Distante dali, Rosália e Joana dão a luz quase que simultaneamente. Duas lindas e saudáveis meninas nascem. A vida e morte às vezes parecem se complementar, numa porta que se abre como estrada em duplo sentido. Há os que vão para o lado do início e aqueles que se dirigem para um suposto fim.
A recém-nascida de Rosália tem um infinito dom: amar em dobro, muito mais do que qualquer outro ser humano. A menina nasceu com dois fortes corações, independentes e completos sistemas circulatórios, que compartilhavam apenas o ar dos pulmões, algo nunca visto antes. Os órgãos são tão perfeitos, separados por um denso pericárdio, que confere estabilidade de batimentos e ampla resistência física. Ela poderia tocar e ser tocada, sem queimar ninguém. Ao perceber isso, Rosália se desespera, sabe que a rainha não resistirá ao fato de saciar de uma só vez tão apetitosos órgãos, assim como fez há anos, quando soube do nascimento alguns gêmeos, não relutando em exterminá-los. Mandava matar os pequenos recém-nascidos só para satisfazer seu maior desejo alimentar e ainda disse com despudor que nunca havia sentido tamanho contentamento. Também, corações fortes e sadios lhe conferem maior poder de hipnotizar os outros, seu poderoso encantamento que vai se tornando cada vez mais forte com os corações ingeridos.
Para salvar sua pequena filha, ela pede que uma de suas colegas a leve para longe, colocando-a segura no rio. Naquele momento desesperador, sua esperança voltava-se para que quem a encontrasse pudesse cuidar dela com muito carinho:
- É a única forma de manter a menina viva. - diz confiante.
Assim, apressadamente, Rosália se despede da recém-nascida, sentindo forma prolongada o cheiro menininha, tocando carinhosamente as bochechas rosadas por uma única e última vez. Ela dá um profundo beijo nas mãozinhas com todo o amor que uma mãe possui e sussurra apenas o nome escolhido: Sofia. Nem pode amamentá-la, temendo que a rainha apareça a qualquer momento e tudo esteja perdido. A cozinheira leva a menina, mas deixa cair uma das meias que Rosália havia tricotado com tanta dedicação. É apenas um pequeno objeto acinzentado que será guardado com muito carinho.
A recém-nascida é colocada por Abigail dentro de um cesto e que depois de deixada sobre o leito do rio, segue embora na total incerteza de algum dia retornar ao colo da mãe, ou sequer sobrevivesse. Para Joana, o fato ficaria mencionado como se a menina simplesmente havia nascido morta.
Dartho, após o combate que culminou com a morte do rei e desesperado à beira do precipício, está prestes a se jogar de lá. Contudo, escuta o choro da menina no rio corrente e logo vê o cesto descendo rumo ao penhasco próximo de onde ele estava. A queda d'água gigantesca seria fatal e então ele tenta impedir a queda do cesto.
Instintivamente, ele corre em direção à criança. O barulho da cachoeira torne-se cada vez mais forte. Restam apenas alguns segundos até que o cesto fique totalmente inacessível, por isso ele se apreça e chega a se arranhar com os galhos das árvores. Por fim ele se joga no rio e após enorme esforço, finalmente, alcança o pequeno cesto, salvando aquele indefeso bebe, com rosto corado e lindos olhos azuis. Agora sorrindo, em segurança no colo de Dartho, a menina o salva também, olhares compartilhados fizeram com que ele sentisse um forte impulso, que de agora em diante ele tinha uma grande missão: a de cuidar daquela pequena e indefesa criança. O fundo do penhasco já não é mais o destino dele.
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Desígnios
FantasiaDois asteroides mágicos originam reinos distintos. Por um lado havia o Império de Nede, lugar em que as pessoas viviam numa espécie de socialismo. Já no Reino de Tenebra, havia a terrível Rainha Joana, a comedora de corações. Ali nasce Sofia, portad...
