Somos o que somos: um amontoado de coisas
sem nexo para os outros, umtodo completo
e perfeito para nós mesmo.
Na praça abaixo da Catedral, sento-me ao sol e abro meu Pasquim. Aprecio Millor, admiro Francis, vibro com a patota. Mas o sol queima as páginas do jornal e fere-me a vista. Levantou-me e procuro outro banco, à sombra.
Estou lendo o Festival de Piadas, quando o cara passa, arregala os olhos, balança a cabeça e abobalha-se, olhando para mim. Não me importei. Achei a coisa mais natural do mundo, mas o cara estranhou-me, deu algumas voltas e ficou olhando para mim, sem querer acreditar que o sol causava reflexos no zinco novo da Catedral.
Perturbei-me, cansei-me, guardei o jornal na caixa de fósforos, levantei-me e desci para a Rodoviária, rindo dos trambolhões, tropeções e tombos das pessoas que passavam por mim. Houve um quase acidente na Avenida Paraná, quando passei.
Na Rodoviária, eu bocejava, enquanto o bilheteiro enchia o talão de conservação e destacava a passagem. Errou no troco, deu algumas carimbadas nas mãos, alguém caiu na passarela e uma pobre mulher desmaiou.
Esperando meu ônibus, vibrei com o tombo do pintor que, de alto da escada, esbugalhou os olhos ao me ver. Pouco depois, eu tomava um Londrina-Ourinhos, abafado, apertado, desconfortável para os joelhos.
O cobrador picotou todas as notas que trazia na mão e deu-mas, dobrando a passagem e colocando-a entre os dedos. Precisei chamar sua atenção. Os passageiros olharam-me assustados. Uma senhora caiu degraus abaixo e o motorista atravessava sinais fechados, passando sobre um Volks, sempre olhando-me pelo retrovisor interno. Uma senhorita teve um faniquito e meu companheiro de viagem suava em bicas. Olhando pela janela, eu fitava a paisagem curiosa das casas sobrepostas e elogiava as formigas operárias, carregando tijolos nas antenas.
Um jovem parou o ônibus e pediu para descer. Quem estava no fundo levantava-se e os da frente olhavam para trás. Em Ibiporã, os que entravam tropeçavam e os que saiam desabavam. Curioso, enfim, virei-me e olhei em redor, vendo somente caras assustadas olhando para mim. Em Jataizinho, os que entravam desabavam e os que saíam tropeçavam. O calor incomodava-me e o suor escorria livre pelas mangas da camisa. Meu companheiro de viagem, não sei porque, pulou janela a fora e sumiu no meio da vegetação beira-estrada. Na encruzilhada, desci, ouvindo suspiros aliviados. Olhei e vi milhares de lenços enxugando rostos que sorriam mentirosos, meio sem graça até. Passando por mim, dois carros se chocaram e os acidentados, creio que desnorteados, subiram numa árvore à beira do asfalto.
Pouco depois eu tomava um Cornélio-Uraí e logo ao entrar notei desmaios e sustos por toda parte. Um outro passageiro pediu para descer, uma criança borrou todo o colo da mãe e uma carola rezava em voz baixa e murmurava:
— É o fim do mundo, está na Bíblia!
Eu, calmamente, fumava e admirava, aplaudindo o balé mecânico dos maquineiros de rami, na tragédia musical de braços em perigo. Lado e outro da cidade e da estrada que conduzia a ela, um mar de folhas verdes de verso brancas ondeava, ameaçando o mundo.
Sem mais incidentes, cheguei a Uraí, vendo todo mundo tropeçar apavorado. Gargalhei com um cavalo em disparada, arrastando uma carroça voadora, e estranhei que o sino da igreja batesse àquela hora. Em casa, enfim, chateado, pensei em tudo, olhei-me no espelho e não consegui entender nada. Passei a mão pelo rosto, examinei meus cabelos e cheguei à conclusão de que tudo mundo estava ficando louco: nada havia de errado com a minha cara verde nem com as cobras em meus cabelos.
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CONTOS DO MAGO DAS LETRAS
Historia CortaSituações inusitadas, cidade e sertão, polícia e pescaria, fantasmas e fadas, personagens surpreendentes, todos se reúnem em um tempo indefinido na visão do Mago das Letras. Contos para ler sem remorso, talvez com um pouco de humor ou um toque fantá...
