Quantos mortos que ainda lhes faltam por viver muitos anos! Propósitos: À imitação de Elias, seguindo o conselho do Espírito Santo, demos a Deus o tempo que sempre é seu, enquanto é também nosso, e não quando já não temos parte nele.
Parece-me, senhores meus, que tenho satisfeito ao meu argumento, e tanto em comum, como em cada uma das suas partes, demonstrado a verdade dele, mais pela evidência da matéria que pela força das razões, menos necessárias a um auditório de tanto juízo e letras. Para o que se deve colher desta demonstração, quisera eu que subisse agora a este lugar quem com diferente espírito e eficácia perorasse. Mas já que hei de ser eu, ajudai-me a pedir de novo à divina bondade o favor e auxílio de sua graça, que para matéria de tanto peso nos é necessária.
Tudo o que temos dito e ouvido, é o que nos ensina nas Escrituras a fé, nos santos o exemplo, e ainda nos gentios o lume e razão natural. Mas quando eu vejo e considero o modo com que comumente vivemos cristãos, e o modo com que morrem, acho que em vez de acabarmos a vida antes da morte, ainda depois da morte continuamos a vida. Parece paradoxo, mas é experiência de cada dia. Que morto há nestas sepulturas, e mais nas mais altas, em quem a morte se não antecipasse à vida? Que morto há que não esperasse e presumisse que havia de viver mais do que viveu? Dum adhuc ordirer, succidit me.21 Nós urdimos a teia, a vida a tece, a morte a corta; e quem há, ou quem houve, a quem não sobejasse depois da morte muita parte da urdidura? É possível, dizia Ezequias, quando o profeta o avisou para morrer, é possível que hei de acabar a vida no meio dos meus dias: In dimidio dierum meorum vadam ad portas inferni.22 E quem lhe disse a este enganado rei, que aquele era o meio, e não o fim de seus dias? Disse-lho a sua imaginação e a sua esperança. Cuidava que havia de viver oitenta anos, e a morte veio aos quarenta. Eis aqui como continuava e estendia a vida quarenta anos além da morte. Quantos estão já debaixo da terra, que ainda lhes faltam por viver muitos anos! Ouçamos a um destes. Anima mea, habes multa bona in annos plurimos (Lc. 12,19): Alma minha, tens muitos bens para muitos anos. Comede, bibe, epulare (Lc. ibid, 20): Leva-te boa vida, regala-te, gasta largamente e a teu prazer, já que tiveste tão boa fortuna. – Não tinha acabado de pronunciar estas palavras, quando ouviu uma voz que lhe dizia: Stulte, hac nocte animam tuam repetent a te (Lc. ibid.): Néscio, ignorante, insensato, este dia que passou foi o último de tua vida, e nesta mesma noite hás de morrer. – Morreu naquela mesma noite, e os muitos anos que se prometia de vida: In annos plurimos, que foi feito deles? Ainda se continuaram e foram correndo em vão, depois da sua morte. Verdadeiramente néscio, e pior que néscio, stulte. Os anos de que fazias conta, não eram teus, e os bens que eram teus, serão de outrem. Mas ainda que os anos não foram teus para a vida, serão teus para a conta, porque hás de dar conta a Deus, do modo com que fazias conta de os viver. Quanto melhor conselho fora acabar antes da morte os anos que vivestes, para o remédio, que continuar depois da morte os anos que não viveste, para o castigo! Agora acabo eu de entender aquele dificultoso conselho do Espírito Santo: Ne moriaris in tempore non tuo (Eclo. 7,18): Não morras no tempo que não é teu. Ne moriaris: Não morras? Logo, na minha mão está a morte. In tempore non tuo: No tempo que não é teu? Logo, há tempo que é meu, e tempo que não é meu. Assim é. Mas qual é o tempo meu, em que é bem que morra, e qual o tempo não meu, em que é bem que não morra? O tempo meu é o tempo antes da morte; o tempo não meu é o tempo depois da morte. E guardar, ou esperar a morte para o tempo depois da morte, que não é tempo meu, é ignorância, é loucura, é estultícia, como a deste néscio: stulte; mas antecipar a morte, e morrer antes de se acabar a vida, que é o tempo meu, esse é o prudente e o sábio, e o bem entendido morrer. E isto é o que nos aconselha quem só tem na sua mão a morte e a vida: Ne moriaris in tempore non tuo.
