Uma vez algum disse: não acredito em fantasmas... mas tenho medo deles! Hoje em dia esse tipo de crença acabou sendo ridicularizado pelos livros, filmes e desenhos infantis. Não há espaço no mundo moderno para formas diáfanas flutuando na noite, arrastando correntes, uivando, chorando ou rindo através de corredores sombrios. Essas imagens inesperadas não surgem mais nos espelhos das casas iluminadas por poderosas lâmpadas elétricas. Ninguém mais fica grilado com os barulhos noturnos no sótão da casa. A preocupação toda concentra-se no portão, no marginal que pode surgir a qualquer momento, na bala perdida ou no bêbado ao volante. Esses são fantasmas mais assustadores que os de antigamente, expulsos da cidade grande.
Se você for para o interior, hospedando-se numa velha casa, construída no século passado com madeira de lei, sem luz elétrica, certamente fará uma viagem a esse passado. Deitada, à noite, em sua cama, ouvirá estranhos estalidos. Antigamente diziam que eram fantasmas vagando pela casa. Hoje sabemos que são ruídos produzidos pela madeira que, durante o dia, aquecida pelo sol, expande-se. À noite, quando esfria, ela se contrai, estalando. É científico. E se você descer ao velho porão, no meio da noite, e ouvir um gemido, pode ter certeza de que é o vento soprando por alguma abertura ou passando por alguma fresta. Qualquer criança sabe.
À verdade é que fantasmas não existem. Se você estiver na cama e, de repente, ter a sensação estranha de que está deitada nos pés, não fique assustada. É um fenômeno comum, provocado pela excitação, pelo ambiente desconhecido onde você não tem referências para se orientar visualmente. Basta acender um fósforo para tudo voltar ao normal. Não foi nenhum fantasma que a virou na cama. E não se aborreça se procurar o travesseiro e o encontrar nos pés da cama. Você o pôs lá de alguma forma. Fique no escuro, de olhos abertos, imaginando por que teria feito isso. É divertido!
No interior, nas pequenas cidades ou nas antigas fazendas, sempre há casas ou locais considerados mal-assombrados. Normalmente têm uma aparência sinistra, com vegetação e árvores sombrias dando um clima fantasmagórico. O medo, na verdade, está do lado de fora da casa. Quando você entra, as teias de aranha, a poeira acumulada, uma velha mancha de sangue ou um estalido na madeira são acontecimentos absolutamente naturais e têm uma explicação. Essa história de que o sofrimento dos que viveram ou morreram ali ficaram impregnados nas paredes, assoalhos e teto é pura crendice. Fique ali por algum tempo e verá que nada a afetará. A sensação de angústia que tomará você de assalto é puramente psicológica. Você acredita que a energia negativa impregnada na madeira da construção pode fluir para seu corpo e carregá-la negativamente? Ora, nem uma criança acreditaria nisso.
Você já esteve num local onde houve uma tragédia? Um acidente, por exemplo, onde uma dezena ou mais pessoas morreram? Imagine um acidente de ônibus, muito comuns em nossas estradas mal conservadas. Por algum motivo, o veículo colidiu com uma árvore. Quinze pessoas morreram ali, no meio da noite. Acordaram com o guinchado dos freios, com o rangido do metal rasgando e sentiram no corpo o impacto violento com a árvore. O sangue deles a chuva lavou há muito tempo. Se você se sentar debaixo dessa árvore, num dia de sol, com uma brisa gostosa soprando, poderá fazer um tranqüilo piquenique, sem se preocupar com os fantasmas que moram ali. Afinal, fantasmas não existem. Sinta a brisa. Ela traz um cheiro estranho, mas é porque você não está acostumada com o cheiro de mato e de terra. Ouviu um gemido? Que bobagem! Foi o vento fazendo um galho esfregar-se no outro. Sentiu um arrepio inesperado o corpo? Foi a brisa fria ou o prenúncio de um resfriado. Fantasmas não existem! Convença-se disso!
Quando eu era criança e morava no interior, tinha um medo enorme de fantasmas. Todo mundo dizia que eram reais. Que existiam. Qualquer pessoa mais velha tinha uma história para contar. Era parte do chamado folclore. Eu mesma sei de algumas histórias. Até de uma que aconteceu comigo. Eu devia ter uns dez anos e fomos passar as férias no sítio do meu avô. Havia um rio enorme que passava na parte baixa do sítio, onde nós nos refrescávamos durante os dias quentes de verão. Na fazenda, situada rio acima, havia acontecido uma tragédia. A filha de um coronel havia se apaixonado por um simples colono que trabalhava no cafezal. Após algum tempo de namoro escondido, resolveram assumir o romance e contar ao pai dela que pretendiam se casar. A reação do ricaço foi imediato. Sem dizer uma só palavra, ele sacou o revólver e atirou no rapaz, matando-o ali, na frente da amada. Enlouquecida, a jovem correu para o rio, onde se atirou. Seu corpo jamais foi encontrado.
A história era por demais conhecida em toda a região. Uma tarde, já caindo a noite, eu estava na margem do rio, quando vi um corpo que boiava descendo tranqüilamente o rio. Era o de uma jovem. Ela descia o rio com os braços abertos e os cabelos espalhados ao redor da cabeço, produzindo intensos reflexos ao sol poente.
— Olá! — gritei eu e ela me ouviu, pondo-se de pé.
Sorridente, ela veio caminhando na minha direção. Na hora eu nem me lembrei que, naquele ponto da correnteza, o rio tinha alguns metros de profundidade. Ela trazia na mão um ramo de café. Eu podia ver os frutos vermelhos e lustrosos. Então ela parou de sorrir e começou a chorar. A uns dois ou três metros de mim, ela me olhou com uma expressão triste e desapareceu como um reflexo ou uma miragem. Ela simplesmente desapareceu.
Eu sei que existe uma explicação lógica para isso. E vou achá-la. Enquanto isso, guardo com um certo carinho aquele ramo de café. Os frutos continuam vermelhos e lustrosos até hoje!
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CONTOS DO MAGO DAS LETRAS
NouvellesSituações inusitadas, cidade e sertão, polícia e pescaria, fantasmas e fadas, personagens surpreendentes, todos se reúnem em um tempo indefinido na visão do Mago das Letras. Contos para ler sem remorso, talvez com um pouco de humor ou um toque fantá...
