— Não seja tolo, meu rapaz. Deixe de lado esse idealismo e não queira buscar a perfeição na beleza. Ela não existe.
— Mas ela existe sim e eu hei de encontrá-la.
— Ela não existe. Caso queira tentar, tente, mas não vá se lamentar depois. Por onde você for, haverá de encontra a miséria e a pobreza estampadas e a mão do homem enodoando tudo de belo que existe. O sofrimento sim, este é perfeito. A beleza, porém, nunca o será.
Enfurecido o jovem fotógrafo saiu, batendo a porta com força. Aquele prêmio teria de ser seu. Arrependia-se por haver pedido um conselho ao seu chefe. É certo que se cultive o sofrimento? Não. Está certo usá-lo para alertar, mas não cultuá-lo. Por isso ele queria a perfeição. Todos estavam tão obcecados pelo sofrimento que ele tinha certeza de que uma foto perfeita seria a vencedora. Concluíra isso ao perceber que todas as fotografias premiadas nos concursos anteriores espelhavam um tipo de sofrimento, uma luta insana ou uma beleza maltratada e disforme. Ele haveria, porém, de encontrar a beleza perfeita. Isso tornou-se uma idéia fixa, um ideal e seria uma espécie de realização pessoal.
* * *
O sol nascente banhava em luz e calor aquela imensidão de arranha-céus. Em qualquer canto da cidade grande banhava uma pracinha, um pequeno oásis de verdura entre a paisagem desolada das imensas construções. O fotógrafo abriu a janela e vibrou com o sol passeando na pracinha. Aquele seria um dia lindo, perfeito para o que pretendia fazer.
— Bom dia, amigos pardais! — murmurou, sorrindo, enquanto acompanhava a algazarra dos pássaros.
Respirou fundo o ar da manhã e flexionou os braços e as pernas uma, duas, três, diversas vezes. Após, espreguiçando-se, dirigiu-se ao banheiro. Voltou. Trocou de roupas e passou cuidadosamente pelo corredor, diante do quarto dos pais, temendo acordá-los. Na cozinha, tomou um resto de café na garrafa térmica. Examinou seu equipamento, depois saiu bem devagarinho, evitando o ranger da porta.
Não tomou o elevador. Sentia-se bem disposto, alegre, cheio de vida. A idéia que trazia em mente o predispunha até a acrobacias. Aquele seria seu grande dia. Seus domingos eram esperados com expectativa, com ânsia, mas aquele fora o mais esperado de todos eles. Naquele dia, iria tirar a melhor fotografia de sua vida, um futuro e garantido prêmio no próximo concurso de amadores. Seria a prova de que a beleza perfeita existia.
Ele não sabia ao certo ainda o que iria fotografar. Entretanto, inconscientemente, procurou evitar os edifícios, as praças, os mendigos a revirar latas de lixo e o cachorrinho morto à beira da rua. Queria uma fotografia perfeita, cheia de beleza, de poesia, de vida, livre da frieza estática e cruel daqueles monstros de cimento e do sofrimento inútil dos seres que vegetavam entre eles. Sua foto encerraria uma mensagem de felicidade, por isso não queria o sorrir amarelo, faminto e falso da criança pobre a beira da calçada, mendigando pão. Não, não e não. Aquilo era para os sádicos exploradores da miséria humana. Ele não queria aquilo. Queria uma foto para artistas, para poetas, para almas sensíveis, livre de sofrimentos e fatalidades. E haveria de encontrá-la. Num lugar onde a vida fosse simplesmente vida, a natureza simplesmente natureza.
Tomou o primeiro ônibus que passou. Nem só ele despertara cedo. A cidade já se agitava e, a começar do motorista, da dona de casa à feira e do velhote com um caniço desmontável. Havia também uma criancinha e sua mãe, pobres, molambentas, tentando se esconder, apagar-se do mundo como se apaga uma nódoa qualquer. Era triste aquilo. Ele sentia muito, por isso evitou-as. Sozinho no seu banco foi até o fim da linha.
Havia atravessado quase a cidade. Seguiu em frente. Embora tentasse evitar, teve de cruzar bairros pobres, tristes e comover-se com o choro de criancinhas que brigavam disputando latinhas que empurrariam à guisa de brinquedo. Por que elas se levantavam assim tão cedo? Para terem mais tempo de sofrer as suas vidas miseráveis? Foi-lhe impossível evitar essa miséria. O sofrimento e dor estavam em toda parte.
