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Se não há nem pode haver vidas que careçam de misérias, o que se tem dito da vida dos miseráveis se deve entender de todas e de todos. As dobradas misérias a que está sujeita a maior felicidade da natureza, que é a saúde. A morte, médico universal de todas as doenças. Felicidade dos que morreram pelejando por Tróia. Em que consiste a bem-aventurança do céu. A dupla morte de Catão.

Eu, que direi? Digo que folgara e estimara muito que esta distinção ou a limitação fora verdadeira, porque a melhor e maior parte do auditório a que prego é dos felizes desta vida, e dos que o mundo inveja e venera por tais. Mas quando Salomão chamou mais ditosos aos mortos que aos vivos, não fez distinção de vivos miseráveis a vivos felizes, senão que de todos os que vivem falou igualmente: Laudavi magis mortuos quam viventes[15]. – E para eu refutar os defensores da vida dos felizes, não quero outro argumento senão o seu. Concedem que a morte é maior bem que a vida dos miseráveis: logo, também é maior bem que a vida dos que eles chamam felizes. E se não, os mesmos felizes o digam. Pergunto. Há, ou houve, ou pode haver neste mundo vida alguma tão mimosa da fortuna e tão feliz que careça totalmente de misérias? Ninguém se atreverá a dizer nem imaginar tal coisa: logo, se não há nem pode haver vida que careça de misérias, o que se tem dito da vida dos miseráveis se deve entender de todas e de todos. Os que vulgarmente se reputam e cha¬mam felizes tanto se enganam com a sua felicidade como com a sua vida: por isso amam a vida e temem a morte. Mas este engano lhes descobriremos agora, para que conheçam que em todo o estado e em toda a fortuna a morte é o maior bem da vida, e o pó que havemos de ser o maior bem do pó que somos.

Todos os bens de que é capaz o homem, enquanto vive neste mundo, ou são bens da natureza, ou bens da fortuna, ou bens da graça; mas nenhum deles é tão sólido, inteiro e puro bem que o goze sem tributo de misérias a vida, nem a possa livrar deste tributo senão a morte. Entre os bens da natureza, o mais excelente, o mais útil e o mais necessário é aquele sem o qual nenhum outro bem se pode gozar, a saúde. E só quem compreender o número sem número de, enfermidades e dores a que está sujeita e exposta a saúde, ou geradas dentro do mesmo homem, ou nascidas e ocasionadas de fora, poderá conhecer exatamente quão carregado de duríssimas pensões, e não cheio de misérias ou deu ou emprestou à mesma natureza, ainda aos mais sãos e robustos, este calamitoso bem. Pois, que remédio? Os egípcios, entre os quais nasceu a medicina, para cada enfermidade, como refere Heródoto, tinham um médico particular; mas nem por isso saravam todos, nem de todas[16]. El-rei Ezequias mandou queimar os livros de Salomão, porque o povo, recorrendo às virtudes das ervas em suas enfermidades, deixava de acudir a Deus, que é a verdadeira raiz da saúde. Assim o refere Eusébio Cesariense. Mas enquanto duraram os mesmos livros, nem aos enfermos particulares, nem ao mesmo Salomão aproveitou aquela grande ciência médica. Até quando? Até que as próprias doenças os sujeitaram ao médico universal, que, sem aforismos nem receitas, cura em um momento a todas, que é a morte. O mors, veni nostris certus medicus malis[17]! Ó morte, vinde, que só vós sois o verdadeiro e certo médico para todos os nossos males! – É exclamação proverbial dos gregos, referida por Plutarco. Morrestes, acabaram-se as enfermidades, acabaram-se as dores, acabaram-se todas as moléstias e aflições que martirizam um corpo humano; e até o temor da mesma morte se acabou, porque os mortos já não podem morrer.

Vede a grande diferença dos mortos aos vivos. Os vivos sobre a terra temem a morte, os mortos debaixo da terra esperam a ressurreição, e quanto vai do esperar ao temer, e das isenções da imortalidade às sujeições de mortal, tanto melhor é o estado dos mortos que o dos vivos. Os que escaparam vivos do incêndio de Tróia chamavam bem-aventurados aos que morreram pelejando por ela:

O terque quaterque beati,

Queis ante hora patrum, magnae sub moenibus urbis,

Contigit oppetere[18]!

Sem conhecer a bem-aventurança, nem entender o que diziam, levantaram um admirável pensamento porque a felicidade de que gozam os mortos por benefício da morte, se não é como toda a bem-aventurança do céu, é como ametade dela. A bem-aventurança do céu, enquanto positiva e negativa, compõe-se daquelas duas partes em que a dividiu Santo Agostinho quando disse: Ibi erit quidquid voles, et non,erit quidquid nolles[19]. – A primeira parte consiste na posse e fruição de todos os bens, e a segunda na privação e isenção de todos os males. Ouçamos agora a S. João no seu Apocalipse, descrevendo a mesma bem-aventurança: Et absterget Deus omnem lacrymam ab oculis eorum: et mors ultra non erit, negue clamor; negue dolor erit ultra, guia prima abierunt (Apc. 21, 4): Aos que forem ao céu, enxugar-lhes-á Deus todas as lágrimas, e já não haverá morte, nem clamores, nem gemidos, nem dores, por que estas misérias e penalidades todas pertenciam ao estado da primeira vida, que já passou. – E haverá quem possa negar que todas estas queixas e causas delas são as de que estão isentos os mortos na sepultura? Já para eles não há lágrimas, nem gemidos, nem dores, nem enfermidades, nem a mesma morte. As dores e enfermidades desta vida têm dois remédios ou alívios: um natural, que são as lágrimas e o s gemidos, e outro violento e artificial, que são os medicamentos. E a morte, não só nos livra das misérias da vida, senão também dos remédios dela. Já dissemos que Catão matou a si mesmo, mas não se matou de uma vez, senão de duas, com modo e circunstâncias notáveis[20]. Estando são e valente, meteu um punhal pelos peitos; acudiram logo, e curaram-lhe as feridas, mas ele, depois de curado, metendo a mão na mesma ferida, a fez maior, e se acabou de matar. De sorte que começou a se matar são, e acabou de se matar curado. São, para se livrar da vida, curado, para se livrar da vida e mais dos remédios. Por isso disse Santo Agostinho que quantas são as medicinas tantos são os tormentos. E tais são as dobradas misérias a que está sujeita a maior felicidade da natureza, que é a saúde, bastando para a tirar padecidas, e não bastando para a conservar remediadas.

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