§§VII

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E os negócios e gostos da vida? Só para os que acabaram a vida antes da morte o mundo é paraíso na terra, como para Henoc e Elias. De quantas sem-razões se livra quem está já morto! Quais são os que seguramente gozam de paz e descanso?

Para a outra vida ninguém haverá (se crê que há outra vida) que não tenha por bom este conselho, e que só ele no negócio de maior importância é o verdadeiro, o sólido, o seguro. Mas, que direinos ao amor deste mundo, a que tão pegados estamos? É possível que de um golpe hei de cortar por todos os gostos e interesses da vida? Aqueles meus pensamentos, aqueles meus desenhos, aquelas minhas esperanças, com tudo isto hei de acabar desde logo, e para sempre, e por minha vontade, e que hei de tomar a morte por minhas mãos, antes que ela me mate, e quando ainda pudera lograr do mundo e da mesma vida muitos anos? Sobretudo, tenho muitos negócios em aberto, muitas dependências, muitos embaraços: comporei primeiro minhas coisas, e depois que tiver acabado com elas, então tomarei esse conselho, e tratarei de acabar a vida antes da morte. Eis aqui o engano e a tentação com que o demônio nos vence depois de convencidos, e com que o inferno está cheio de bons propósitos.

Primeiramente estes vossos negócios e embaraços não devem de ser tão grandes, e de tanto peso, como os de Carlos Quinto; mas dado que o fossem, e ainda maiores, se no meio de todos eles, e neste mesmo dia viesse a febre maligna, que havíeis de fazer? Não havíeis de cortar por tudo, e tratar de vossa alma? Pois o que havia de fazer a febre, não o fará a razão? Se hoje tendes muitos embaraços, amanhã haveis de ter muitos mais, e ninguém se desembaraçou nunca desta meada senão cortando-a. E quanto aos anos que ainda podeis ter e lograr de vida, pergunte-se cada um a si mesmo quantos anos tem? Eu quantos anos tenho vivido? Sessenta. E quantos morreram de quarenta? Quantos anos tenho vivido? Quarenta. E quantos morreram de vinte? Quantos anos tenho vivido? Vinte. E quantos morreram de dez e de dois, e de um, e de nenhum? De utero translatus ad tumulum.23 E se eu tenho vivido mais que tantos, que injúria faço à minha vida em a querer acabar? Que injúria faço aos meus anos em renunciar aos poucos e duvidosos, pelos seguros e eternos? Finalmente, se tanto amo, e tão pegado estou aos dias da vida presente, por isso mesmo os devo dar a Deus, para que ele me não tire os que ainda naturalmente posso viver, segundo aquela regra geral da providência sua, e aquele justo castigo dos que os gastam mal: Viri sanguinum, et dolosi, non dimidiabunt dies suos.24

Só resta o mais dificultoso laço de desatar, ou cortar, que são os que vós chamais gostos da vida, os quais, se ela se acaba, também acabam: Post mortem nulla voluptas.25 Ajude-me Deus a vos desenganar deste ponto, e seja ele, como é, o último. Se nesta vida (vede o que digo) se nesta vida, e neste miserável mundo, cheio, para todos os estados, de tantos pesares, pode haver gosto algum puro e sincero, só os que acabam a vida antes de morrer a gozam. Para todos os outros é a vida e o mundo, vale de lágrimas; só para os que acabaram a vida antes da morte, é paraíso na terra. Dois homens houve só neste mundo que verdadeira e realmente acabaram a vida antes da morte: Henoc e Elias. Ambos acabaram esta vida há muitos anos, e ambos hão de morrer ainda no fim do mundo. E onde estão estes dois homens que acabaram a vida antes de morrer? Ambos, e só eles, estão no paraíso terreal, e com grande mistério. Porque se há e pode haver paraíso na terra, se há e pode haver paraíso neste mundo e nesta vida, só os que acabam a vida antes de morrer o logram. Oh! que vida tão quieta! Oh! que vida tão descansada! Oh! que vida tão feliz e tão livre de todas as perturbações, de todos os desgostos, de todos os infortúnios do mundo! Depois que Henoc acabou a vida no mundo, sucedeu logo nele a maior calamidade que nunca se viu, nem verá: o dilúvio universal. O mundo grande estava já afogado debaixo daquele imenso mar sem porto nem ribeira; o mundo pequeno, metido em uma arca, já subindo às estrelas, já descendo aos abismos, sem piloto, sem leme, sem luz, flutuava atonitamente naquela tempestade. Os montes soçobrados, as cidades sumidas; o céu de todas as partes chovendo lanças e fulminando raios. E só Henoc no meio de tudo isto, como estava? Sem perigo, sem temor; sem cuidado. Porque ainda que lhe chegassem lá os ecos dos trovões e o ruído da tormenta, nada disto lhe tocava. Eu já acabei com o mundo, o mundo já acabou para mim; que importa que se acabe para os outros? Lá se avenham com os seus trabalhos, pois vivem, que eu já acabei a vida. Neste tempo não era ainda nascido Elias. Nasceu Elias, viveu anos, e antes de morrer acabou a vida do mesmo modo. Mas, que não padeceu o mundo e a terra onde Elias vivia, depois deste seu apartamento? Veio contra Samaria, Senaquerib e Salmanasar; veio contra Jerusalém, Nabucodonosor: tudo guerra, tudo fomes, tudo batalhas, ruínas, incêndios, cativeiros, desterros. As dez tribos de Israel levadas aos assírios, donde nunca tornaram; as duas tribos de Judá e Benjamim, transmigradas à Babilônia, donde voltaram despedaçadas depois de setenta anos. Porém Elias, que noutro tempo o comia tanto o zelo e amor da pátria, estava-se no seu paraíso em suma paz, em suma quietação, em sumo sossego, em suma felicidade. Volte-se o mundo debaixo para cima, reine Joaquim, ou reine Salmanasar, reine Nabuco, ou reine Ciro, vença Jerusalém, ou vença Babilônia, vão uns e tornem, e vão outros para não tornar: que se lhe dá disso Elias? Quem tem acabado a vida, de todos esses vaivéns da fortuna está seguro.

