Capítulo 3

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Enquanto aqueles acontecimentos se passam em Tenebra, bem longe dali, na divisa entre os dois reinos, existe um pântano com muitas espécies de animais rastejantes. Há também alguns voadores, com asas chicoteantes, que os impulsionam para o alto. Um arco de pedra enorme marca o local de separação dos reinos, mas ao transpassar o portal e adentrar no Império de Nede, pelo lado oposto, a divisa se transforma em um belo e reluzente Arco-íris. Nesse outro lado do portal a paisagem é belíssima, com um gramado verde e florido, cercado de riachos por onde correm águas cristalinas com várias espécies de peixes. Ao fundo da paisagem, quedas d'água caem feito músicas, melodiosamente completada com o canto dos pássaros e rodeado de lindas gigantes borboletas, que pululam na mata fechada e em meio a suas asas embelezam o ar com uma fita colorida, que conforme voam, fazem desenhos harmoniosos pelo ar. Existem também muitos animais silvestres pelo caminho até o vilarejo do Império de Nede. Alguns são místicos e difíceis de serem encontrados, como é o caso do gato alado, que raramente é visto. Esses animais aparecem somente ao final da tarde e apenas durante a lua nova, quando retornam ao topo das árvores sulinas e por fim se escondem. Esse animal muitas vezes serviu como uma bússola, quando alguém se perdia e tinha a sorte de encontrá-lo era só segui-los que eles levariam até próximo do castelo. Sobre o rio, na margem do Império de Nede também vivem libélulas helicópteros, que ao invés de baterem as asas, fazem um constante movimento circular que as fazem voar.

No vilarejo do Império de Nede as pessoas vivem unidas e são aparentemente felizes, andam sempre sorrindo. Famílias caminham juntas e crianças brincam por toda parte. As casas são coloridas, todas com formatos e tamanhos iguais, porém cada uma apresenta sua particularidade: seja pela diferença de cor, um desenho na fachada ou até mesmo pelas escolhas das flores nos jardins. As terras dali são muito férteis e a natureza oferece gratuitamente e sem esforço uma diversidade de alimentos e nutrientes para as pessoas, que só precisam colher os frutos. Na porta principal das casas está sempre o brasão a que pertence àquela família. Sendo as casas todas iguais, não existem quem possua mais que o outro, fato que corrobora com a justiça local e a paridade de bens entre os cidadãos.

É dia de festa no vilarejo e um coral se apresenta à porta da escola. Eles estão comemorando a festa da fertilidade, quando os casais são presenteados com dádiva da luz. Essa é a única forma conhecida de reprodução entre eles, onde o soberano detentor da Cadente da Luz permite que a semente entre homem e mulher se una, originando os filhos. O ritual é feito com cada casal que é sorteado para se reproduzirem e acontece somente nessa ocasião. O número de casais é definido de acordo com as baixas da população ocorridas no ano anterior e assim existe um equilíbrio entre o número de pessoas que nascem e morrem, mantendo estável e equilibrado a quantidade de súditos do reino.

Em especial naquele ano, foram presenteados mais casais do que a média dos anos anteriores, pois houve um acréscimo de migrantes para Tenebra que precisava ser reposto. Esses migrantes foram em busca de oportunidades para desenvolverem certas aptidões que lá eram proporcionadas, pois havia maior liberdade para escolhas. A palavra de ordem no Império de Nede era "igualdade", porém dependente muito de sorte que, infelizmente, não é destinada a todos.

Entre os súditos, Carmem Lúcia é uma pequena garotinha que tem quase quatro anos e está brincando de boneca com outras duas meninas. Loira de longos cabelos cacheados, olhos pretos feitos a noite e lindas bochechas rosadas, ela se distrai enquanto os adultos trabalham. De repente uma bola de futebol cai bem no meio delas. Carmem Lúcia pega a bola e quem chega para buscá-la é Derek, seu irmão mais velho de cinco anos, um garoto muito educado e bonito, com belos olhos negros:

- Desculpe irmã, não tinha intenção de acertá-la - disse ele.

Carmem Lucia se levanta e entrega a bola:

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