Primeira terrível condição da morte: ser uma. Razão da morte de Lázaro. Deus deixou o nascer à natureza e o morrer à eleição. O inferno, morte segunda para aqueles que só morrem uma só vez. A dupla morte das árvores.
Primeiramente é terrível e terrivelíssima condição da morte, ser uma: Statutum est hominibus semel mori.4 Hei de morrer, e uma só vez. A lei geral de Adão diz: Morte morieris: Morrerás (Gên. 2, 17). A glosa de S. Paulo acrescenta: Semel: Uma vez. E sendo a lei tão temerosa, muito mais terrível é a glosa que a mesma lei. Os males desta vida, quanto mais se multiplicam, tanto são maiores: Multiplicabo aerumnas tuas,5disse Deus a Eva. O maior mal da morte é não se poder multiplicar. Se a unidade da morte se multiplicara, e se pudera morrer mais de uma vez, apelara-se de uma para a outra. Quando Davi saiu a desafio com o gigante, meteu cinco pedras no surrão, porque se errasse a primeira pedrada, pudesse apelar para as outras pedras (1 Rs. 17,40). Todos havemos de sair a desafio com este grão-gigante, com este Golias da morte, mas o vencer ou não vencer, está em um só tiro. Quem disse: Non licet in bello bis errare, errou.6. Oque se erra em uma batalha, podese emendar na outra, e o que se perdeu em uma rota, pode-se recuperar em uma vitória: só a morte é aquela em que não é lícito errar duas vezes. Ergo erravimus (Sab. 5,6): Enfim erramos, – diziam depois de mortos aqueles que tinham dito pouco antes: Coronemus nos rosis, antequam marcescant (Sab. 2,8): Coroemonos de rosas, antes que se murchem. – Pois se errastes, por que não emendais o erro? Porque já não é tempo; somos mortos. Muito mais temerosa é nesta parte a morte do corpo que a morte da alma. Para a morte da vida espiritual há contrição, há penitência; para a morte da vida corporal não instituiu Deus sacramento, nem há remédio. Quem a errou uma vez, errou-a para sempre. A transmigração deste mundo para o outro não é como a transmigração de Pitágoras. Se a alma, depois de viver em um corpo, pudera animar outro, depois de o homem morrer a primeira vez em um ladrão, pudera morrer a segunda em um anacoreta. Mas quem uma vez morreu Judas, não lhe resta outra morte para morrer Paulo. Uma só morte, ou boa para sempre, ou má para sempre: Semel.
Não há dúvida que é terrível condição esta da morte. Mas para quem terrível? Para quem morre quando morre. Porém quem morre antes de morrer; zomba desta condição e ri-se desta terribilidade: Ridebit in die novissimo.7 Que se me dá a mim que a morte seja uma, se eu posso fazer que sejam duas? A morte não tem remédio depois, mas tem remédio antes. Constituisti terminos ejus, qui praeteriri non poterunt.8 Notai a palavra praeteriri. A morte é um termo que se não pode passar da parte dalém, mas pode-se antecipar da parte daquém. Não tem remédio depois, poque depois de uma morte não há outra morte; mas tem remédio antes, porque antes de uma morte pode haver outra. Por lei e por estatuto hei de morrer uma vez, mas na minha mão e na minha eleição está morrer duas, e este é o remédio. Morreu Lázaro, enterraram-no as irmãs, chegou Cristo ao sepulcro, e chorou. À vista destas lágrimas e da sepultura de Lázaro, admirados os circunstantes diziam: Non poterat hic, qui aperuit oculos coeci nati, facere ut hic non moreretur? (Jo. 11,37): Este que chora, não é o mesmo que deu a vista ao cego de seu nascimento? Sim. Pois como não impediu que morresse Lázaro? – Se chora, é seu amigo; se deu vista ao cego, é poderoso: é amigo e poderoso, e não faz por seu amigo o que pode? Se o podia sarar, por que o deixou morrer, e não fez o que podia? Não fez Cristo neste caso o que podia, porque nos quis ensinar com este caso a fazer o que podemos. Quis-nos ensinar Cristo a morrer duas vezes. Altamente Santo Agostinho: Ut unus homo semel nasci, et bis mori disceret. Deixou Cristo morrer a Lázaro, e não o quis sarar enfermo, senão ressuscitar morto, para que à vista deste exemplar (morrendo Lázaro agora, e tornando a morrer depois) – aprendessem e soubessem os homens, que nascendo uma só vez, podem morrer duas: Semel nasci et bis mori. Oh! divino documento do divino Mestre: Nascer uma vez, e morrer duas vezes!
