Segunda condição da morte: ser incerta. O pedido de Davi e a morte de Josias. Catão e o oráculo de Júpiter. Declarações de S. Paulo. O edito de Amã, condenando à morte os hebreus. S Pedro e a incerteza da morte. O despacho de Davi poderia ser atendido por ele próprio.
Vencida assim esta primeira dificuldade de ser a morte uma, segue-se a segunda, não menos perigosa, nem menos terrível, que é o ser incerta. Certa a morte, porque todos certa e infalivelmente havemos de morrer; mas nessa mesma certeza, incerta, porque ninguém sabe o quando. Repartimos a vida em idades, em anos, em meses, em dias, em horas, mas todas estas partes são tão duvidosas e tão incertas, que não há idade tão florente, nem saúde tão robusta, nem vida tão bem regrada, que tenha um só momento seguro. Perplexo no meio desta incerteza, e temeroso dela, Davi fez esta petição a Deus: Notum fac mihi, Domine, finem meum, et numerum dierum meorum, ut sciam quid desit mihi (Sl. 38, 5): Senhor, não vos peço larga vida, mas estes dias poucos, ou muitos, que hei de viver, peço-vos que me digais quantos são, para saber o que me resta. – Assim o pediu Davi, mas é a lei da incerteza da morte tão indispensável, que nem a Davi o concedeu Deus. Era Davi aquele homem que com verdade dizia de si: Incerta et oculta sapientiae tuae manifestasti mihi,11 e manifestando-lhe Deus todos seus segredos, e as outras coisas mais incertas e ocultas de sua providência, só o incerto e oculto de sua morte lhe não quis revelar. Tão reservado é só para Deus o certo desta incerteza.
Mas dado caso que Deus revelara a Davi a certeza da sua morte, ainda depois de revelada e certificada por Deus, digo que ficaria incerta. Temos o caso em outro rei não menos santo, nem menos favorecido de Deus que Davi. Havendo el-rei Josias feito grandes serviços a Deus, em observância e aumento de religião, prometeulhe o mesmo Deus em prêmio destas boas obras, que morreria em paz: Idcirco colligam te ad patres tuos, et colligeris ad sepulchrum tuum in pace.12 Muito contente Josias com esta revelação, e muito animado com este seguro divino, como mancebo que era de trinta e nove anos, desejoso de glória, arma exército contra os assírios, mete-se em campanha, e tanto que os dois exércitos estiveram à vista, põe-se na testa dos esquadrões com o bastão na mão e o cartaz de Deus no peito. Eu hei de morrer na paz, seguro estou na guerra. Cerram nisto os esquadrões, trava-se a batalha, voam as setas, senão quando uma delas atravessa pelo coração do rei Josias, e cai morto. Morto el-rei? Não pode ser. Não tinha Josias uma revelação e um assinado de Deus, que havia de morrer em paz? Colligeris ad sepulchrum tuum in pace? Pois, como morre na guerra e na batalha? Aqui vereis qual é a incerteza da morte. É certo que Josias morreu na guerra; é certo que Deus lhe tinha prometido que havia de morrer em paz; é certo que a palavra de Deus não pode faltar, e no meio de todas estas certezas foi incerto o dia, incerto o lugar; e incerto o gênero de morte de que havia de morrer e morreu Josias. Mas como pode estar esta incerteza, e tantas incertezas, com a certeza infalível da palavra divina? Disse-o Davi nas mesmas palavras, com que pouco há fez a sua petição: Locutus sum in lingua mea: notum fac mihi, Domine, finem meum.13 Quando eu pedi a Deus que me revelasse o fim de minha vida, falei na minha língua: Locutus sum in lingua mea. E assim como Davi falou a Deus na sua língua, assim Deus falou a Josias na sua. A língua de Deus, não a entendem bem os homens, porque pode ter muitos sentidos. E que importa que tenha eu palavra de Deus, e que a palavra de Deus seja certa, se o sentido da mesma palavra de Deus pode ser incerto, como aqui foi? Por isso fala Deus de propósito com palavras de sentido duvidoso e incerto, ainda quando revela os futuros da morte, para que a certeza dela fique reservada sempre à sua sabedoria somente, e para nós seja sempre duvidosa, e sempre incerta.
Tal é, senhores, a incerteza da morte; mas na nossa mão está fazê-la certa, se nos resolvemos a acabar a vida antes de morrer. Que bem vem caindo neste lugar aquele dito verdadeiramente romano do vosso Catão. Estava ele na África, sustentando só, como bom cidadão, as partes da república contra César; estava também ali o famosíssimo oráculo de Júpiter, Amon. Disseram-lhe que o consultasse. E que responderia Catão? Respondeu mais sabiamente do que pudera responder o mesmo Júpiter: Me non oracula certum, sed mors cert facit: Do meu fim não me certificamos oráculos: o meu oráculo certo é a morte certa. Falou barbaramente como gentio, mas generosamente como estóico. Era dogma da seita estóica, nos perigos de morrer indignamente, tirar-se a si mesmos a vida antes da morte. Assim o fez Catão tomando a morte certa por suas próprias mãos, por antecipar a morte duvidosa, vindo às mãos de César. Melhor o cristão que o estóico. O estóico mata-se para que o não matem: o cristão morre para morrer. Morrer mal, para não morrer pior, como faz o estóico, parece valor e prudência, mas é temeridade e fraqueza. Morrer bem, para morrer melhor, como faz o cristão, é valor, e verdadeira prudência. E se o estóico morre uma morte certa, o cristão morre duas, também certas, porque na certeza da primeira, segura a incerteza da segunda. Que se lhe dá logo ao cristão que a morte seja incerta, se ele, morrendo antes, a pode fazer certa.
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DiversosREPUBLICAÇÃO AUTOR: Antônio Vieira APENAS SERMÇOES SELECIONADO PELA COMVEST 2021 O padre Antônio Vieira é das personagens mais importantes da história do Brasil e de Portugal no século XVII. Qualquer que seja a posição que se tenha quanto à sua atua...