FEBRE VERDE

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Aqui, sim, aqui mesmo fixar quero meu eterno repouso,
e desta carne lassa do mundo sacudir o jugo das estrelas funestas.
 Olhos, vede mais uma vez: é a última.

(Shakespearein Romeu e Julieta, ato V, cena III)    


Duas horas da tarde. O armazém estava cheio.

Eles vinham de todo canto: do cafezal, além da ponte da estrada de ferro e na entrada do asfalto; do mamonal ao redor do campo de aviação que, àquela hora, era uma panela de pipoca, com o calor explodindo as bagas espinhudas; das horas à beira do Pirianito. Havia os pescadores do Congonhas; a turma do arrozal nas várzeas inundadas; os do gado e, em sua maioria, os do rami, a nova riqueza ameaçando as outras culturas como uma febre verde.

Sedentos. A cachaça aquecida descia refrescando. O cheiro de suor trepava pelas paredes e se dependurava nas vigas e sustentação do teto. Balcões tremiam ao som de vozes e brincadeiras. De vez em quando, uma peixeira deixava um trilho de faíscas no cimento bruto: fanfarronices. A um canto, uma sanfona, um pandeiro e uma viola choravam saudades de matão. À porta, um maleitoso repuxava o capote sobre o corpo e disfarçava a tremedeira. Ao seu lado, Jucão esperava pelo avô.

Atrás dos balcões, o velho Nicolau e os filhos corriam entre caixas e sacos, caixotes e engradados. Garrafas se quebravam. O cheiro se esparramava, indo misturar-se ao do suor que pendia do teto.

Lá fora, para os lados das serras morenas, nuvens se juntavam. O ar se tornava parado, espesso. Folhas imóveis na poeira aguardavam uma brisa, envoltas no mormaço.

Junto aos rolos de fumo, alguém contava um causo numa roda de cachaça:

—Qual o quê? Ele nem ouvidos deu e, por fim, acabou mesmo esbodegado. Foi esbagaçado tal e qual um feixe de rami, enfiado na goela da boca de bronze. Fazer o que depois de acontecido? Bota mais uma cachaça pra mim, seu Nicolau. E me vê uma daquelas manjubas ali, só pra salgar a boca!

Olhos atentos acompanharam a cena. O contador de causos abriu a manjuba ao meio, retirou a espinha e mastigou-a com gosto. Depois bebeu um gole generoso de cachaça, estalando a língua com satisfação. Começou a picar fumo para um cigarro, enquanto continuava.

Meteu o cigarro na boca. Alguém estendeu um binga aceso. Ele baforou, sumindo numa nuvem de fumaça.

Alguém reforçou a dose de cachaça no copo do contador. Ele agradeceu com um sorriso e um movimento espontâneo de cabeça.

— Era justamente isso o que ele procurava: se perder pra sempre, sumir deste mundo sem deixar rastro que não fosse o esqueleto arrebentado na lama suja do rio...

Interrompeu-se para beber mais um pouco de cachaça. Olhos úmidos e brilhantes estavam fixos nele. Rostos tensos e silenciosos aguardavam a sequência da história trágica.

—Ele pôs a pedra no embornal, junto com as outras coisas. Subiu na árvore, até o galho que tombava sobre o rio. Foi com cuidado, com medo de cair, lentamente como havia levado o cadáver do pai no dia do enterro. Alcançou uma forquilha. O galho balançava, derrubando folhas secas sobre o rio, pequenos barcos flutuando sobre o paradão das águas escuras. Ele tirou a corda. Com nós cegos, amarrou uma ponta no galho e outra no pescoço. Calçou as balas na garrucha. Apanhou a garrafa, onde trazia o veneno, misturado com cachaça.

— Tudo isso era vontade de morrer?

— Pois, é. Seria muito azar se não morresse. Ia tomar veneno. Quando começasse a agonizar, ia dar dois tiros no ouvido. Quando caísse, quebraria o pescoço no tranco da corda. Se o veneno não matasse na hora, as balas matariam. Se elas falhassem, na ponta da corda, destroncando o pescoço, encontraria seu destino. Não tinha mesmo jeito de falhar. De um jeito ou de outro morreria. Tinha pensado muito bem nisso. Não tinha erro. Se após sua morte ninguém descobrisse o corpo, ele apodreceria e, corcomido pelos urubus, se arrebentaria. A pedra que trazia no picuá levaria ele até o fundo, até a lama suja do rio. Assim, de uma maneira ou de outra, de qualquer jeito, em breve estaria morto e livre da vergonha que sentia. Era seu desejo morrer. A morte não lhe assustava mais, como quando era criança. Ela ajudaria ele a apagar a mancha de derrotado que sujava ele e a esquecer, com certeza, o corpo do pai sobre a mesa, barrigada aberta por peixeirada e vingança. Culpa do jogo também...

CONTOS DO MAGO DAS LETRASOnde histórias criam vida. Descubra agora