, e com a outra aciona o isqueiro.

- Hey querida! Aqui não é lugar pra fumar. Quer fumar seu cigarro, pode fumar a vontade, mas antes sai do meu restaurante por favor. - Iza diz vindo da cozinha e aponta a saída com uma das mãos.

- Calma Honey, eu já estou de saída. Foi bom ver você Gabriel. Vou dizer pro meu marido que nos vimos. Até logo! - Ela acenou de costas enquanto saía do restaurante.

Eu não consegui comer após aquela cena. Parece que sair de casa não tinha sido uma boa ideia. 

Até o fim...Histórias para pegar e não largar. Descubra agora