HISTÓRIAS, APENAS HISTÓRIAS

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A sabedoria popular afirma que todo pescador é um mentiroso. Existem muitas histórias a respeito das histórias de pescadores. Muitas delas, inclusive, inventadas por quem nunca pescou, apenas para desprestigiar a classe. Intrigas da oposição, com certeza.

Qualquer pescador consultado vai afirmar que ainda não pescou o peixe que desejaria pescar, mas já pescou alguns de bom tamanho. Com certeza vai dizer que bom mesmo foi um que lhe escapou. E que pescador já não perdeu aquele peixe enorme, que arrastou linha e fez a carretilha cantar? Isso acontece a todo momento. A emoção, o desconhecido lá no fundo, na ponta do anzol, tudo isso faz com que, muitas vezes, se tenha a falsa impressão de que o peixe fisgado é enorme. Quando ele é tirado da água, a impressão se desfaz. Quando ele consegue escapar, a impressão permanece. No fim do dia, não ficam as histórias dos peixes pescados, mas daqueles que não o foram.

O pescador é um ser introvertido, em comunhão com a natureza. Na espera, em silêncio, olhando o rio, ouvindo os barulhos ao seu redor, ele se torna introspectivo. Pensa, sonha e imagina. A mente divaga. Espairece. Desliga-se do mundo. Se o peixe belisca, ele se concentra, com a vara na mão, pronto para a fisgada. Tenso e deliciado ele espera pela briga.

Ali, naquele momento, ele pode até pensar nas histórias. Pode até inventar as histórias que contará. Histórias inventadas, possivelmente, mas vividas de alguma forma, seja na imaginação daqueles momentos, seja por uma outra pessoa, em algum outro lugar do planeta.

Histórias maravilhosas, que fazem da pesca mais do que uma diversão, um estado de espírito e de bom humor, não essas histórias inventadas apenas para aborrecer os verdadeiros pescadores, como aquela do piloteiro inconveniente, que diante das esposas dos pescadores, fez aquela célebre observação, imaginando que estava diante de mais um grupo de acompanhantes?

— Que mulherada feia vocês trouxeram desta vez, doutor!

É óbvio que essa piada não foi vivida por um grupo de pescadores, simplesmente porque pescadores não levam acompanhantes em suas pescarias e muito menos grupos de esposas. Seria uma heresia, não verdade?

E aquela história do sujeito que pescou uma lata de querosene, onde um pintado entrara ainda filhote, crescendo ali dentro e ocupando toda a lata. É muito interessante, mas também foi criada por alguém que nunca pescou. Qualquer pescador, mesmo amador, sabe que pintado não gosta de querosene. Se fosse uma lata de gasolina, aí sim!

E a do sujeito que perdeu o relógio de corda na beira do rio e o encontrou no ano seguinte, funcionando perfeitamente, enroscado num tronco. Um galho debruçado sobre o rio era agitado pela água e providencialmente dava corda no relógio. É claro que isso jamais aconteceria com um pescador, pois ele nunca levaria um relógio para sua pescaria. Quem precisa de um, quando a natureza diz quando é hora de ir embora, quando é hora de acordar para pescar, quando é hora de comer?

As verdadeiras histórias são outras. Como a do pescador que fazia seus próprios giradores e encastoados para suas pescarias, tornando-os marca registrada sua. Não passava um mês sem ir para o rio, pescar. Fisgou muito. Tirou bastante. Perdeu muitos. Num acidente, porém, ficou paraplégico e teve de abandonar seu maior passatempo, a pescaria, não sem antes ter iniciado seu filho nesse mister.

Cinco anos depois da última pescaria do pai, o filho estava pescando num remanso e a puxada foi brutal. Por quase uma hora ele travou uma batalha sem igual com uma pirarara das grandes. Quando conseguiu, finalmente, dominá-la e ia retirar-lhe o anzol, percebeu que na boca do peixe havia um outro, já meio enferrujado. Reconheceu logo o encastoado.

Quando voltou para casa, mostrou-o ao pai.

— Foi no Remanso do Cachorro Louco? — indagou o velho.

— Sim, lá mesmo, pai — respondeu o filho.

— Viu? Eu não falei que era uma pirarara, mas que não era das grandes ainda? 

CONTOS DO MAGO DAS LETRASOnde histórias criam vida. Descubra agora