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Corpo dorido e cheiro a mar.

Sinto o corpo doer á medida que alguém o abana lentamente. Primeiro no meu ombro, de seguida em ambos os ombros. Posso sentir as costas estalarem e surtirem um ruido estranho por parte de quem insiste em trazer-me para a realidade. Os meus cabelos cobrem-me metade da cara, descansando sob a minha bochecha direita. No entanto, a minha extensão corporal encontra-se emaranhada na manta felpuda do sofá.

“Rachel?” Uma voz grossa distintamente masculina soa. O meu corpo exageradamente preguiçoso acompanhando os movimentos. “Rach, vai para a cama.” O pai ordena.

Sem pressas, pisco sucessivamente os olhos, acabando por deixa-los abertos. Eles ardem, o que me indica que estivera a chorar á horas atrás. Tenho a ponta do nariz gelada, por ter dormido praticamente ao relento.

“Rachel, querida, estás-me a ouvir?”

Vagarosamente assinto-lhe com a cabeça afirmativamente e forço-lhe um sorriso. Destapo as minhas esguias pernas da confusão de calor e sento-me, de seguida, no sofá de pele que cola a minha pele nele. Os abanões do pai, estavam a ser muito desconfortáveis e irritantes e na verdade, penso que, o ardor nos meus olhos provêm, também, do excessivo sono e cansaço que tenho.

Abro os braços o máximo que consigo, espreguiçando-me. Suspiro profundamente no fim. As costas doem-me realmente, mas desta vez, não estalam nem provocam ruídos indesejados. A sala está escura, no entanto, nela preside uma pequena e fraca luz de amarelada, de um candeeiro de mesa, que minimamente ilumina o espaço para que nos consigamos orientar. O pai permanece de pé, á minha frente, no seu pijama azulado repleto de quadrados regulares. Fita-me com atenção e de sorriso no rosto.

“Então querida. Ficaste mesmo aqui a dormir?” Assinto. Lembro-me de ter adormecido aqui, enquanto assistia a um programa de televisão. Fora depois do jantar com o convidado do pai que propositadamente despedaçou parte do meu coração de maneira estupida e severa. Mas pergunto-me: Se a televisão fora desligada, e os pais me viram aqui a dormir, porque não me acordaram? “Estavas a descansar tão tranquilamente, que a mãe disse para te deixar estar, que depois voltarias para a cama assim que acordasses.” O mais velho responde aos meus pensamentos interiores.

“Hum.” Coço a cabeça e estranhos sons de desagrado saem-me por entre os lábios. Memórias do jantar aparecem na minha mente e grito interiormente para que se dissipem. “Que horas são?” Obrigo-me a preguntar. Harry, simplesmente, não merece que eu pense nele. Na verdade, eu não passo de “uma miúda insignificante”, “um erro”, segundo ele. E de facto, eu sei disso. Sei que o que acontecera entre nós tivera sido, realmente um erro, algo que não está certo, e que pensar nele não irá ser a melhor maneira de o esquecer. Mas no fundo, também sei que não vou ser capaz de o fazer.

O peito dói e a cabeça lateja só de me relembrar daquele momento. Foi tão intenso e atraentemente perigoso, que toda a adrenalina que possuo quis sobrepor-se á minha vontade de me controlar. No entanto, Harry fez questão de desmoronar cada uma das paredes esperançosas que eu estava a construir á nossa volta. Ele permitiu que elas se formassem e de um momento para o outro destruiu-as com palavras que esfaquearam cada célula do meu corpo.

Provavelmente será injusto eu pensar desta maneira, pois se pensar bem no que aconteceu, ele quis construí-las, mas contudo fui eu que as desfiz. Anteriormente a ele. Agora, acho, que tivera feito mal ao recusar a sua aproximação, mas naquele momento parecia ser o mais certo, o mais correto segundo a sociedade.

E ambos sabemos que tenho razão. A sua reação ao momento fora de cabeça quente e muito excessiva, mas no entanto, ele pronunciou cada palavra com demasiada certeza que me fez derramar um infinito mar salgado pelas minhas bochechas.

Love Affair |hstyles|Onde histórias criam vida. Descubra agora