Eu estava seguindo as pistas que Luíza me deixara. Perguntei a um dos seguranças onde ficava o ponto de ônibus mais próximo - sempre gostara de ônibus. Prestei atenção às suas instruções, calmamente, pois seria vergonhoso pedir-lhe que explicasse uma vez mais. Após entender tudo, parte por parte, agradeci e me dirigi ao ponto. Durante o trajeto, voltei a olhar a sua mensagem:
Você vai descer do ônibus no ponto próximo a um supermercado, ao lado de um bar, entendeu? A fachada do supermercado está toda descascada, então você vai ser capaz de reconhecê-lo imediatamente. Alfredo, não se esqueça de que eu irei esperá-lo, para que possamos vir juntos até a minha casa. *-* 08h35
Não havia sido difícil encontrar o ponto de ônibus. Havia um banco próximo a um poste, com cartazes colados e um pouco rasgados. Eu me sentara no banco - extremamente quente por causa do sol - e esperara que o ônibus de uma das linhas passasse e eu conseguisse entrar e ir até a casa dela.
Ainda esperando, sentindo a minha bunda queimar por conta do sol e da calça jeans. Instantaneamente, pensei em Artur. Eu ainda não sabia de certeza se ele realmente estava envolvido com drogas, mas era o que estava aparentando, infelizmente. O que ele tinha em mente? Não bastavam as idiotices que fizera antes... e as drogas. Isso não teria como dar certo.
Imaginei quais seriam as reações dos meus pais. Minha mãe, eu sabia, iria chorar e chorar, devastada. E o meu pai... talvez ele batesse em Artur. Nós nunca havíamos apanhado, mas todos sempre poderiam viver algo pela primeira vez, pensei. Mas seria tão estranho levar uma surra do pai, ainda mais aos vinte e um anos. E eu não queria pensar nisso. Pois um ônibus aproximava-se.
Era espaçoso - como seria de se esperar de um ônibus -, nas cores branco e verde. Talvez a linha fosse palmeirense. Assim que as portas da frente foram abertas, perguntei ao motorista, ainda sem entrar no veículo:
- Bom dia, senhor - o motorista, um coroa enxuto de pele escura e barba por fazer, com uma camisa social cinza e uma garrafa de água mineral ao lado, me cumprimentou também. - Este ônibus passa pelo supermercado próximo a um bar?
Infelizmente, eu não sabia o nome da rua, avenida, o que fosse. Então eu não tinha escolha a não ser descrever os detalhes que Luíza me passara.
O senhor olhou para uma pessoa que eu não conseguia ver, mas que imaginei ser o cobrador, e trocou palavras que eu não tinha como ouvir. Então, olhou para mim e disse, calmamente:
- Se for onde nós achamos que é, entra aí, garoto - seu forte sotaque foi divertido de se ouvir. Ao entrar, agradeci. - Sem problemas, bicho.
Retirei cinco reais do meu bolso e entreguei ao cobrador. Ele me devolveu algumas moedas de troco e destravou a catraca. Novamente agradeci e sentei-me perto da porta de desembarque, ao lado da janela, sentindo a brisa e os raios de sol em meu rosto e em meus ombros. O ônibus não estava muito cheio, mas estava com, no máximo, quinze pessoas. Enquanto eu ainda me dirigia ao lugar para sentar, vi que algumas pessoas olhavam para mim. Provavelmente haviam percebido que eu não era de Salvador - talvez eu havia falado muito alto e meu sotaque deu a entender isso, foi o que pensei.
E o ônibus seguia o trajeto. Vi casas coloridas, igrejas... tudo diferente de São Paulo. Após alguns minutos, o semáforo ficou apontando a cor vermelha e o ônibus parou. Peguei meu celular e vi 09h11 a.m no visor. Eu prometera para Luíza que iria chegar em mais ou menos uma hora. Ainda possuía alguns minutos.
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Infinitos São Os Nossos Atos
RomanceO que fazer quando duas pessoas compartilham infinitos semelhantes? Fredo (Alfredo Diniz) é um simpático, engraçado, confuso e gentil rapaz de dezenove anos, que mora em São Paulo. Diferentemente de Artur, seu irmão mais velho e irresponsável, o jo...