Deitado sobre jornais, sentia o bafo quente do rio aquecer-lhe o rosto na noite úmida e fria. João gostava de ficar assim, matutando sobre a vida, sobre a sua vida. Fora tudo um erro, uma ilusão, mas foi bom enquanto durou, pensava ele, aflorando um riso de nostalgia e tristeza, assim como noite sem estrela.
João lembrava, lembrava muito, gostava disso. Sua terra distante, o trem a conduzi-lo entusiasmado e cheio de ilusões rumo à cidade grande.
Ele admirava muito os heróis da literatura de cordel. Lá tudo era tão fácil. Saia-se a correr o reino, era-se esperto, derrotava-se os obstáculos e, sempre, casava-se com a filha do rei. Era tudo tão fácil, mas João nem sabia que reis não mais existiam. Mal sabia que essa ilusão era de vida e morte e não daqueles sonhos no papel que, como sonhos, facilmente se desvaneceram ao amanhecer tristonho do dia das descobertas. E como reter esses sonhos? Como reter o bafo quente do rio só para si? Os jornais eram tão frios...
Mas foi bom! O balançar do trem — Bagadam-bagadam! Bagadam-bagadam! — acalentando-o. As baldeações. A emoção da última, quando o final da linha seria a cidade grande, seus sonhos, seus arranha-céus, suas riquezas, suas felicidades ocultas. Tão bem ocultas. Onde achá-las?
Mas foi bom! O vento inoportuno que volta e meia agitava-lhe os cabelos suavemente, quando alguém deixava aberta a porta do vagão...
E como descrever a emoção basbaqueante daquela fertilidade de concreto e indiferença, ante olhos cansados de uma terra árida de civilização? Como narrar aquela estonteante visão que, ao despertar num solavanco, descortinou-se ante seus olhos semi-despertos? Talvez fosse um sonho ou o principiar de um pesadelo.
O principio foi bom. Todo principiar era bom. Tudo era novo, coisas novas deslumbrando olhos maravilhados e incrédulos.
— Como é que aquilo se agUenta em pé?
Depois, depois... Foi bom enquanto durou!
Depois, João olhava-se e não conseguia mais reconhecer-se. Andrajos, farrapos, um esqueleto andante, a desonra dos heróis, o fracasso dos sonhos, a mão calejada pulando de um serviço ao outro, suando, sangrando bolhas sem se acomodar. Tudo era tão rude, tão difícil. Seus sonhos foram se desfazendo como fumaça no ar. E como reter a fumaça? Como reter o vento que, virava e mexia, ensejava carregar seus jornais, cobertores da sua miséria sem panos, cheia de sonhos mortos, fumaça desfeita no ar.
— Por que a gente é tão besta? — perguntava-se sempre, quando o dia-a-dia ia matando seus sonhos, deixando-os para trás, atirados ao anonimato, sem princesa, só tristeza, nada mais.
— Por que o homem nunca tá onde qué tá? Por que não larga mão de sê besta, se contenta com o que tem e dá graças a Deus inda por cima? É isso, qué mais, sempre mais, coisa mió; sai corre mundo, sem cavalo inda por cima, sem cavalo... besta, besta, besta!
Assim era João, portador de sonhos mortos, de ilusões perdidas na fumaça do ar, assim como a neblina que o rio perdia ao amanhecer. E como reter a fumaça? Como reter aquele arrepio que toda hora vinha atentar e infiltrar-se meio aos andrajos, lâmina fina de um aço frio e rasgar suas carnes.
Poucas eram as alegrias de João em suas noites cansadas. Mas João gostava de pensar: se dia mais, dia menos morresse, não daria preocupação a ninguém, a não ser à prefeitura, talvez. Ninguém se atarantaria com os despojos do seu inventário. Pouca coisa: farrapos, jornais colhidos ao léu, uma lata de marmelada à guisa de prato, uma caneca de lata, que mais? Sua casa? Era de sonhos perdidos. Toda ponte é pública e, sob ela, havia sempre lugar para mais um mísero portador de ilusões desfeitas. E assim, ninguém se digladiaria pela sua fortuna, como urubus disputando uma carniça. Triste consolo!
E João pensava, pensava muito, pensava nisso. Só que, nesse ponto, chorava seus enganos, suas mágoas, a fumaça desfeita e perdida. E como reter a fumaça? Como reter aquelas lágrimas inoportunas que escorriam pelas faces e nas noites de lua brilhavam, refletindo um gosto amargo no canto da boca? João entristecia porque, por outro lado, ninguém choraria por ele. Por ninguém seria sentido. Ninguém se lembraria dele: cadáver de indigente morto de fome ou de frio, num túmulo sem forma e sem flores, cruzinha perdida, triste, resto de uma vida anônima, de sonhos mortos, num cemitério qualquer, de um bairro qualquer.
— Mas o home é besta. Nunca sabe o que qué. Tá sempre se mexendo. Sai corre mundo sem cavalo. Sem cavalo! Sem cavalo inda por cima. Como vencê assim? Besta!
Um dia João conseguiu um emprego de auxiliar atirador de tijolos numa construção qualquer, contribuinte humilde e anônimo do progresso da cidade grande, assassina de sonhos, rio de neblina que se desvanecia com a chegada do sol.
E João trabalhava. Quem sabe o que seria ali? Talvez até um albergue onde portadores de sonhos mortos e ilusões desfeitas tivessem abrigo nas noites frias e alimentos em pratos de louça. Talvez até talhares...
Mas a vida humana é como sonho. Cedo ou tarde a gente tem de acordar. E como reter esses sonhos? É o mesmo que reter a fumaça. E como reter a fumaça? É o mesmo que reter a vida. E como reter a vida? Como? Como?? Como???
Um dia um tijolo caiu em sua cabeça.
João morreu!
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CONTOS DO MAGO DAS LETRAS
ContoSituações inusitadas, cidade e sertão, polícia e pescaria, fantasmas e fadas, personagens surpreendentes, todos se reúnem em um tempo indefinido na visão do Mago das Letras. Contos para ler sem remorso, talvez com um pouco de humor ou um toque fantá...