Quem haverá logo, se tem juízo, que se não persuada a um tão justo, tão necessário e tão útil partido, como acabar a vida antes da morte? Faça a nossa alma com o nosso corpo, e o nosso corpo com a nossa alma, o concerto que fez Elias. Ia Elias fugindo pelo deserto à perseguição da Rainha Jesabel, que o queria matar, e vendo quão dificultosa coisa era escapar à fúria de uma mulher poderosa e irada, diz o texto que pediu a morte à sua alma: Petivi animae suae ut moreretur (3 Rs. 19,4). Alma minha, morramos; já que se há de morrer por força, morramos por vontade. Isto pedia o corpo à alma, e isto deve também pedir a alma ao corpo, porque ambos vão igualmente interessados no mesmo partido. Alma minha, diga o corpo à alma; corpo meu, diga a alma ao corpo: Se havemos de morrer depois por força e com perigo, morramos agora e logo, de grado e com segurança. Eu bem vejo que o vir facilmente neste concerto, é mais para os desertos que para as cortes. Na corte fugia Elias da morte; no deserto chamava por ela. Mas se uma tal resolução no deserto é mais fácil, na corte é mais necessária, por que nas cortes é muito mais arriscado o esperar pela morte para acabar a vida.
Suposto pois que o ditame é certo, conveniente e forçoso, desçamos à prática dele, sem a qual tudo o demais é nada. Isto de acabar a vida antes da morte, como se há de fazer? Respondo que fazendo resolutamente por própria eleição, na morte antecipada e voluntária, tudo aquilo que se faz prudente e cristãmente na morte forçosa e precisa. Que faz um cristão quando o avisam para morrer? Primeiramente (que isto deve ser o primeiro) confessa-se geralmente de toda sua vida, arrepende-se de seus pecados, compõe do melhor modo que pode suas dívidas, faz seu testamento, deixa sufrágios pela sua alma, põe-na inteiramente nas mãos do padre espiritual, abraça-se com um Cristo crucificado, e dizendo como ele: Consummatum est (Jo. 19,30), espera pela morte. Este é o mais feliz modo de morrer que se usa. Mas como é forçoso e não voluntário, e aqueles poucos e perturbados atos que então se fazem, não bastam para desfazer os maus hábitos da vida passada, assim como a contrição é pouco verdadeira e pouco firme, e as tentações então mais fortes, assim a morte é pouco segura e muito arriscada. A contrição, diz Santo Agostinho, na enfermidade é enferma, e na morte, diz o mesmo santo, temo muito que seja morta. Deixemos logo os pecados quando nós os deixamos, e não quando eles nos deixam a nós, e acabemos a vida quando ainda podemos viver; e não quando ela se tem acabado. Que damos a Deus, quando ele nola tira? Demos a vida a Deus, enquanto ele no-la dá; demos a Deus o tempo que sempre é seu, enquanto é também nosso, e não quando já não temos parte nele. Que propósitos são aqueles de não ofender mais a Deus, se eu já não tenho lugar de o ofender? A confissão nos tratos não é jurídica; há-se de ratificar fora dela para fazer fé; e pois se não pode ratificar depois, ratifique-se antes. A fazenda que se há de alijar ao mar no meio da tempestade, não é mais são conselho que fique no porto, e com ganância? Se eu posso ser o testador do meu, e mais o testamenteiro, por que o não serei? Se o meu testamento há de dizer: Item deixo, por que não dirá: Item levo? Não é melhor levar obras pias, que deixar demandas? Se se há de dizer de mim em dúvida: Fulano que Deus tem, não é melhor que seja desde logo, e com certeza?
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RandomREPUBLICAÇÃO AUTOR: Antônio Vieira APENAS SERMÇOES SELECIONADO PELA COMVEST 2021 O padre Antônio Vieira é das personagens mais importantes da história do Brasil e de Portugal no século XVII. Qualquer que seja a posição que se tenha quanto à sua atua...