Capítulo 21

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No retorno para a cozinha e ao passar pela sala principal do Palácio, Rosália pode observar o Rei Saul em sua tristeza venerando a estátua da esposa, como faz quase que ininterruptamente. A centobra, habitante do subterrâneo, às vezes aparece perto dele. Aprenderam a tolerar um ao outro e ambos sentem muita falta da rainha. Ele chega a alimentar aquele animal horripilante sempre que tem algo disponível por perto. Aquele bicho tornou-se útil caçando os ratos que vivem por ali.

Rosália, chegando à cozinha, encontra seu esposo que retornava da viagem em que recolhia matéria prima para produzir. Jorge está muito fedido, tivera que carregar nas costas couros de animais abatidos. Estava fora havia quase uma semana. Ele percorre todo o reino atrás do material e às vezes adentra em outros países que são mais fartos. A carroça que usa para transportar o material pesado pertence ao senhorio que acaba ficando com grande parte de sua produção. Para a família, como recompensa pelo árduo trabalho, restava apenas o suficiente para conseguirem seus alimentos e pagar os impostos compulsórios. Contudo, tinham sorte, pois Talita e Rosália permaneciam a maior parte do tempo no Palácio e como serviçais do rei, podiam comer escondido igual os nobres e às vezes recolhiam algum material que era lançado fora. Talita, por exemplo, usava as sandálias que foram da princesinha, quando não lhe cabia mais nos pés.

Houve uma época em que Jorge teve alguns privilégios. A rainha Joana o encarregava de buscar os linhos de tons pastel. Por esse motivo tinha de adentrar no Império de Nede, pois lá existia um tecelão que os produzia em troca de hematita, rocha abundante nas montanhas do reino de Tenebra, que depois eram trocadas por alimentos até chegarem em Martin, o irmão de Madelin, que, finalmente, se transformavam em lanças e espadas. Em Tenebra, os tecidos variam das tonalidades cruas, cinza até os mais escuros pretos, por isso não agradava a rainha que tinha gosto refinado. Com isso, Jorge antes não precisava realizar o trabalho árduo que atualmente desempenha e que o deixa com um horrível cheiro. Ele ainda guarda um restante desses tecidos depositados num celeiro abandonado, mas nunca mais encontrou para quem oferecer. Em reverência a antiga rainha ninguém ousa contrariar o rei, fazendo túnicas com as cores que pertenciam exclusivamente a ela. Com certeza, ousar vestir trajes coloridos seria uma afronta, possivelmente, punida com a morte.

Rosália prepara sopa de caramujos para o marido comer e conversam sobre como tinha sido a viagem dele, no entanto, as novidades são poucas, com exceção de que os impostos em Tenebra estavam menores dos no Reino de Nede. Eles, que tinham alguns parentes morando no reino vizinho, conversavam sobre os benefícios de morar num lugar tão feio, contudo, para viver era mais barato e com menos desigualdades, pois os nobres do outro reino estavam se tornando muito superiores à população em geral, que tinham que pagar cada vez mais caro para poder viver ali. O lugar, diziam os moradores do Império de Nede, que já havia sido considerado um paraíso, agora vive dias em que está crescendo o descontentamento dos súditos com relação à exploração dos mais pobres. A esperança é a de que o príncipe Eduardo possa retroceder as coisas de como eram na época do reinado de seu pai, quando a justiça e a benignidade eram palavras de ordem. 

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