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Se o pó que havemos de ser é o maior bem do pó que somos, que devemos fazer os vivos? A resolução de S. Paulo: viver como mortos, viver em Deus e em Cristo, e não com o mundo. A morte, correção geral que emenda em nós todos os vícios. Conclusão: que devemos fazer para que o pó que somos e o pó que havemos de ser, sobre a terra, como planta, e debaixo da terra, como raiz, seja fecundo.

A vista, pois, destas quatro estátuas, as quais, enquanto vivas e em pé eram o pó que somos, e, enquanto caídas e jazendo em terra, são o pó que havemos de ser, que fará todo o entendimento racional e cristão? Se o pó que havemos de ser é o maior bem do pó que somos, e se o maior bem da vida é a morte, que havemos ou que devemos fazer os vivos? Hereges houve, como de seu tempo refere Santo Agostinho, os quais, interpretando impiamente aquelas palavras de Jesus Cristo: Adhuc autem et animam suam[32] – em que parece nos manda ter ódio à vida, se matavam com suas próprias mãos. Porém S. Paulo, que mais vivia em Cristo que em si mesmo, como verdadeiro e canônico intérprete do espírito interior de seus divinos oráculos não diz que o cristão se mate, senão que viva, mas que viva como morto. Em uma parte: Quasi morientes et ecce vivimus[33] – e em outra: Mortui estis, et vita vestra abscondita est cum Christo in Deo[34]. – Assim ajuntou e concordou o apóstolo dois extremos tão contrários, como a morte e a vida; assim quis introduzir no mundo uma morte viva e uma vida morta, persuadindo os vivos a que vivamos como mortos, e com grande razão e conveniência. Se o melhor bem da vida é a morte, passemos como mortos à melhor vida. E se dos mortos dizemos também que os levou Deus para si, deixemo-nos levar de Deus, e vivamos como mortos, para viver nele e com ele. Esta vida escondeu Cristo como morto e Deus como imortal, não em outro lugar menos secreto, nem em outro extremo menos contrário à mesma vida que a morte: Mortui estis, et vita vestra abscondita est cum Christo in Deo. - Na vida e morte comum, os mortos estão escondidos e os vivos andam manifestos; mas na vida e morte de que fala o apóstolo, a morte e os mortos andam manifestos: Mortui estis – e a vida e os vivos escondidos: Et vita vestra abscondita est cum Christo in Deo.

E se perguntarmos ao mesmo S. Paulo de que modo havemos de viver como mortos, bastavam por resposta as mesmas palavras com que diz que vivamos com Cristo e em Deus: Cum Christo in Deo. – Quem vive em Deus não vive em si, quem vive com Cristo não vive com o mundo, e quem não vive em si nem com o mundo, este verdadeiramente vive como morto. O morto tem olhos, e não vê; tem ouvidos, e não ouve; tem língua, e não fala; tem coração, e não deseja; e, posto que o morto vivo pode desejar, falar, ouvir e ver, nem vê o que não é lícito que se veja, nem ouve o que não é lícito que se ouça, nem fala o que não convém que se fale, nem deseja o que não convém que se deseje, porque é morto às paixões e aos apetites, e, posto que viva o sentimento, não vive à sensualidade. Isto é viver em Deus, e não em si. E que é viver com Cristo, e não com o mundo? É estar morto a tudo o que o mundo ama, a tudo o que o mundo estima, a tudo o que o mundo venera, a tudo o que o mundo adora, a tudo o que chama honra, a tudo o que chama interesse, a tudo o que chama boa ou má fortuna, porque tudo o que é próspero ou adverso, alto ou baixo, precioso ou vil, pesado na balança da morte viva, é vaidade, é fumo, é vento, é sombra, é nada. E a todos os que assim vivem, ou viverem, podemos dizer com S. Paulo: Mortui estis.

Mas porque o pó que somos é solto, inquieto, vão, e com qualquer sopro de ar se levanta e desvanece, e de si mesmo forma remoinhos e nuvens, com que na maior luz do sol fica às escuras, por isso o mesmo apóstolo nos remete, como por ilação necessária, do pó que somos ao pó que havemos de ser, dizendo: Mortificate ergo membra vestra, quae sunt super terram (Col. 3, 5): Pelo que, mortificai os membros do vosso corpo, que estão sobre a terra. – A energia da palavra super terram não está muito à flor da terra. Mas, ainda que parece supérflua, é certo que não carece de grande mistério. Pois, se bastava dizer: mortificai vosso corpo – por que acrescenta: que está sobre a terra? A mortificação só pertence aos que vivem, e todos os que vivem estão sobre a terra; pois, se isto por si mesmo estava dito, por que o nota e pondera o apóstolo como coisa particular? Porque falou do nosso corpo enquanto está sobre a terra, com alusão ao mesmo corpo quando estará debaixo da terra. O mesmo corpo nosso, que enquanto vivemos está sobre a terra, depois da morte está debaixo da terra. E se o corpo que está sobre a terra se comparar consigo mesmo, quando estiver debaixo da terra nenhuma consideração pode haver mais eficaz para o persuadir a que viva como morto. Dize-me, corpo meu, depois que estiveres debaixo da terra, que hás de fazer? Hás de continuar nos mesmos vícios em que todo te empregavas quando estavas sobre a terra? Hás de continuar nos mesmos vícios que, pode ser, foram os que te mataram e te apressaram a sepultura? Agora o não podes negar com a voz, e depois confessarás que não com o silêncio. Todo o mundo é como aquele de quem disse Tácito: Magis sine vitiis, quam cum virtutibus. – O morto não tem virtudes, mas também não tem vícios. Não tem ódios, não tem invejas, não tem cobiça, não tem ambição, não tem queixa, não murmura, não se vinga, não mente, não adula, não rouba, não adultera. Pois, se tudo hás de carecer debaixo da terra, por que te não absténs disso mesmo enquanto estás sobre ela?

