§§§II

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Que juízo fez Salomão, com toda sua sabedoria, e depois de todas as suas experiências, entre a morte e a vida? O que diz a eterna sabedoria de Cristo? Se Cristo se alegra com a morte de Lázaro, por que se entristece com a sua ressurreição? A quem esteve mal a ressurreição de Lázaro?

Que o maior bem do pó que somos seja o pó que havemos de ser, que o maior bem da vida, que tão enganosamente amamos, seja a morte, que enganadamente tememos, só quem mais que todos experimentou os bens da mesma vida o pode melhor que todos testemunhar. Quem mais que todos quis, soube e pode experimentar os bens desta vida, e com efeito fez de todos eles a mais universal e exata experiência foi Salomão. E que juízo fez Salomão, com toda a sua sabedoria e depois de todas as suas experiências, entre a morte e a vida? Ele mesmo o declarou, e com palavras tão expressas que não hão mister comento nem admitem dúvida: Laudavi mugis mortuos quarn viventes (EcI. 4, 2): Lançando os olhos por todoeste mundo, e considerando bem a vida dos que vivem sobre a terra e a morte dos que jazem debaixo dela, resolvi – diz Salomão – que muito melhor é a sorte dos mortos que a dos vivos: Laudavi mugis mortuos quam viventes. –Notai a energia daquela palavra laudavi. Como se dissera o mais sábio de todos os homens: Se com toda a minha eloqüência houvera de orar pelos mortos e pelos vivos, aos mortos havia de dar os parabéns, e fazer um largo panegírico de suas felicidades, e aos vivos havia de dar os pêsames, e fazer uma oração verdadeiramente fúnebre e triste, em que lamentasse suas misérias e desgraças. Isto disse Salomão, com cuja autoridade nenhuma outra humana pode competir; só foi maior que ela a que juntamente é humana e divina, a da eterna sabedoria de Cristo: Et ecce plus quam Salomon hic[2]! E por que também nos não falte esta, ouçamos ao mesmo Cristo, e vejamos o que disse e o que fez em semelhante caso.

Morreu Lázaro e ressuscitou Lázaro. Ponhamos pois a Lázaro ressuscitado entre os vivos, e a Lázaro defunto entre os mortos, e notemos no supremo Senhor da vida e da morte como lhe lamenta a morte e como lhe festeja a vida. Quando Cristo declarou aos discípulos que Lázaro era morto, disse: Lazarus mortuus est, et gaudeo (Jo. 11 , 14 s): É morto Lázaro, e folgo. – Partiu dali a ressuscitá-lo o mesmo Senhor, e chegando à sepultura, não só chorou: Lacrymatus est (ibid. 35) – mas mostrou que se lhe angustiava o coração: Rursum fremens in semetipso[3]. – Repara S. Pedro Crisólogo no encontro verdadeiramente admirável destes dois afetos, um de alegria e gosto na morte, outro de penas e lágrimas na ressurreição do mesmo Lázaro, e diz assim elegantemente: Certe ipse qui dixerat: Lazarus mortuus est, et gaudeo, de quo gaudet mortuo, ipsum, cum resuscitat, tunc lamentatur; qui cum amittit, non flet, cum recipit, tunc deplorat; tunc fundit mortales lacrymas, vitae spiritum cum refundit: Notável caso – diz Crisólogo – que o mesmo Cristo sobre o mesmo Lázaro, quando diz que é morto se alegre, e quando o quer ressuscitar o lamente! Notável caso, que quando perde o amigo não chore, e que chore quando o há de ter outra vez consigo! Notável caso que quando lhe há de infundir o espírito de vida se lhe aflija e angustie o coração, e que o haja de receber vivo com as mesmas lágrimas com que nós nos despedimos dos mortos! – Por isso lhe chama lágrimas mortais: Tunc fundit mortales lacrymas, vitae spiritum cum refundit. – Pois, se Cristo se alegra com a morte de Lázaro, por que se entristece com a sua ressurreição, e por que chora quando lhe há de dar a vida? Eu não nego que quando Cristo chora por uma causa se pode alegrar por outras. Isso significou o mesmo Senhor quando disse: Gaudeo propter vos[4]. – Mas, ainda que tivesse uma causa e muitas para se alegrar com a morte de Lázaro, que causa ou que razão pode ter para chorar a sua ressurreição e a sua vida? Lacrymatus est non quod mortuus erat, sed quod revocare illum oportebat ad tolerandas rursus hujus vitae miserias[5] – diz Ruperto, e o mesmo tinha dito antes dele Isidoro Pelusiota. Mas eu tenho melhor autor que ambos, que é o Concílio Toledano terceiro, o qual dá a mesma razão por estas palavras: Christus noii ploravit Lazarum mortuum, sed ad hujus vitae aerumas ploravit resuscitandum[6]: Chora Cristo a Lázaro quando o há de ressuscitar, não o chorando morto, porque, estando já livre dos trabalhos, das misérias e dos perigos da vida, por meio da morte, agora, por meio da ressurreição, o tornava outra vez a meter nos mesmos trabalhos, nas mesmas misérias e nos mesmos perigos. A todos esteve bem a ressurreição de Lázaro, e só ao mesmo Lázaro esteve mal. Esteve bem a Deus – se assim é lícito falar– porque foi para sua glória; esteve bem aos discípulos, porque os confirmou na fé; esteve bem aos de Jerusalém, porque muitos se converteram; esteve bem às irmãs, porque recobraram o amparo e arrimo de sua casa; esteve bem ao mesmo Cristo, porque então manifestou mais claramente os poderes da sua divindade, e só a Lázaro esteve mal, porque a ressurreição o tirou do descanso para o trabalho, do esquecimento para a memória, da quietação para os cuidados, da paz para a guerra, do porto para a tempestade, do sagrado da inveja para a campanha do ódio, da clausura do silêncio para a soltura das línguas, do estado da invisibilidade para o de ver e ser visto, de entre os ossos dos pais e avós para entre os dentes dos êmulos e inimigos, enfim, da liberdade em que o tinha posto a morte, para o cativeiro e cativeiros da vida.

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