Capítulo 4

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Bem longe dali, junto com os corvos que se preparam para dormir no telhado do palácio de Tenebra, chegam os guardas carregando a pequena Carmen Lúcia.

Dartho, que havia permanecido observando a rainha acordada envolvida em sua atividade secreta, agora segue ao encontro dos soldados para conferir o que estão trazendo.

Ele pega a criança assustada, toda suja de lama e lhe tira a mordaça. Carmen Lúcia assustadoramente grita. A menina grita muito pedindo por sua mãe.

Dartho se aproxima da garotinha e ordena sussurrando:

- Shiii... calma garotinha, não faça barulho. Qual o seu nome?

Ele sabia que se Joana a escutasse viria correndo e não pouparia a vida dela, pois para a rainha a menina representa uma deliciosa refeição. Ademais, eram corações como o de Carmen Lucia que fazia com que o encantamento sedutor dela sobre o rei ficasse ainda mais poderoso e Joana sabe muito bem que armas usar para se manter em hegemonia.

- Carmen Lúcia – responde a menina.

Ele sente grande empatia pela menininha e toca-lhe a mão, mas Carmen Lúcia sente queimar e retira com o reflexo de dor.

- Ai! Você não pode me tocar, não sabe que queima! – diz a menina.

Na verdade Dartho tinha se esquecido, pois já não superaquecia ao toque. As pessoas que tiveram o coração transformado em pedra podiam se tocar. Inclusive aprenderam a ser muito carinhosos uns com os outros.

- Desculpe, é que eu não queimo mais. Olhe! Preste bastante atenção! Se quiser ficar bem e voltar para sua família, você vai ter que ficar bem quietinha aqui, entendeu? Pela manhã eu dou um jeito de te mandar pra casa e para o seu pai e sua mãe que devem estar muito preocupados com você.

- Eu não tenho pai, ele morreu.

Perto deles, está um soldado de origem desconhecida e recém-incluído na guarda real. Lorenzo é um moço muito ambicioso, que não deseja permanecer por muito tempo sendo um subalterno. Por não ser muito forte, tem utilizado de artifícios maldosos para se promover. Ele escuta com atenção a conversa de Dartho com a pequena.

Dirigindo-se aos soldados, Dartho pergunta:

- Onde a conseguiram?

- Ela estava perdida, atravessando o portal – disse um deles.

- Vamos escondê-la depressa, antes que a rainha a veja.

Eles a colocam em uma baia e a acomodam sobre o feno. Dartho acende a lamparina e estende sobre ela um cobertor feito com pele de coelhos.

A noite passa e pela manhã, ao procurar pela menina, Dartho não a encontra e segue rapidamente por todo o Palácio, quando topa com a rainha de mãos dadas com Carmen Lúcia.

- Veja só que linda menina! – disse a rainha – estava indo a algum lugar Dartho?

Dartho fixa seu olhar com o da rainha, enfeitiçado pelo brilho violeta. Ela, então, completa:

- Faz muito tempo que não me traz um presente como esse, tão linda, tão jovem. Uma delícia com certeza – fala Joana enquanto acaricia o rosto da pobre e assustada garotinha.

- Majestade, eu lhe imploro que a deixe retornar de onde veio. Ela está perdida, tem família.

- Bobagem, quem liga pra crianças. Existem tantas por ai. Vocês é que insistem em desobedecer minhas ordens em não capturá-las.

- Eu nunca lhe pedi nada – diz Dartho.

- Que pessoa atrevida, quem pensa que é?

Joana fica enfurecida. Realmente ele nunca havia lhe desobedecido, sendo sempre um fiel companheiro. Mas ela era a rainha e não poderia jamais deixar de ter seus desejos atendidos. Ademais, fazia anos que não degustava um coração humano, pois o rei a havia impedido com a magia de transformar corações em pedra.

Carmem Lúcia, assustada, começa a chorar.

- Oh querida, não chore! – diz a rainha calmamente tentando consolar a menina – você vai ficar bem, vou cuidar de você direitinho.

Chegam alguns outros guardas que ouviram a menina.

Joana que tem domínio total da situação retira um pequeno frasco de entre seus seios e oferece a menina, a convencendo para que beba o líquido saboroso, que tem poderes mágicos para que ela se sinta melhor. Carmen Lúcia engasga um pouco, mas acaba engolindo o conteúdo do frasco e logo desmaia.

- Mate-a, quero um saboroso desjejum.

Dartho que estava paralisado tem uma breve reação, tentando proteger a criança e exclama:

- Não, desta vez não! - fala Dartho recobrando a lucidez e avançando em direção à Joana.

A centobra avança mais perto, agora apontando o poderoso ferrão.

- Como ousa me desobedecer. – disse Joana, em alto tom.

Ela o enfeitiça com o olhar fortemente, não existe forma de reagir. Dartho fica novamente paralisado e a centobra se diverte passando o ferrão bem próximo de sua jugular.Os outros guardas que estavam ali recuam intimidados, mas a rainha ordena:

– Vocês, façam o serviço agora e andem logo com isso, estou faminta.Ah, claro, não façam nenhum barulho, o rei não pode ficar sabendo.

- Sim majestade – responde os soldados que logo saem carregando a menina nos braços.

Ela vai saindo e chama o bicho asqueroso junto:

- Vamos centobra, tenho que terminar logo aquele projeto.

Joana pode então retornar aos seus aposentos e dormir feliz com a proposta de refeição que lhe aguarda logo em seguida, reforçando seus poderes de hipnotizar as pessoas para que essas fiquem sem reação e façam a vontade dela. Assim ela mantinha o rei sobre seu total controle, bem como a qualquer pessoa que tenha o coração de pedra.

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