O maior bem da vida entre os sábios da gentilidade. A resposta de Sileno a el-rei Midas. Biton e Cleobo, Agamedes e Trofônio e o maior bem que lhes podiam conceder os deuses.
Resumindo, pois, as três partes deste último discurso, delas consta que os bens da natureza, da fortuna e da graça, todos estão sujeitos a grandes misérias, das quais só nos pode livrar a morte; donde se segue que a mesma morte, sem controvérsia, é o maior bem da vida. E para que em uma só demonstração vejamos inteira, e não por partes, esta mesma prerrogativa da morte, não inculcada de novo, mas crida, aprovada e impressa no juízo dos homens, ouçamos uma notável antigüidade. Como é inclinação natural do homem conhecer o bem com o entendimento e apetecê-lo com a vontade, foi questão antiquíssima entre os homens, ainda quando eram gentios, em que consistisse o maior bem desta vida. E porque Deus, como diz S. Paulo, não só governa com sua universal providência os fiéis, senão também os infiéis, sendo falsos naquele tempo os mestres, que os homens ouviam, e falsos os deuses que adoravam, não só permitiu, mas quis a mesma providência que destas duas fontes tão erradas bebessem uma verdade tão importante, como ser, dentro dos limites e ordem da natureza, o maior bem da vida a morte. E foi desta maneira.
Houve entre os sábios da gentilidade um homem chamado Sileno, semelhante na opinião aos nossos profetas, cujas respostas, como inspiradas por instinto mais, que natural, eram recebidas e cridas como oráculos. A este Sileno, pois, consultou el-rei Midas, sobre qual fosse o maior bem desta vida, e, depois de muitos rogos e instâncias, a resposta que dele alcançou foi esta: Non nasci omnium est optimum: mortuum autem esse longe est melius quam vivere[30]: O melhor de tudo é não nascer; mas, no caso de haver nascido, muito melhor é ao homem o morrer que o viver. – Assim o disse Sileno, e não só do vulgo foi recebido como provérbio este dito, mas o aprovaram e celebraram sempre os dois maiores lumes da filosofia racional, Platão e Aristóteles. Píndaro, príncipe dos poetas líricos da Grécia, parece que, duvidoso ainda desta verdade, quis fazer maior exame dela, e como pelo oráculo de Delfos lhe fosse respondido o mesmo, que faria? Fez o que devera fazer com semelhante desengano todo o cristão. Deixou as musas, e em vez de compor versos, tratou de compor a vida, His auditis, ad mortein se comparasse, et pauto post vivendi finem fecisse – diz Plutarco.
Não parou aqui a providência divina, mas, para maior prova deste desengano, obrigou ao pai da mentira que falava e obrava nos ídolos, a que muito a seu pesar o confirmasse com dois notáveis prodígios. Agria era sacerdotisa da deusa Juno, e como na mesma hora em que havia de fazer o sacrifício tardassem os cavalos que a costumavam levar em carroça, dois filhos que tinha, chamados Biton e Cleobo, se meteram no lugar dos cavalos; e com tanta força e pressa tiraram a carroça, que nem um momento de tempo faltou a mãe à pontualidade do sacrifício. Foi tão admirado e estimado este ato, verdadeiramente heróico de piedade para com a mãe, e de religião para com a deusa, que deu confiança a Agria para pedir a Juno, em prêmio dela, que desse àqueles seus dois filhos não menos que a melhor coisa que os deuses desta vida podiam dar aos homens. Concedeu a deusa, como tão bem servida, o que a mãe pedia. E qual seria o despacho da petição? No mesmo ponto caíram mortos debaixo dos seus olhos os mesmos filhos, confirmando a falsa deidade, com verdadeiro documento, que entre os bens e felicidades naturais, que ao homem podem suceder nesta vida, o maior e o mais seguro é a morte. A este famosíssimo par, Biton e Cleobo, ajunta Platão outro não menos famoso, Agamedes e Trofônio. Edificaram estes dois um templo a Apolo Pítio, e no dia da dedicação oraram ao deus desta maneira: que se aquela obra lhe agradava, o seu intento era pedirem lhes concedesse o que melhor podia estar a um homem nesta vida; e porque eles não sabiam que coisa fosse esta melhor, ele, de quem esperavam a mercê, o resolvesse. Respondeu Apoio que dali a sete dias lhes concederia o que pediam, e o que sucedeu ao sétimo dia foi que, deitando-se a dormir Agamedes e Trofônio, nunca mais acordaram: Cumque obdormissent, nunquam deinde surrexisse.
Já dissemos que estes prodígios foram efeitos da providência divina, a qual nestes casos, como em outros muitos, desenganou aos homens pelos mesmos de quem eram enganados. Pois, se Deus respondeu com aqueles sinais aos que desejavam e pediam o maior bem da vida, por que deu a uns a morte e a outros o sono de que não acordaram? Porque em frase também divina o dormir é morrer, e o tornar a viver, acordar: Lazarus, amicus noster, dormit, sed vado ut a somno excitem eum[31]. – E como um e outro sinal, ou era declaradamente, ou significava a morte, a uns e outros quis ensinar Deus – e neles a todos os homens – que a mesma morte, que eles não pediam nem desejavam, era o maior bem da vida, que desejavam e pediam. Desejais e pedis o maior bem da vida? Pois acabai de viver, e gozá-lo-eis na morte. E esta verdade, então admirada, e antes e depois tão mal entendida, quis a mesma providência, para que a acabássemos de entender, que ficasse estabelecida e perpetuada como em quatro estátuas, não levantadas, mas caídas: em Biton e Cleobo mortos, e em Agamedes e Trofônio dormindo.
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Sermões
De TodoREPUBLICAÇÃO AUTOR: Antônio Vieira APENAS SERMÇOES SELECIONADO PELA COMVEST 2021 O padre Antônio Vieira é das personagens mais importantes da história do Brasil e de Portugal no século XVII. Qualquer que seja a posição que se tenha quanto à sua atua...