CARTOPIA

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"Não, você não entende, não é? 
Mas eu entendo, ainda que não
saiba explicar direito para
você. " (Rubens Fonseca in O
grande e o Pequeno)

I

Vamos brincar de cartopia?

— Agora?

— Tem que ser agora senão não dá tempo.

— Ah... Não sei...

— Vamos, bobo, é gostoso.

— Você deixa eu levar o tição?

— Deixo.

— Então vamos.

— A gente começa por onde?

— Pelo meio, né?

— Então tá.

— Bom, então a gente precisa arranjar um sarrafo de pau d'alho.

— Onde que tem?

— Na venda do seu Joaquim.

— É mesmo. A gente aproveita e rouba algumas balas de hortelã, nê?

— É, é gostoso, mas e as abelhas?

— Té besta, siô! Eu nem pensei nelas.

— Como é que a gente faz?

— Meu pai falou que pra gente espantar abelha é só por fogo.

— Então a gente põe fogo nelas.

— E se pegar fogo na venda?

— É mesmo, e se pegar fogo?

— A gente apaga, né?

— Com quê?

— A gente mija em cima.

— Não vai dar nem pro cheiro.

— Como é que a gente faz, então?

— Ah, já sei!

— A gente põe um saco de estopa na cabeça.

— É, é mesmo. Quem sabe dá até pra esconder umas manjubas...

— Não, manjubas não. Só balas.

— Mas não custa nada...

— Então eu não brinco mais.

— Tá bom. Só as balas.

— Então vamos.

— Você entra pela porta da frente que eu espero debaixo da janela.

— Tá.

— Escolhe um bem redondinho, viu?

— Tá.

— Não esquece das balas.

— Tá.

II

Pronto. ficou bacana, não ficou?

— Puxa, parece a espada do can-can da vila, né?

— É mesmo. Se a gente serrasse aqui e depois preguasse uma ripinha aqui, ficava.

— É mesmo. Vamos fazer?

— Mas a gente não estava brincando de cartopia?!

— Ah, é, é sim! Vamos terminar primeiro, então.

CONTOS DO MAGO DAS LETRASOnde histórias criam vida. Descubra agora