Capítulo 9: Quando Ela Quis Ser Uma Estrela

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Após ter feito o almoço, Luíza me chamou para sentarmos em frente ao rio próximo à vila. Peguei meu celular do bolso e vi 11h04 a.m no visor. Ainda era cedo. Perguntei se poderia tirar meus tênis all star e as minhas meias - que não estavam fedendo a chulé, graças a Deus - e ela disse que eu poderia pô-los na sala, por trás da estante, pois Percy poderia mordê-los e isso não poderia acontecer, já que eu iria voltar para casa. E eu não merecia voltar descalço, o sol queimando meus pés da mesma forma que uma carne poderia ser queimada ao ser jogada em uma fogueira.

Fiz o combinado e os pus ali, rezando para que o cãozinho não os encontrasse. Quando saímos de sua casa, avistamos Cadu com C brincando com Percy, arremessando uma bola verde ao longe, enquanto o pequeno animal ia buscá-la, numa correria só. O irmão acenou quando nos viu e nós dois sorrimos. "Ele adora brincar com Percy" Luíza disse, ao sentar-se alguns metros antes de onde as águas do rio batiam. Águas num tom verde bem escuro. Era reconfortante ouvir o barulho que a brisa do vento fazia ao intercalar-se com a água do rio. Até cheguei a pensar que algum peixe iria pular e me saudar, mas eu estava apenas viajando na maionese.

Sentei-me ao seu lado, puxando um pouco o tecido da calça jeans. Cruzei as pernas e olhei ao redor da vila outra vez. Os latidos de Percy eram o barulho mais alto presente lá. Eu queria quebrar o silêncio entre nós, mas estava tão bom observar o rio que se encontrava em nossa frente. Olhei para o céu e vi as nuvens que lá estavam, parecendo imensos algodões-doces sem corante. Foi reconfortante. O sol não estava tão quente. Estava agradável à sua maneira.

A areia estava morna, em seus tons bege e cinza. Uma de suas mãos estava pousada na areia, meio que sentindo sua consistência. Meus pés estavam com algum punhado entre os dedões, mas nada que fosse me preocupar. Na verdade, eu precisava ser bem sincero... estava com vergonha dos meus pés. Não era nada legal a garota que você gosta estar ao seu lado com seus pés desinibidos e um pouco sujos de areia. Acabei me encolhendo, em posição fetal, descruzando as pernas sentindo uma leve coceira na sobrancelha direita.

- O que foi, mané? - ela mesma quebrou o silêncio, olhando para mim.

Voltei a cruzar as pernas.

- Nada tão importante - menti, envergonhado. - É um rio muito bonito e pacífico - elogiei rapidamente, acrescentando.

- Não sei se você é pior mentindo, não sabendo argumentar direito ou não possuindo muitas ambições - falou, frustrada. - Alfredo, não sou nenhum bicho de sete cabeças. Tenho apenas uma! Fala sério, hoje é quinta-feira, nós nos conhecemos na segunda-feira. Ainda não faz nem três dias que nos conhecemos e olhe tudo o que já aconteceu entre nós dois. Conheço você o bastante para detectar as suas mentiras.

Eu não sabia o que responder. Luíza era tão esperta, tão inteligente.

- Estou com vergonha dos meus pés - expliquei e logo corei. Não era a resposta imediata que eu queria dar.

Ela riu.

- Que besteira! - pôs as costas de sua mão direita e acariciou meus pés, retirando a areia que estava presente. - Você precisa ser mais confiante em si mesmo.

Senti cócegas e ri, ainda envergonhado. Mas também pensando em sua última frase.

- Se quiser uma sandália, posso pegar alguma do meu pai.

- Não se preocupe com isso, Luíza com Z.

Estava meio sem jeito por ter sentido sua mão em meu pé. Mesmo sem estar com chulé, fiquei receoso que sua mão ficasse com algum cheiro ruim, mas talvez a areia houvesse escondido isso.

Uma gaivota voou no céu e fez um som estranho. Fitei-a e vi suas asas abertas, batendo.

- Lembra do nosso papo por Whatsapp? - Luíza me questionou, mudando de assunto. - Sobre as estrelas e tal?

Infinitos São Os Nossos AtosOnde histórias criam vida. Descubra agora