ANITA

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— Cê tá gripada?

Anita pigarreou, engoliu o catarro e respondeu:

— Não, não é gripe, não. Cê fala por causa da minha voz?

— É, cê anda rouca.

— Acho que é aquela poeira o dia inteiro, lá na fábrica de barbante. O ventilador quebrado... a poeira do rami fica no ar... — explicou, com uma falta de ar que provocou aflição na amiga.

— É duro mesmo, né?

— O quê? Fala mais alto que eu não escutei.

— Eu disse que é duro!

— E é mesmo. O dia inteiro naquela poeira... E aquele barulho das máquinas... A gente fica rouca e surda... Parece gripe mesmo, mas não é... É pior... Sufoca...

De dentro de seus dezesseis anos, naquele final de domingo, Anita pigarreou novamente, enchendo a boca de catarro. Disfarçou a dor no peito e segurou firme o braço da amiga, enquanto cuspia de lado. Estavam dando voltas no jardim da praça da matriz. Era bom. Era gostoso, apesar de monótono. Fora o cinema, dar voltas no jardim aos domingos era a única diversão.

No sábado nem sempre dava, por causa dos turnos. Mês sim, mês não, fazia o turno da noite. Até as dez. Quando saía, já não havia tempo para mais nada, a não ser ir embora. O movimento na cidade, salvo quando tinha quermesse, acabava cedo.

Anita riu de novo e olhou por sobre o ombro, voltando ligeiramente a cabeça. Ele estava ali desde umas três voltas atrás. Olhava e brincava com ela, fazendo rima.

— Anita, cê tá bonita!

Ela estremecia ao vê-lo, presa de um deslumbramento que não conseguia entender. Era o Laurindo Poeta, mulherengo, mas o homem mais bonito e inteligente que ela conhecia.

— Cê viu, Cleia? O Laurindo tá me olhando de novo.

— Não olha muito, boba! Ele vai achar que você tá se oferecendo. Vamos voltar e passar de novo. Bem devagarinho. Mas não olha. Deixa ele vim falar cocê.

Foram até o fim da alameda, fizeram a volta e retornaram. Às vezes, numa só noite, iam e voltavam pela alameda principal, em forma de ferradura, na praça da matriz, umas cem vezes. E as pernas nem doíam. Também, depois de quatro anos de fábrica, em pé oito horas por dia, correndo daqui para lá e de lá para cá, atendendo a máquina, era fácil!

— Olha lá, Anita. Ele levantou. Vem vindo. Vai cercar a gente. Não olha, boba! O Laurindo tá vindo falar cocê.

* * *

Quando Anita soltou o fecho do sutiã, foi como se soltasse uma correia que lhe prendesse o peito com força. Ficou respirando fundo e rouco. Aquela dor lá dentro havia muito vinha incomodando. Mas quando achar tempo para o médico?

A sorte era que não precisava pagar. A firma fornecia o médico. Mas podia também consertar os ventiladores. E trocar aquelas máquinas barulhentas por outras. Outras como aquelas que vira no jornal do cinema. Pareciam nem fazer barulho. Só se podia dizer que funcionavam por causa das rocas que giravam invisíveis.

No começo do mês, quando pegasse o primeiro turno, iria se tratar. Rezava para que não fosse nada. Aquela dor a assustava às vezes, quando se sentia sufocar pelo catarro.

Vestiu a camisola que lhe escorregou até os pés delicadamente, suavemente como a flanela permitia. Bocejou. Tirou uma casquinha discreta do nariz, escondeu-a debaixo da gaveta da penteadeira e foi para a cama.

CONTOS DO MAGO DAS LETRASOnde histórias criam vida. Descubra agora