O mesmo acontece, senhores meus, e o mesmo experimenta todo aquele que deveras se resolve a deixar o mundo ao mundo, e acabar a vida antes da morte. Não são necessários para isso arrebatamentos, como os de Henoc, nem carros de fogo, como o de Elias, senão uma valente resolução. Quem assim se resolve, goza como Henoc e Elias todos os privilégios de morto. Corra o mundo por onde correr, nenhuma coisa lhe empece, nem lhe dá cuidado. Um dos professores deste estado foi, como vimos, S. Paulo, e por isso, ainda vivo, dizia: Vivo autem, jam non ego (Gál. 2,20). E que quer dizer: Eu vivo, mas já não sou eu? Quer dizer, diz S. Bernardo: Ad alia quidem omnia mortuus sum: non sentio, non atrendo, nou curo: Todas as coisas deste mundo são para mim como para os mortos; nem as sinto, nem me dão cuidado, nem faço mais caso delas, que se não foram; porque se elas ainda são, eu já não sou. Considerai as imunidades dos mortos, e vereis o descanso de que gozam e os trabalhos de que se livram os que antecipam a morte. Vieram ao Calvário os executores de Pilatos para quebrar as canelas aos crucificados, e assim o fizeram a Dimas e Gestas com grandes dores daquele tormento, porque estavam ainda vivos (Jo. 19,31 s.). Ad Jesum autem cum venissent (Ibid 32), mas quando chegaram a Cristo, Ut viderunt eum jam mortuum, non fregerunt ejus crura: Como viram que estava já morto, não executaram nele aquela crueldade. – De quantos quebrantamentos, de quantas moléstias, de quantas sem-razões se livra quem está já morto! O epitáfio que eu pusera a um morto destes, é aquele verso de Davi:

Inter mortuos liber (Sl. 87, 6):

Entre os mortos livre. Livre dos cuidados do mundo, porque já está fora do mundo. Livre de emulações e invejas, porque a ninguém faz oposição. Livre de esperanças e temores, porque nenhuma coisa deseja. Livre de contingências e mudanças, porque se isentou da jurisdição da fortuna. Livre dos homens, que é a mais dificultosa liberdade, porque se descativou de si mesmo. Livre finalmente de todos os pesares e moléstias e inquietações da vida, porque já é morto.

A todos os mortos se canta piamente por costume: Requiescant in pace. Mas esta paz e este descanso, só o logram seguramente os que morreram antes de morrer. Vede-o no mesmo texto de Davi, donde a Igreja tomou aquelas palavras: In pace in idipsum, dormiam et requiescam:26 Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo: In idipsum. Nesta cláusula in idipsum está o mistério, que sendo a sentença tão clara, a faz dificultosa, mas admirável. Que quer dizer: Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo? Se dissera: Morrerei para descansar em paz, bem se entendia; mas Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo? Se há de morrer e descansar em paz para isso mesmo, há de morrer e descansar em paz, para morrer e descansar em paz? Assim é, e esse foi o profundo pensamento de Davi. Como se dissera: Eu quero morrer e descansar em paz na vida. E por que, ou para quê? Para isso mesmo; para morrer e descansar em paz na morte: ln pace in idipsum, dormiam et requiescam. Por isso, com grande propriedade, significou o morrer pela frase de dormir: dormiam, porque o sono é morte em vida. Daqui se seguem duas conseqüências últimas, ambas notáveis e de grande consolação para os que morrem antes de morrer. A primeira, que só eles, como há pouco dissemos, gozam seguramente de paz e descanso. A segunda, que da paz e descanso desta morte, se segue também seguramente a paz e descanso da outra, que é o argumento de todo o nosso discurso. Os que morrem quando morrem, perdem o descanso da vida, e não conseguem ordinariamente o da eternidade, porque passam de uns trabalhos a outros maiores. Assim diziam no inferno aqueles miseráveis, que já tinham sido felizes: Lassati sumos in via iniquitatis:27 Chegamos cansados ao inferno. – Ao inferno, e cansados, porque lá não tivemos descanso, e cá tereinos tormentos eternos. Pelo contrário os que morrem antes de morrer, morrem descansados, e morrem para descansar: In pace in idipsum, dormiam et requiescam. Oh! que paz, oh! que descanso para a vida e para a morte! Creio que ninguém haverá, se tem juízo, que se não resolva desde logo a viver e morrer assim, ou a morrer assim para morrer assim. Acabando desta maneira a vida, esperareinos confiadamente a morte, e por benefício do pó que somos: Pulvis es, não temereinos o pó que havemos de ser: ln pulverem reverteris.

LAUS DEO

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