"Para mim era aquilo uma situação
nova do nosso amor, uma aparência
de posses exclusiva, de domínio
absoluto, alguma coisa que me
faria adormecer a consciência...
( Machado de Assis in Memórias Póstumas de Brás Cubas, cap. LXVII ).
A chuva chegara com o vento a vergastar as árvores e a levantar finas nuvens de pó avermelhado. Os restos da fogueira deixavam voar fagulhas que iam embrenhar-se perigosamente na palhada seca. O chapéu de palha prêso à cabeça com fibra crua de rami vibrava ao vento. Ele cruzou o terreiro e entrou no casebre. Tirou o chapéu e atirou-o sobre a cadeira. Deitou-se.
As noites de espera eram duras, tristes como a visão das baratas e largatixas e se encontrarem pelas paredes. Ou então como a dança dos ratos no armário em busca de comida. As primeiras gotas de chuva dedilhavam modas de viola sobre o velho telhado. Talvez após a chuva ela viesse.
Mansamente, como a chama do lampião que tremulava, seus olhos fecharam-se para realidade e acordaram para o sonho. E no sonho ele chegava sempre sem atrasos, com seu corpo claro e seus olhos de luz a esparramar tranqüilidade sobre a pessoa do maquineiro. E entrava, rompendo as angústias acumuladas por longas noites de espera. Mas era tão fugas nos sonhos.
Mal chegava e já partia, deixando o resto de um perfume que bulia com o jasmineiro lá fora. E tão logo ela partia, chegava o boi fujão. Garrote gordo e cheio de energia, com olhos de fogo, como que incorporado pelo demônio, a vibrar seus chifres contra o ventre, em busca da mulher. mas sempre chegava atrasado. A sensação de que mais uma vez salvara-se a amada o conduzia a outros sonhos. Sonhos de ramizal tranqüilo, ondeando ao vento. E vinha o lago azul, azuladíssimo, onde os trabalhadores refrescavam os corpos no final do dia. E de novo a ameaça constante de um boi fujão, à beira da água, esparramando o pessoal, endoidecendo o pessoal, pisoteando, abrindo veias, arrancando dedos, punhos e braços, sumindo por trás dos montes, a urrar e gargalhar doidamente.
Depois da chuva talvez ela viesse. Ou mesmo depois dos sonhos, mas antes do extertorar da mulher, manchando as águas azuis do lago. E ele acordava esbaforido e corria à janela fitar o lago, tão perto, refletindo os clarões do céu. Nada havia de anormal, somente a placidez da superfície limpa, sem sombras de morte. E ele voltava para a cama, com o marasmo da inutilidade a infiltrar-se pelos seus músculos fortes, acostumados a segurar tranco de máquina. Mas que sabia ele de boi?
A claridade do céu já era fixa, quando ele acordou. No leito, nenhum resto de perfume ou odor noturno denunciava uma passagem feminina. Apenas calçou as botas, dormira vestido.
Havia terminado o café, quando o garoto chegou. Trazia na ponta da língua o recado ordenado:
— O senhor doutor João das Neves pede para o senhor dar um pulo lá na casa dele, agora, mor de que ele carece de falar com o senhor sobre assunto de interesse.
— Vai, moleque. Diga a ele que já estou indo.
Tão rápido como chegara o garoto saiu, a chutar palha de minha e a espantar pássaros na alameda de abacateiros, atirando-lhes torrões.
Após fechar o casebre, passou pela alameda com seu andar bamboleante de homem acostumado ao gingado da máquina. ao chegar à casa notou a sombra por trás da cortina de uma das janelas. Veio-lhe à mente o sonho: no corpo vibrou um tremer emocionado.
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CONTOS DO MAGO DAS LETRAS
ContoSituações inusitadas, cidade e sertão, polícia e pescaria, fantasmas e fadas, personagens surpreendentes, todos se reúnem em um tempo indefinido na visão do Mago das Letras. Contos para ler sem remorso, talvez com um pouco de humor ou um toque fantá...
