Temos um encontro

1.9K 233 46
                                        


- Não sabemos os efeitos colaterais, James. – Pela sexta vez, Sirius advertia. Somente os dois garotos compartilhavam o dormitório naquele horário pós-almoço e James penteava os cabelos ruivos cuidadosamente, sustentando um bobo sorriso cheio de expectativas que preocupava seriamente o amigo. - Você não deve beber tanto.

- Ele me chamou para sair.

- Você já disse isto durante toda a noite enquanto tentávamos fazer esta droga. – Cansado, caiu de costas na cama, cobrindo o rosto com o travesseiro.

Embora reclamasse, não havia sido tão terrível como parecia.

Intimamente contente, a mera lembrança de Lupin trazia alegria, e ainda que por um reflexo no espelho, tinha sido bom importuná-lo durante aquela noite. Era estranho como seu coração aquecia quando conseguia desestabilizá-lo ou, no mínimo, arrancar alguma reação dentre a constante seriedade.

No entanto, queria colocar um cobertor sobre os ombros quando este cochilou ou servir de apoio quando o avoado Moony quase caiu da cadeira enquanto repetia exaustivamente como deveria dividir os ingredientes para a poção polisuco.

"Congresso entediante, mas a comida é deliciosa". Limitando-se as poucas palavras interrompidas por alguns bocejos. Apesar de três dias incompletos, Sirius sentia falta das constantes reclamações ou de escutar sobre as matérias chatas ao fim do dia. Sentia falta do cheiro de chocolate e... Era o lógico. Os demais também deveriam compartilhar daquela sensação, pois precisavam de Remus ali para serem uma equipe. Sem ele, sem os marotos, restando adolescentes com problemas existenciais e um tanto idiota como o plano de James já parecia.

Franzindo o cenho, levantou outra vez, questionando ao amigo:

– Pelo menos é tipo um encontro?

- Acho que sim. – Trazendo a escova para a altura do peito, mesclava animação e descrença ao repetir a cena. - Ele só disse: Podemos ir amanhã? E eu aceitei.

Utilizando o travesseiro como apoio, o deserdado da família Black repousou o queixo, desconfiando de toda aquela animação. A ansiedade era tamanha que, apesar de passar a noite em claro, James permanecia com a energia a mil. Sem contar o fato dos aleatórios risos sempre em devaneio ao encarar o espelho ou ensaiar "acidentais" falas.

Bizarro.

Inacreditavelmente bizarro.

Sem dúvida, algo estava errado. Arriscando, observou:

- Você parece nervoso.

Largando o pente ao criado-mudo, James rodopiou o assento para a direção da cama, questionando apreensivo:

- E se eu estragar tudo? - Levando as unhas a boca, empalideceu como se a inquietação fosse um fantasma a se apoderar do corpo. Um tanto indignado, continuou. - Quer dizer, sabia que ele quebrou a perna quando modificamos a escada no mês passado?

- Era o segundo andar. O que esperava? - Arremessando o travesseiro para que o amigo retornasse ao normal, brincou. – Mas, ele só ficou 3 dias na enfermaria. Deveria ter quebrado o pescoço e...

- Sirius!

- James, é o ranhoso. O sonserino mais irritante e de cabelo seboso que você mesmo indicou como alvo. - Levantando-se para observá-lo mais de perto, desconfiava. - Será que Lily tinha sentimentos pelo Ranhoso e eles estão modificando os seus?

Outra vez, James tentava fazer uma trança e congelou diante a suposição. Por que já havia tentado arrumar o cabelo três vezes e nada dava certo? Quer dizer, Lily não tinha sentimentos pelo ranhoso. E nem ele. Afinal, como alguém poderia ter sentimentos por aquilo?

Lembrando-se do plano, voltou a trançar o cabelo, explicando:

- Eu sei qual o meu objetivo, Sirius. É só que... – Buscando como colocar em palavras e desvencilhar da engraçada lembrança do jardim, sugeriu casualmente. - Ao fim de um encontro fica mais doloroso...

- Cuidado, James. – Erguendo a sobrancelha quase num sermão. - Você não deve se apaixonar pelo inimigo.

- Eu sei. – Entediado, revirou os olhos. Sério que o próprio amigo não conseguia depositar credibilidade em si? Por quantas pessoas ele já havia se apaixonado? Ainda mais, até parece que ele se apaixonaria por alguém da sonserina. - Você ta parecendo minha mãe com estes avisos bobos. – Fingindo estar muito ofendido, continuou exasperado. - Até parece... Eu, o incrível James Potter, apaixonado pelo Ranhoso?

- Você costuma ser bem impulsivo. – Escutando o muxoxo, começou a exemplificar. – Como quando eu te mostrei aquelas músicas trouxas no primeiro ano, você comprou uma guitarra.

- Parecia legal.

- E você nunca tocou.

- Eu ainda vou aprender.

- Quando fomos a praia durante o verão, você aprendeu a surfar. – Antes que o amigo protestasse, prosseguiu. – E fez uma barraca avisando que o mar precisava de você.

- Eles tinham tartarugas.

- Você escreveu seu atestado de óbito da última vez que esteve resfriado.

- Poupe-me, Sirius. Eu achei que era algo grave. Eu tive até febre. Droga! - Recuperando a escova, aquele papo já o irritava. – Hoje, só tenho que dar um jeito neste cabelo e não ficar te ouvindo.

- Lily sempre usa ele solto.

- Agora sabemos o motivo. Isto parece impossível de... – Levando as mãos aos próprios fios para arrancá-los, suspirou buscando inexistente calma. – E eu não sou a Lily.

- Achei que o plano era este.

Sirius havia ganhado.

Recolhendo o prendedor, fez um coque improvisado, enquanto permanecia fitando o amigo com olhos estreitos, mentalmente retrucando: "Você nem sempre ta certo, Padfoot".

Ainda passou um pouco de perfume e logo saiu alegre para o "entediante passeio" ou fosse lá o que fosse.

Sirius, aproveitando as habilidades como animago, resolveu seguir os dois.

Ele, infelizmente, conhecia James. E, como amigo, não poderia perder aquilo de modo algum. Pelo menos, na pior das hipóteses, teria uma boa história para rir com os filhos no futuro.

Isto é, se eles conseguissem sobreviver depois que o Ranhoso descobrisse.

Sete dias sem elaOnde histórias criam vida. Descubra agora