Acordei um pouco cedo. Abri as janelas do quarto e liguei o meu celular. Obviamente, me vi obrigado a ir ao banheiro enquanto o aparelho ligava. Quando voltei — após lavar as mãos — e vi 06h27 am no visor, até pensei em dormir mais um pouco, mas seria inviável. Então, apenas desci as escadas e fui para a cozinha. Eu ainda usava a minha calça de moletom cinza e o mesmo blusão vermelho de antes. Ora, não estava sujo ou fedido.
Abri a geladeira e encontrei fatias de queijo e pão de forma. Pus tudo na mesa. Peguei um prato e uma faca. Passei margarina em ambos os lados dos pães e cortei as fatias de queijo ao meio, já que eram grandes demais. Como duas fatias de pão de forma equivaliam a um pão, preparei dois, ou seja, quatro pães de forma. Nunca havia reparado na sanduícheira. Pus os pães dentro dela e liguei na tomada. Enquanto isso, abri novamente a geladeira e peguei uma jarra com um líquido amarelo. Cheirei e vi que era suco de maracujá. Ouvira dizer que tal sabor de suco provocava sono em quem bebesse, mas eu não queria sentir sono, pois havia acabado de acordar. Mesmo assim, enchi um copo e deixei na mesa. Quando os pães ficaram prontos, peguei cada um com o auxílio de guardanapos e os coloquei em meu prato. Antes de comer, bocejei. Senti um gosto amargo na boca. Ainda não havia escovado os dentes. Coisa que eu faria após tomar o meu café da manhã.
Mordi um dos pães e o queijo estava totalmente derretido. Uma delícia. Foi quando Artur entrou na cozinha. Seus cabelos estavam uma bagunça. Usava uma bermuda um pouco curta demais, parecendo uma samba-canção. E uma camisa regata azul.
— Vai tomar café também? — perguntei, após engolir o último pedaço do primeiro pão. — Ainda tem queijo, pão e suco na geladeira.
— Nãããoooo.
Ele estava bêbado. O modo como pronunciou uma simples palavra deu a entender isso. Ainda era tão cedo. Pensei que ele havia bebido por horas, até que amanheceu.
— Onde eleeeees eistãooo? — meu irmão estava realmente bêbado.
— Estão dormindo, Artur. Ainda é cedo. Acordei faz pouco tempo. Por que não toma um banho, come algo e dorme um pouco? Senão, você vai ficar com uma ressaca das grandes — aconselhei.
Ao vê-lo em tal estado, lembrei sobre a ideia de nosso pai. Artur não merecia isso. Apenas precisava de ajuda. Pensei em contá-lo, mas não para ferrar com o nosso pai, mas para fazê-lo entender que seria melhor parar de beber e usar drogas. Quando abri a boca para contar-lhe, ele foi mais rápido:
— Alfredo... — tosse. — Eistou sendooo ameaçado — tosse. — Ele vaiii me matarrrr.
Gelei.
— Ele quem? Artur, você está imaginando coisas.
— Não.
Pelo menos ele conseguiu pronunciar a palavra corretamente. Mas não tive tempo de comemorar. Deixei o restante do meu café da manhã na mesa e puxei o seu braço.
— Venha comigo, Artur.
Meu irmão estava bêbado demais. Foi um milagre ele ter descido as escadas sem ter caído no chão. Apoiei seu braço em meu ombro e fui arrastando-o calmamente. Por sorte não derrubamos nada. Chegamos às escadas tive que tomar fôlego. Artur sempre fora mais alto e mais pesado do que eu. Logo, estava sendo um sacrifício ajudá-lo a se locomover.
— Segure-se bem em mim. Fique bem apoiado. Vamos subir passo por passo.
Ele não dizia nada. Parecia um zumbi. O único som vindo de si era o som da sua respiração. O bafo de cerveja emanava e eu sentia vontade de vomitar.
Começamos a subir.
Passo um. Respiração.
Passo dois. Respiração.
Passo três.
Passo quatro.
Passo cinco. Metade do percurso.