Bem creio eu que haverá bem poucos que quiseram antes trocados estes termos, e poder nascer duas vezes, para escolher nascimento. Mas Deus que nos fez para a eternidade, e não para o tempo, para a verdade e não para a vaidade, deixou o nascer à natureza, e o morrer à eleição. No nascer; em que todos somos iguais, não pode haver erro, e por isso basta nascer uma vez; no morrer, em que o erro ou acerto importa tudo, e há de durar para sempre, era justo que o homem pudesse morrer duas vezes, para eleger a morte que mais quisesse, e para aprender; morrendo, a saber morrer. Nenhuma coisa se faz bem da primeira vez, quanto mais a maior de todas, que é morrer bem. Reparo é digno de toda a admiração, que sendo tantas as meditações da morte, e tantos os espertadores deste desengano, sejam tão poucos os que sabem morrer. Mas a razão desta experiência e desta desgraça é porque as artes ou ciências práticas não se aprendem só especulando, senão exercitando. Como se aprende a escrever? Escrevendo. Como se aprende a esgrimir? Esgrimindo. Como se aprende a navegar? Navegando. Assim também se há de aprender a morrer, não só meditando, mas morrendo. Por isso Cristo nos ensinou em Lázaro a morrer duas vezes: uma vez para que aprendêssemos, outra para que soubéssemos morrer. Ao paralítico, e a outros a quem o Senhor deu saúde milagrosa, depois de os sarar, pregava-lhes; a Lázaro, e aos demais que ressuscitou, nenhum documento lhes deu. E por quê? Porque eram homens que já morreram uma vez, e haviam de morrer outra, e quem morre antes da morte, não há mister mais doutrina para bem morrer.
O inferno e a condenação eterna (que é o paradeiro dos que morrem mal), chama-se no Apocalipse morte segunda. E faz menção ali S. João de certas almas, em quem a morte segunda não tem poder: In his secunda mors non habet potestatem (Apc. 20,6). E que almas venturosas são estas, em quem não tem poder a morte segunda? Todos, enquanto estamos sujeitos à morte primeira, que é a morte temporal, estamos também arriscados à morte segunda, que é a morte eterna, porque todos nos podemos condenar e ir ao inferno. Que almas são logo estas privilegiadas que totalmente se isentam do poder e jurisdição da morte segunda? São as almas daqueles que com verdadeira resolução e perseverança souberam acabar a vida antes da morte e morrer antes de morrer. Das mesmas palavras de S. João se colhe, se bem as consideramos. E se não, pergunto: Por que se chama a morte eterna precisa e determinadamente morte segunda, e não mais que segunda? Porque não pode ser morte senão daqueles que uma só vez. Morte segunda refere-se à morte primeira, e supõe antes de si outra morte, mas uma só, e não mais que uma, porque se as mortes antecedentes fossem duas, já não seria morte segunda, senão morte terceira. E como os que morrem em vida morrem duas vezes, uma quando morrem, e outra antes de morrer; já não tem neles lugar morte segunda. Para quem morre uma só vez há no inferno morte segunda; para quem morre duas vezes, não há lá morte terceira. Por isso a que se chama segunda, não tem sobre eles poder: In bis secunda mors non habet potestatem. Oh! ditosos aqueles, que para evitar o perigo da morte segunda, souberem meter outra morte diante da primeira!
Cristãos, e senhores meus, se quereis morrer bem (como é certo que quereis) não deixeis o morrer para a morte: morrei em vida; não deixeis o morrer para a enfermidade e para a cama: morrei na saúde, e em pé. E se quiserdes para esta grande empresa um corpo, ou hieroglífico natural, não notado por Plínio ou Marco Varro, senão por autor divino e canônico, eu vo-lo darei. Foi notar S. Judas Tadeu naquela sua admirável epístola, que as árvores morrem duas vezes: Arbores autumnales, infrutuosae, bis mortuae.9 A primeira vez, morrem as árvores em pé, a segunda deitadas; a primeira, quando se secam; a segunda, quando caem. Platão disse que os homens são árvores às avessas, e eu acrescento que, se morrerem como as árvores, serão homens às direitas. Na árvore, enquanto lhe dura a vida, ou a verdura, tudo são galas, tudo pompa, tudo novidades; morre finalmente a árvore com o tempo a primeira vez, e daquele corpo tão formoso e vário, que vestiam as folhas, que guarneciam as flores, que enriqueciam os frutos, não se vê mais que um cadáver seco, triste e destroncado. Neste despojo de tudo o que tinha sido, presa ainda pelas raízes, e sustentando-se na terra, mas não da terra, espera a árvore em pé a última caída, e esta é a segunda morte, com que de todo acaba. Assim deve acabar antes de acabar, quem quer acabar bem. Quantas primaveras têm passado por nós, quantos verões, e quantos outonos, e pode ser que com menos fruto que folha e flores! O que fazem os anos nas árvores, bem o puderam já ter feito em muitos de nós os mesmos anos. E é bem que a razão e o desengano o faça em todos, pois são mais fracas as nossas raízes. Espereinos mortos pela morte, e esperemo-la em pé, antes que ela nos deite na sepultura. Oh! ditosa sepultura a daqueles na qual se possa escrever com verdade o epitáfio vulgar do grande Escoto: Semel sepultus, bis mortuus: Uma vez sepultado, e duas morto.
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Sermões
De TodoREPUBLICAÇÃO AUTOR: Antônio Vieira APENAS SERMÇOES SELECIONADO PELA COMVEST 2021 O padre Antônio Vieira é das personagens mais importantes da história do Brasil e de Portugal no século XVII. Qualquer que seja a posição que se tenha quanto à sua atua...
