Capítulo 12

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Logo após dar à luz, Joana, ao ficar sozinha com a princesinha recém-nascida de seu próprio ventre, não resistiu ao desejo de devorar-lhe o coração, enganando-se a si mesma com o argumento de que estava defendendo a criança de tornar-se empalidecida como as outras pessoas de Tenebra. Premeditada, havia feito um órgão artificial, com um pouco da magia usurpada do Negro Asteroide e que após ter se inteirado dos conhecimentos de alguns sábios da época, fabricou uma bomba cardíaca que iria suprir o órgão usurpado da filha. Antes mesmo que seu esposo pudesse conhecer a menina recém-nascida e derrubar uma lágrima de emoção ao vê-la, a maldosa rainha já havia se apossado do pequenino coração e o substituído pelo órgão artificial que deixaria a menina fraca e enclausurada no palácio por toda a vida.

O equipamento fabricado, parte em metal e parte com tecidos de animais, ficaria para sempre ligado a condutores que limitariam completamente a vida da menina, pois a máquina necessitava ser alimentada por uma pequena chama sempre acessa para que continuasse a funcionar. Desta forma jamais proporcionaria uma vida normal como a de outras crianças. Esse foi o projeto que a rainha esteve desenvolvendo secretamente e embora parecesse precário, mostrou-se viável com a sobrevivência da pobre menina.

Mas Joana não se importava com isso, com o fato de que sua filha tivesse um destino tão terrível, enclausurada entre as paredes do Palácio, sem poder brincar ou correr normalmente como fazem as crianças saudáveis. A pequena dificilmente conheceria as florestas ou outros tantos lugares místicos e encantados que existiam pelo mundo.

A única coisa que a rainha não havia planejado é que Saul a pegaria em pleno flagrante, ainda com os lábios sujos de sangue e com parte do pequeno coração nas mãos. Ensandecido, sem poder se controlar, o rei se atirou sobre ela, agarrando-lhe o pescoço e a sufocando, sem que ela conseguisse respirar. No entanto, não se conteve em derrubar as mais doloridas lágrimas de sua vida, tão poderosas que antes mesmo que o coração de Joana parasse de bater, a mesma foi toda transformada toda em pedra. O incrível brilho de seus olhos violetas tornou-se rígido e cinza como rocha, assim como todo o seu completo ser. Ela fora uma vítima fatal de sua própria cobiça.

Tenebra, que já era escuro, tornou-se ainda mais assustadoramente sombrio. As últimas folhas das árvores que ainda existiam ali, caíram. A palidez dos rostos agora é recoberta com manchas arroxeadas sobre a pele moribunda. Os cílios das pessoas cresceram tanto que quase eles não conseguiam abrir os olhos. Os cabelos tornaram-se sujos e recobertos com cinzas que saiam dos vulcões mais ativos do que nunca. Os últimos pássaros foram embora, restando apenas alguns corvos que se alimentavam de restos de animais jogados ao relento. A centobra escondeu-se entre as ruínas, agora se alimentava somente dos ratos que tinha que caçar e passou a ser o bicho de estimação de Lorenzo, o guarda que havia entregado Carmen Lúcia para a rainha naquela fatídica noite.

Rosália havia mentido para todos, dizendo que seu bebe havia nascido morto. A cúmplice que ajudou a sumir com a menina recém-nascida guardou segredo e passou a consolar a amiga, que logo engravidou novamente e com isso nasceu a sapeca Talita. O amor que Rosália sentia pelas filhas é todo afetuoso para com a caçula que, em detrimento do convívio com a filha mais velha, passou a amá-la em dobre, pois sequer ela sabia se a sua primogênita ainda estava viva.

A menina espoleta tinha vindo em boa hora. Fez renascer a esperança na vida de todos a sua volta. Mesmo sendo mais nova, tornou-se a melhor amiga da princesinha. Divertida e encantadora por seus dentinhos delicadamente separados e seus olhos pretos feito jabuticabas, ela costuma correr alegremente por todo o palácio. Talita uma boa companhia para a princesa, mesmo sendo uma menina com apenas quatorze anos de idade, pois lhe falava das coisas que ela infelizmente não pode conhecer sobre o mundo que fica fora do Palácio. Manter-se ligada a uma máquina que imitava o coração a limitava de locomoção até pelos arredores de sua casa.

A princesinha cresceu sendo chamada de Princesinha. Ninguém teve a ousadia de lhe dar um nome, nem mesmo seu pai conseguiu encontrar uma palavra que pudesse representar aquele pequeno ser, dona de um destino tão cruel e terrível que fora proporcionado pela sua própria mãe. A estátua de Joana ainda permanece bem no centro do salão principal do Palácio. De alguma forma, Saul se sente muito ligado a ela. Joana parecia ter escolhido cuidadosamente a pose e o semblante no momento em que ia sendo transformada em pedra, permanecendo bela para a eternidade. Por ordem do rei, a estátua não pode ser tocada por outras pessoas, exceto por ele mesmo e por algumas aranhas que insistentemente tecem suas teias sobre ela.

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