Com a chegada de um ar novo e puro aos seus pulmões, percebeu-se fora da cidade. Ao longe, os arranha-céus ferindo o céu; lá embaixo, os paupérrimos casebres esfumaçantes manchando o verdor da paisagem.
Seguiu em frente. Andou bastante. Queria encontrar somente natureza, a natureza pura e simplesmente. Uma natureza virgem, livre da mão do homem e do seu cascão encardido de misérias e sofrimentos. Sua foto seria a imagem de um paraíso de alegria, de satisfação, de sonhos coloridos e reais. Sim, queria uma foto de uma realidade bela e colorida.
Caminhou, perdendo a noção de tempo e espaço. De repente, estacou ao chegar ao cume de uma pequena colina. Até suas narinas chegava o mais suave dos perfumes, enquanto seus ouvidos deliciavam-se com o doce cantar de pássaros embevecidos. Seus olhos perderam-se então na contemplação de uma paisagem de sonhos. Um verdadeiro oásis do mundo. Flores de mil cores, árvores de um verde vivo, pássaros dos mais raros, tudo embalado por uma brisa lisa que agitava folhas, pétalas e penas em ondas de perfume. Julgou sonhar. Aquele era o paraíso perdido dos poetas, românticos e sonhadores.
Aproximando-se, sentiu-se parte da paisagem. Seus braços-folhas agitaram-se ao vento e seu tronco oscilou beijando flores. Ali estava a natureza. Ali estava a sua fotografia perfeita: naquele cenário que era um hino de glória às maravilhas do Criador.
Escolheu um bom ângulo. Ajustou o tripé da máquina. Fitou pelo visor. Não julgou perfeita a perspectiva. Mudou. Escolheu outros ângulos, outro, outro e mais outro. Não havia ali problema de espaço. Tudo era liberdade e beleza. Poderia escolher quantos quisesse. Buscou e perfeito e o encontrou. A máquina foi ajustada. Verificou o filme, a objetiva, o disparador: tudo estava em ordem. Pela visor via-se um pedaço de terra e uma fatia do céu, entremeados da mais pura e verdadeira poesia. Seu peito encheu-se de uma emoção nova ao segurar o disparador. Sentiu-se embargado, preso maravilhosamente na deliciosa sensação do momento. Desejou gritar, cantar, diluir-se no espaço, ser vento, pétalas, folhas, passarinho, mas sentiu-se por demais preso à terra. Aprontou-se. Stec-zum fez a máquina, aprisionando no colorido do seu filme uma parte daquele recanto venturoso e abençoado de belezas sem fim.
A volta foi uma vontade incontida de correr, chegar logo em casa, revelar o filme, apreciar sua obra prima e fechar a boca do seu chefe, que não acreditava na perfeição da beleza. Seus pais, seus amigos, sua namoradinha, todos se orgulhariam dele. Enfim, talvez fosse o único concorrente a captar a magia da tranqüilidade num cenário diferente.
Manuseando os produtos químicos impacientava-se em não poder apressar o processo. Mal pensava em si, concentrado nela, na perfeição aprisionada. Mal ouvia o chamado da mãe para a comida requentada no forno. A razão da demora mal explicou. Só pensava nela e, por fim, ei-la pronta. A perfeição de um cenário de sonhos retratada no papel. Ei-la enfim, só poesia nas flores embaladas pelo vento, só vida ao redor das plantas, suavidade nos pequenos pássaros que pareciam cantar na sua mudez.
Mas, e aquilo? Que era aquele ponto no cantinho da fotografia? Algum defeito técnico? Arrependeu-se. Deveria ter ido a um profissional. Afinal, dali sairia sua melhor fotografia. Rápido ele apanhou uma lente. Luz, concentração, tristeza e desolação nos olhos que perdiam o brilho.
Contrastando com a beleza total, emudecendo os pássaros, cessando o vento, poluindo o perfume, ressecando o verdor, ali, num cantinho da fotografia perfeita,fatalmente, como folha seca, aragem desfeita, resto de perfume, sobressaia-se uma avezinha morta.
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CONTOS DO MAGO DAS LETRAS
Short StorySituações inusitadas, cidade e sertão, polícia e pescaria, fantasmas e fadas, personagens surpreendentes, todos se reúnem em um tempo indefinido na visão do Mago das Letras. Contos para ler sem remorso, talvez com um pouco de humor ou um toque fantá...
