POVO ELEITO

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Uma sala, uma mesa, quatro cadeiras. Do cenário tomam parte quatro pessoas: dois jovens barbados, um homem alto, de idade, loiro, e um velho, gordo, baixo e calvo. Este último fala:

— Temos de acabar com isso; não se pode mais professar uma religião num pais que se diz livre?

— A culpa é dos padres — diz o loiro.

— Abaixo os padres — falam os jovens barbados em coro.

— Estamos aqui — continua o gordo — para planejarmos uma vingança contra a injuriosa perseguição que dispersou nossa religião e os nossos.

— Vingança, vingança — fazem coro os outros três.

— Não se pode pregar a promiscuidade livre num templo de divindades e já somos chamados de pagãos — continua o gordo. — Afinal nós somos a religião, nosso seguidores nos respeitam, que mal há em nossa bandeira? Os órgãos genitais em profunda relação não serão a coisa mais bela desse mundo? São a origem de tudo e da nossa religião. Que mal há nisso? Somente porque os puritanos nos acusam somos perseguidos, somos mártires atirados às feras da policia. Vingança, vingança, eu clamo!

— Vingança, vingança — repetem os outros.

— Nosso plano é este — fala o gordo.

Os outros rodeiam-no e ele, aos cochichos, explica o modus operandi.

* * *

Uma rua escura, um caminhão dos grandes, parado, luzes apagadas, quatro cigarros brilhando na escuridão.

— Só quero ver a cara daqueles miseráveis ao verem o caminhão indo ao encontro da procissão. Eles gostaram, por certo, de ver as nossas quando a polícia nos perseguiu, após arrombar as portas do nosso templo. Eles que se afumentem que a nossa hora chegou. O sacrilégio não ficará impune — falou o gordo.

— Vingança, vingança — clamaram os outros.

* * *

Um santuário, um altar, imagens de santos, luzes em profusão, um padre, dois párocos.

—... e assim fiquei sabendo de tudo — está falando um dos párocos. — Eles querem acabar com a procissão, atirando um caminho ao encontro da multidão. Muitos inocentes morrerão na correria. Homens, mulheres, crianças, será um inferno. O senhor, padre, não pode de maneira alguma permitir a saída da procissão. A polícia está tentando encontrá-los, mas até agora nada conseguiu.

— É uma loucura! — diz o outro pároco nervosamente.

— Honras sejam feitas ao Senhor que é justo e sabe o que faz — fala o padre.

* * *

No caminhão, apagaram-se os cigarros.

— Malditos! Não respeitam horário? — fala nervosamente o gordo. — Por que nos deixam nesta expectativa?

— Hereges! — respondem os três restantes.

— Não há ordem, como querem religião? — diz o loiro.

— Mas verão de um jeito ou de outro, logo, logo, muito logo, como é bom perseguir os outros — fala o gordo. — Vingança é o que buscamos.

— Vingança, vingança — repetem os outros três.

* * *

Uma rua, muitas luzes, muita gente, andores, incenso, cheiro de velas, cânticos e rezas.

CONTOS DO MAGO DAS LETRASOnde histórias criam vida. Descubra agora