Ciúmes

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A culpa alastrada por meu peito se intensificou quando ouvi sua voz abalada e piorou depois que tive coragem de levantar a cabeça e ver seu rosto com algo além da decepção. O sofrimento também era extremamente perceptível aqueles olhos azuis.

Meu noivado sempre foi motivo de alegria e esperança de dias melhores para mim, como em um perfeito sonho, um conto de fadas onde meu cavalheiro da armadura branca finalmente me resgataria de uma vida de sofrimento e angustias. Porém, naquele momento estava tudo invertido. Não pude fazer o que Robin me pedia, como eu poderia negar o noivado? Como mentiria descaradamente para ele? Infelizmente, eu não podia.

O casamento havia deixado de ser um orgulho, sem eu mesma perceber. A ideia tornou-se um fardo pesado o suficiente para esmagar a constante felicidade que já estava me acostumando a ter, cortou sem pena aquela alegria que Robin me entregava todos os dias desde quando pisei na casa.

Com o homem dos olhos azuis feito o mar, eu me sentia à vontade para ser eu mesma; não havia pressão para ser de um jeito ou me comportar de tal maneira; sorrir era fácil; saber o que ele pensava só o olhando também. A estranha conexão entre nós dois era forte demais e eu já não lutava contra. Por vezes me vi deixando de racionalizar e apenas permiti ser guiada pelo que sentia.

A maior prova disso era acordar feliz e disposta todos os dias. Nunca fui uma pessoa matutina, mas sabia que Robin era e meu interior pulsava para sair da cama e tomar café com ele. Não me arrependeria jamais, aquilo era algo nosso, um momento só meu e dele. Sentados na mesa de jantar, nós não falávamos nada além do bom dia, mas nossos olhares não nos deixaram sem assunto.

Aquele ladrão irritante me fez viciar em seu cheiro de floresta e ainda sorria quando flagrava eu me inclinando para sentir o aroma exalado de seu pescoço, um perfume amadeirado com toque de frescor. Era impossível me deter. Em cada dia, eu me convencia de que aquilo não voltaria a se repetir, todavia, sempre se repetia. Mesmo quando me mudei para o quarto de baixo e ele não precisava mais me carregar em seus braços, eu dava um jeito. Robin percebendo ou não.

Quando estávamos só nós dois, meu nome era esquecido e eu amava isso. As palavras "anjo" e "rainha" tornaram-se as minhas favoritas somente por saírem de sua boca e, secretamente, causavam um arrepio por todo meu corpo quando vinham acompanhadas pelo pronome possessivo. Em uma linda ilusão eu era sua, um doce delírio destruído pela realidade.

Depois de confirmar e encarar sua mirada, senti a ligação entre nós se romper. Robin em um silêncio perturbador, saiu em passos largos da minha frente e praticamente subiu as escadas correndo; galgando três degraus por vez, ele sumiu da minha vista. Fiquei para trás com o coração partido e sendo consumida pelo remorso de ser a única culpada pelo sofrimento dele.

Não podia correr atrás dele por conta da perna, não podia gritar por ele porque não tinha esse direito. O estrago já estava feito e eu o havia perdido sem nem ao menos o ter.

O choro preso em meu peito estava há um instante de vir à tona, mas antes de me derramar em pranto do lado de fora da casa Locksley, entrei e corri – na medida do possível – rumo ao quarto de hospedes. Mal fechei a porta quando a mesma foi aberta por uma Emma nervosa e falando algo muito rápido, a loira se embolava nas palavras. Virei em sua direção, tentando enxugar as lágrimas, mas com pouco sucesso. Assim que viu o estado deplorável que me encontrava, ela parou sua fala e me perguntou preocupada:

― Meu Deus, Regina, o que foi?

Não consegui falar e nem ver, as lágrimas embaçaram meus olhos, os inundando antes de escorrer por meu rosto. Um pranto feio, alto e impossível de deter assustou Emma, a deixando sem reação. Pouco me importava o que ela pensava ou julgava, naquele momento, eu me permiti ser fraca e demonstrar o quanto meu coração estava machucado por, ironicamente, consequências de meus próprios atos. As lembranças do olhar triste dele e da sensação de luto que aquela confirmação acompanhava era dolorido demais; machuquei um homem maravilhoso e o perdi sem ao menos o ter.

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