O morto, quando o levam à sepultura pelas mesmas ruas por onde passeava arrogante, tão contente vai envolto em uma mortalha velha e rota como se fora vestido de púrpura ou brocado. Chegado à sepultura, tão satisfeito está com sete pés de terra como com os mausoléus de Cária ou as pirâmides do Egito; e se até essa pouca terra que o cobre lhe faltasse, diria se pudesse falar, que a quem não cobre a terra cobre o céu: Caelo tegitur Qui non habet urnam. – Pois, se então tão pouca diferença hás de fazer da riqueza ou pobreza das roupas, por que agora te desvanecem tantos e gastas o que não tens na vaidade das galas? Pois, se então hás de caber em urna cova tão estreita, por que agora te não metes entre quatro paredes, e procuras a largueza da morada tanto maior que a do morador, e invejas a ostentação e magnificência dos palácios? Ainda resta por te dizer o que mais me escandaliza. Se quando estás debaixo da terra todos passam por cima de ti, e tepisam, e te não alteras por te ver debaixo dos pés de todos, agora, que és o mesmo, e não outro, só porque estás com os pés sobre menos terra da que então hás de ocupar, por que te ensoberbeces, por que te iras, por que te inchas e enches de cólera, de raiva, de furor, e a qualquer sombra ou suspeita de menos veneração ou respeito o queres vingar, não menos que com o sangue e a morte? Mas é porque a mesma morte te não amansa e emenda. Ouve, enquanto não perdes o sentido de ouvir, um notável dito de Davi: Quoniam supervenit mansuetudo, et corripiemur[35]. – A palavra corripiemur quer dizer seremos emendados, porque a morte é uma correção geral que emenda em nós todos os vícios. E de que modo? Por meio da mansidão, porque a todos amansa: Quoniam supervenit mansuetudo. – Morreu o leão, morreu o tigre, morreu o basilisco: e onde está a braveza do leão, onde está a fereza do tigre, onde está o veneno do basilisco? Já o leão não é bravo, já o tigre não é fero, já o basilisco não é venenoso, já todos esses brutos e monstros indômitos estão mansos, porque os amansou a morte: Quoniam supervenit mansuetudo. – E se assim emenda, e tanta mudança faz a morte nas feras, por que a não fará nos homens?

Seja esta a última razão – a qual devem os racionais levar na memória – para que considerem, enquanto estão sobre a terra, o que hão de ser quando estiverem debaixo dela, e com este espelho posto diante dos olhos de seu próprio corpo, o persuadam a que se acomode a ser por mortificação, enquanto vivo, aquilo mesmo que há de ser, enquanto morto, depois de sepultado. Perguntou um monge ao abade Moisés, famoso padre do ermo, como poderia um homem adquirir a mortificação que ensina São Paulo, tal que, estando vivo, vivesse como morto? E respondeu o abade que de nenhum outro modo nem tempo, senão quando totalmente se persuadisse que havia já um triênio que estava debaixo da terra: Nisi quis arbitratus fuerit se habere Jaza triennium in sepulchro, ad hunc sermonem pervenire non potest[36]. – E quem está certo que o seu corpo há de estar debaixo da terra, não três anos, nem três séculos, senão enquanto durar o mundo até o fim. como não persuadirá ao mesmo corpo, e o sujeitará a que viva como morto estes quatro dias, e incertos, em que pode tardar a morte? Se este corpo, que hoje é pó sobre a terra, amanhã há de ser nó debaixo da terra, por que se não acomodará e concordará consigo mesmo, a viver e morrer de tal modo que na vida logre o maior bem da morte, e na morte não padeça o maior mal da vida? Assim faremos que o pó que somos e o pó que havemos de ser – o qual como pó é estéril – sobre a terra, como planta, e debaixo da terra, como raiz, seja fecundo, e na vida colhamos o fruto da graça, e na morte o da glória. Quam mihi et vobis praestare dignetur Dominas Deus omnipotens[37].

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