Passo seis. Memórias de quando éramos crianças.
Passo sete. Brigas.
Passo oito. Luíza, não Luciana.
Passo nove.
Passo dez. Conseguimos.
A porta de seu quarto estava aberta. A cama, uma bagunça. Artur sentou-se na cama. Fechei a porta e sentei-me ao seu lado.
— O que aconteceu?
— Ele...
Percebi que não iria adiantar em nada. Artur não estava em condições de explicar ou entender. Com isso, levantei-me e abri a porta do banheiro. Havia vômito na pia. Foi inevitável não ficar enojado. Liguei o chuveiro e saí do banheiro.
— Vá tomar um banho! Vou buscar algo para você comer e vou ajeitar a sua cama.
Ele não se mexia. Parecia que perdera a própria voz. Estava amedrontado. Como eu nunca vira antes.
— Artur? — cutuquei seu ombro exposto. Ele apenas olhou para mim. Um olhar caído. Sem expressão alguma.
Segurei sua mão e, antes que eu pudesse me arrepender, tirei sua camisa e sua bermuda curta. Graças a Deus ele estava de cueca. Puxei sua mão e o levei para dentro do banheiro. Quando meu irmão quase pisou em sem próprio vômito, perto do vaso sanitário, consegui fazer com que pisasse no tapete. Empurrei o box e o deixei lá, debaixo do chuveiro. A água caía e notei que ele sentia frio. Quase mudei a temperatura, mas achei que água fria seria melhor. Desci as escadas devagar, não querendo acordar nossos pais. Como eu não sabia muito bem o que preparar, levei o meu pão que estava na mesa e, em outro copo, coloquei um pouco de suco. Pensei que o faria dormir.
Quando cheguei ao quarto, o chuveiro continuava ligado. Entrei no banheiro e peguei uma toalha branca que estava pendurada. Desliguei o chuveiro e comecei a enxugar o seu corpo. Senti vontade de chorar. Nunca odiara o meu irmão. Mesmo com todas as desavenças. Todas as confusões. Éramos do mesmo sangue. E, mesmo não parecendo, eu daria a minha vida por ele. Mesmo culpando-o incessantemente pelo iminente término da nossa viagem.
Engoli em seco enrolei a toalha em sua cintura. Puxei sua mão novamente e saímos do banheiro. Abri o seu guarda-roupas peguei um casaco preto e uma calça de moletom idêntica a qual eu vestia, com exceção da cor, que era vermelha.
— Consegue se vestir, Artur?
Ele assentiu.
Pelo menos estava consciente.
— Bom, vou lhe dar um tempo para se vestir. Vou esperar...
— Fique comigo, Fredo — seus olhos encontraram os meus. — Quero ficar perto de você.
Novamente senti vontade de chorar. Engolindo em seco outra vez, sentei-me em sua cama, mas fitando o chão. Peças de roupas espalhadas. Cigarros. Garrafas de cerveja. O quarto tinha cheiro de maconha. Ouvi quando a toalha caiu de sua cintura e não ousei olhar. Não seria nada agradável ver o seu irmão mais velho pelado.
Após alguns minutos, vi que já estava vestido. Levantei-me de sua cama e lhe entreguei o pão e o suco. A mordida que Artur deu praticamente acabou com o pão. Observei enquanto ele mastigava. Após isso, tomou o suco em um gole só.
— Vou levar o prato e o copo para a cozinha. Já volto.
Não demorei mais que um minuto. Mas quando voltei Artur já estava dormindo. Fiquei com medo que alguém entrasse em seu quarto e visse a zona em que se encontrava. Então, tirei a chave e tranquei pelo lado de fora e joguei a chave por debaixo da porta.
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Infinitos São Os Nossos Atos
RomanceO que fazer quando duas pessoas compartilham infinitos semelhantes? Fredo (Alfredo Diniz) é um simpático, engraçado, confuso e gentil rapaz de dezenove anos, que mora em São Paulo. Diferentemente de Artur, seu irmão mais velho e irresponsável, o jo...