O TIRO TORTO

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A reunião fora convocada para uma reconstituição do crime, mas, ou aquela loura era uma excelente atriz, pensando que poderia enganá-lo ou, então, estava falando a verdade. De outra forma, não havia como entender aquele quadro, por mais que o Detetive Frank Duce examinasse as provas e os laudos feitos pela perícia e pelo legista. Para complicar ainda mais a situação, a bala assassina simplesmente não fora encontrada no local do crime. Possivelmente estava perdida, após atravessar a vítima e sumir pela janela aberta, no momento do crime.

Ele se levantou, caminhou de um lado para outro da sala, enquanto tomava uma xícara de café. Os olhos vermelhos da loura o acompanharam todo o tempo. Ele parou, acendeu um cigarro e assoprou a fumaça para o alto.

— Ok, conte de novo o que aconteceu no quarto naquela noite! — ordenou ele, tentando aparentar uma paciência que já não tinha mais.

— Oh, não! De novo não. Eu já repeti e repeti e repeti isso dezenas de vezes. Eu atirei nele. Ele quis me assustar... Entrou pela janela, como um ladrão. Fiquei apavorada... Disparei...

— Você disparou apenas um tiro à queima-roupa, não foi?

— Foi o que eu disse. Ele caiu para trás e eu fugi, assustada.

Frank pensou numa contradição, já que um dos vizinhos jurara ter ouvido dois tiros. Só que havia apenas uma cápsula deflagrada no tambor do revólver. Teria que ter havido uma outra arma na cena do crime, mas isso não pudera ser comprovado, pois não havia o projétil para comprovar isso.

— Onde conseguiu a arma?

— Peter, aqui presente, me emprestou.

Antes de continuar, Frank deu uma olhada no homem elegante, de maneiras afetadas, que acompanhava o interrogatório, ao lado do advogado. Era Peter Gordon, meio-irmão da vítima.

— E por que ele lhe emprestou a arma?

— Tentaram arrombar meu apartamento um dia desses e eu contei ao Peter...

O detetive respirou fundo. Aquela garota vinha repetindo a mesma história durante todo o dia, sem vacilar, sem mudar uma vírgula. Não hesitava, não falseava, apenas repetia a mesma coisa. Como explicar, então, algumas coisas que simplesmente não se encaixavam?

Ela jurava ter atirado frente a frente na vítima. A marca de pólvora nas roupas e na pele confirmava isso, só que o laudo do legista indicava que a bala desenvolvera uma trajetória de baixo para cima, com uma inclinação ligeira para a direita, como se o tiro tivesse sido disparado quando a vítima já estava caída. Isso se encaixava perfeitamente à maneira como o sangue empoçara no local e no estranho e inexplicável buraco localizado no assoalho, sob o corpo da vítima.

Outra coisa que o detetive não entendia era aquela ligeira inclinação da bala no sentido da esquerda para a direita.

— Se tem elementos para uma acusação formal contra a minha cliente, gostaria que isso fosse feito agora, detetive, para que eu possa tomar as providências necessárias — disse o advogado da garota.

— Sua cliente confessou o crime e...

— Sim, mas as provas contidas nos laudos periciais desmentem a minha cliente e não há como provar que o tiro foi disparado por ela, com a arma que ela portava. A vítima pode ter desmaiado de susto e alguém ter aparecido em seguida e disparado contra ela.

O detetive olhou para o revólver, acondicionado num saquinho plástico, juntamente com outras provas encontradas no local do crime. Manuseou-a por instantes. Seu olhar foi pousar, então, numa fotografia emoldurada que mostrava a vítima e seu meio-irmão. Brindavam a alguma coisa, pois ambos seguravam uma taça de champanhe cada um.

Frank apanhou a foto e levou-a até onde estava Peter Gordon.

— É você ao lado da vítima? — indagou, enquanto estendia a foto.

Peter a apanhou. Quando isso aconteceu, uma luz brilhou na mente do policial. Ele parou por instantes, olhando a foto na mão do outro, depois retornou e foi apanhar uma foto ampliada que mostrava a vítima na cena do crime.

Examinou-a por instantes, depois se voltou para a garota.

— Você já havia atirado antes com uma arma?

— Não, nunca!

— Verificou os projéteis que estavam nela?

— E por que eu o faria? Tinha medo de armas. Só aceitei ficar com ela porque tinha mais medo de ladrões do que de outra coisa.

— E Peter sabia do seu medo de ladrões?

— Sim, eu sempre comentava isso com ele e ele ria de mim. Meu marido morria de medo de armas, por isso nunca lhe contei sobre esse presente mortal. Pete me ensinou a usar a arma às escondidas.

Enquanto fazia as perguntas, o detetive mantinha os olhos fixos em Peter Gordon, que o olhava alarmado.

— Sabe a diferença entre um projétil real e um de festim? — continuou Frank, dirigindo-se à jovem.

— E por que deveria? — retrucou ela, sem entender o motivo de todas aquelas perguntas.

Peter cochichou alguma coisa com o advogado, que tomou a palavra.

— Detetive, pelo que vejo, está divagando, sem chegar a lugar algum. Se vai formalizar a acusação, faça-o agora. Caso contrário, vamos nos retirar imediatamente.

Frank se lembrou de alguns detalhes daquele processo e isso foi o bastante para concluir o caso. Havia valiosos bens de família que seria divididos com o meio-irmão no testamento do morto. Esse meio-irmão era um boa vida, atualmente endividado até o pescoço, conforme fora apurado nas investigações. Frank tinha o motivo e as provas para chegar à conclusão final.

—Tem razão, advogado. Não foi ela quem matou. Acredito que a arma que ela usou estava carregada com uma bala de festim. Quando a vítima caiu para trás,desmaiada de susto, possivelmente, e ela fugiu, alguém entrou e disparou uma bala de verdade, tomando o cuidado de localizar o projétil e sumir com ele,substituindo a cápsula deflagrada por outra intacta. Pela trajetória da bala,da esquerda para a direita, tudo me faz crer que quem a disparou era canhoto.Um canhoto com Peter Gordon — afirmou o detetive, olhando a foto que Peter ainda segurava com sua mão esquerda.    

CONTOS DO MAGO DAS LETRASOnde histórias criam vida. Descubra agora