20- Amor de mãe

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Assim que saímos do restaurante o sermão começou.

Minha mãe estava praticamente soltando fogo pelas ventas, respirando pesadamente enquanto dirigia pelas ruas quase desertas da cidade despejando palavra atrás de palavra em um fluxo quase ininterrupto.

— Como você se atreve a ficar se agarrando por aí com aquele garoto? —  chiou fazendo uma conversão. Seu rosto só estava iluminado pelas fracas luzes do painel do sedan e pelas luzes dos postes, aparecendo e sumindo a cada poucos metros. Se ela não estivesse tão fula da vida comigo, eu teria pensado que era uma composição de luz e sombras muito interessante. — O que ele disse na frente do Kaíque e Pedro! Você não tem vergonha nessa sua cara?!

— Nem um pouco — repliquei dando de ombros, mantendo o olhar fixo na rua além do parabrisas, onde a maior parte do comércio estava fechada naquele fim de noite. — O Dan é meu namorado, podemos muito bem ficar de amassos por aí.

— Pois termine com ele — rosnou com o rosto contraído de fúria. — Você faz alguma ideia do climão que ficou depois que você e o seu querido namorado saíram? Como eu precisei fazer malabarismos para manter Pedro e Giuseppe felizes quando seus filhos se odeiam por causa da minha filha?

Estremeci. A julgar pelo clima pesado que nos cercou no segundo em que entramos de volta no restaurante, eu tinha uma boa ideia de como foi. No entanto, a culpa não era minha! Ela que escolheu trabalhar para aquele babaca. Eu realmente estava recebendo aquele sermão todo por tentar seguir em frente com a minha vida?

É claro que a briga dos dois idiotas complicou tudo. Até mesmo o dono do estabelecimento, um homem velho que parecia o Carl de "Up! - Altas Aventuras", apareceu para dar um puxão de orelha em Dan e Kaíque, mas, sendo filhos de quem eram, não aconteceu nada demais. Ah, os privilégios de ser um garoto branco e rico.

— Desculpa, mãe, mas não vou terminar com o Dan. Eu... o amo — prendi a respiração quando as palavras saíram sem eu nem pensar. O pior é que não era nenhuma mentira. Ali estavam as palavras que meu coração sussurrava toda vez que eu vi Dan. Ou pensava nele.

Até as borboletas voavam dentro do meu estômago só com o mero pensamento de ver o sorriso idiota, aquela mania dele de tocar o piercing quando estava sendo malicioso ou brincalhão. Era engraçado que eu não pudesse apontar exatamente em que momento aquele sentimento nasceu. Talvez entre as intermináveis implicâncias ou quando ele se mostrava absurdamente protetor... eu só sabia que aquele sentimento era algo que eu nunca senti, mesmo tendo namorado o imbecil do meu ex por quase três anos.

— Amor — mamãe zombou sem sequer se dignar a me olhar, me tirando desses pensamentos felizes. — Você lá sabe o que é amor, garota?

— Talvez não — admiti. Eu queria dizer mais, explicar como eu me sentia protegida e completa ao lado dele, mas eu sabia que ia entrar por um ouvido e sair pelo outro, então apenas suspirei. — Mas sei como me sinto com ele.

Ela riu sem nenhum humor e o som arrepiou até os ossos, me deixando gelada. Será que Dan estava recebendo um sermão semelhante?

Seu pai não tinha ficado nem um pouco feliz quando nos sentamos à mesa, bem diferente de como reagiu na primeira vez em que nos vimos. Desejei não ter fugido na segunda-feira, quando Dan me convidou para  almoçar com eles. Infelizmente o tempo não volta para corrigir nossos erros, a gente só precisa aprender a lidar com eles.

— Você sabia que eu conheço os Ricci há vários anos? — perguntou com um tom bem mais brando, mudando de atitude como se tivesse desligado um interruptor. Aquele era o seu tom de voz "advogada". Eu o conhecia muito bem. — Peguei alguns processos depois que o antigo advogado pessoal de Giuseppe morreu. Fui eu que tirei esse menino da apreensão quando ele foi pego com drogas. Drogas, Sofia! Esse é o tipo de garoto que você quer se relacionar, amar? Que causa brigas com colegas por um insulto mínimo e vende drogas? Foi essa a educação que eu te dei?

Mentira Perfeita [CONCLUÍDA]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora