Já que não tinha jeito eu tinha que conviver com a minha dor de não ter cabelo, comecei a desabafar com quem eu encontrasse pela frente e que eu achasse que era confiável.
Aliás, eu achava que todo mundo era confiável , este era o meu problema.
Eu vivia em um mundo onde a maldade não existia, era o meu mundo . Mas a realidade dos fatos chegou para mim mais cedo do que eu queria.
Logo não consegui o emprego que a amiga da minha mãe ia arrumar para mim e assim perdi outros , porque eu não tinha cabelos e me recusava a usar aquelas perucas horrorosas que queriam empurrar para minha mãe comprar, a maioria sintéticas.
Aquilo me fazia sofrer muito , eu não sabia lhe dar com o meu problema , ninguém lá em casa sabia.
Meu pai voltou a ser o mesmo de sempre , perseguindo a todos e a mim principalmente. Ele me atacava de graça , era uma situação crônica.
Ficava feliz com a minha infelicidade e eu sonhava em ir embora , sonhava com um amor que era impossível .
Qual homem ia querer ficar com uma moça que não tinha cabelos?
Pensava muito na minha beleza interior, mas até que descobrissem que existe beleza por dentro e que a falta de pelos no corpo era só um detalhe , o pretendente a alma gêmea já estava assustado suficiente para fugir.
Nós vivíamos em um mundo de preconceitos de todas as formas .
Pessoas negras sofriam descriminação a cada minuto .velhos , Idosos, gordos deficientes e eu agora estava inserida neste rol também. A das mulheres carecas!
E era por aí , perdi vários empregos ou mesmo a promessa de todos que avistava , mas ao final das contas, consegui uma colocação como professora em uma escola para trabalhar com crianças alfabetizando-as .
A carteira de trabalho fora assinada como professora auxiliar e eu iria contar todo mês com um salário mínimo o que me deixou feliz , porque era assim que ajudávamos em casa, cada Qual dava um poucoembora meu pai quisesse a metade.
Quanto a minha aparência , procurava usar os lenços que combinasse com as masinhas roupa e para ter sobrancelhas eu pintava com lápis de olho preto ou marrom, o que fez de mim a minha marca registrada porque eu fazia o traço da sobrancelha e não é que não ficava bom?
Eu usava lápis dentro e fora da água do olho e em cima para disfarçar a falta de cílios , me maquiava direitinho e ia para a faculdade pela manhã e ao trabalho à tarde.
Eu não tinha muita opção , e vivia com medo de alguém por maldade puxar meu lenço e eu ficar careca na frente de todos.
Era um terror para mim, mas eu tinha que viver , pior seria se fosse uma doença fatal como eu achava que era.
Eu tinha chances de continuar a viver e procuraria levar uma vida normal .
Mas este medo me acompanhava sempre , principalmente depois que conheci uma outra menina com o mesmo problema que eu e que não usava lenço e sim um boné que ela fixou cabelos nas pontas ao redor de todo o boné , e certa vez indo para casa foi escorraçada por vários meninos de rua e correu deles sem sucesso porque quando ia entrar no ônibus , eles puxaram o boné então ela se viu careca e os meninos rindo , perguntei nervosa:
- O que você fez?
Ela me respondeu :
- Deixei o ônibus ir e peguei meu boné morta de vergonha e sai correndo , acho que eu assustei eles porque mesmo rindo não foram atrás de mim.
Imagina que só de ouvir o relato dela eu gelei , se fosse comigo eu não sei o que faria , mas ela não queria usar lenço como eu e preferia o boné.
Então eu depois desta estória ficava mais apreensiva ainda , o medo me rondava, antes do meu pai e agora da minha doença.
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Para Deus (Concluído)
RomanceComo fazer para entender os desígnios de Deus? Gabriela trás em sua vida conflitos de vidas passadas que deverão ser resolvidos, para que possa alcançar a felicidade conjugal. E quando encontra Zyan sua vida se transformará, fazendo-a enfrentar se...
