21- O fim

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Na quinta-feira, as coisas em casa estavam bastante esquisitas. Supervisionei o banho dos meus irmãos e coloquei eles nas roupas para o judô antes de tentar convencê-los a comer um pouco de torrada com geleia. Mas, apesar da pouca idade e dos meus esforços, eles perceberam que alguma coisa estava errada.

— Cadê o papai? — Analu exigiu saber com os pezinhos balançando para fora da sua cadeira, encarando o pote de geleia como se ele tivesse feito alguma coisa pessoal contra ela. — Ele sempre faz panqueca de manhã! Eu quero panqueca!

Mordi o interior da bochecha. Eu não tinha a menor ideia de como dar a notícia para eles, então optei por uma meia-verdade:

— O papai foi para o restaurante, ele vai passar aqui mais tarde para buscar vocês, mas me pediu para dar pãozinho — respondi com delicadeza.

Os imensos olhos redondos me encararam pelo que poderia ter sido uma eternidade.

Finalmente minha irmã relaxou e estendeu braço para alcançar seu pão.

Nossa mãe saiu para o trabalho poucos minutos depois com os ombros um tanto caídos e o rosto abatido. As meia-luas escuras sob os olhos indicavam que ela não tinha conseguido dormir muito bem e meu coração se apertou quando ela passou por nós, sentados à mesa.

Pela primeira vez em um bom tempo, a minha mãe sorriu na minha direção. Não era um sorriso feliz. Na verdade era bem o oposto disso, mas ainda assim eu fiquei estática com quanto aquele pequeno gesto fazia ela parecer mais jovem, como se fosse outra pessoa.

Mamãe brincou com os cabelos dos gêmeos e se inclinou para beijar a minha testa.

— Bom dia para vocês — disse com a voz trêmula demais para soar despreocupada.

Pouco tempo depois, uma mensagem do contato "Mãe" chegou: Tenha um bom dia na escola hoje.

Apenas encarei a tela, tentando entender o que era aquilo. Nossas trocas de mensagem normalmente envolviam as coisas para a lista de compras e perguntas simples como "colocou o frango para descongelar?", nunca recebi uma mensagem daquelas. Será que eu caí em um mundo paralelo enquanto dormia? Talvez tivesse entrado no mundo da Coraline sem querer e aquela fosse a Outra Mãe.

Não tive tempo para descobrir, pois uma mensagem de papai chegou no meu celular e escoltei os dois pestinhas para a frente do prédio.

Ele estava com óculos escuros, mas sorriu assim que nos viu, com o vidro abaixado.

— Obrigado, Sofs — murmurou quando terminei de afivelar Analu.

Forcei um sorriso que não enganava ninguém.

— Sempre que precisar — afirmei apertando seu ombro musculoso. — Como foi ontem?

Papai coçou a careca e pressionou os lábios grossos um contra o outro até eles virarem uma linha pálida.

— Foi... diferente — respondeu soando quase como uma pergunta. Eu estava  morrendo para poder ver seus olhos, mas eles estavam escondidos atrás das lentes escurecidas e me perguntei se papai não tinha sofrido da mesma insônia da minha mãe. — É estranho dormir sozinho depois de passar dez anos ao lado de alguém, mas vou me acostumar.

Analisei o que podia ver de sua expressão questionadora e assenti, embora não tivesse acreditado plenamente nele. Deus sabia que eu já tinha coisas demais para lidar sem precisar de um papel de conselheira matrimonial para os meus pais.

— Vai sim — concordei no mesmo tom dele. Nós dois éramos péssimos mentirosos.

Meu pai beijou a minha bochecha e observei o carro preto se afastar antes de puxar o celular para checar o horário. Seis e dez. Eu tinha dez minutos para tomar banho e me arrumar antes de Dan chegar.

Mentira Perfeita [CONCLUÍDA]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora