Sonhos, uma palavra que resume o mais belo da vida e que infelizmente raramente sai das noites em que você imagina o ramo que sua vida poderia ter tomado. Mas não é assim para essas três melhores amigas, recém formadas e sonhadoras elas querem domin...
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Tudo no sarau estava na mais bela harmonia. Me distraí lendo algumas poesias e me apaixonando por cada uma delas. Há tantas pessoas talentosas no mundo... o jeito que as palavras parecem estar na dosagem certa me interessa muito. Nada ali está sobrando ou faltando, tudo se completa. O chocolate quente acaba, então procuro a lixeira mais próxima e acabo vendo um papel pendurado que me intriga muito. Parece um pergaminho antigo escrito à tinta.
" _tudo em mim me parece distante demais, quente demais para se tocar._ _por muito tempo, tudo o que eu sempre quis era ser visto. Agora, nada disso me atrai._ _desde que te vi, o mundo pareceu apontar na sua direção nos mínimos detalhes_ _e agora só me importa estar com você_ "
Sorri. O garoto assinou e dedicou o poema para uma garota. Coisas como essa, me mostram que ainda há esperança no amor. A vida ainda é bonita e muito se vale a pena.
☆☆☆
- não acredito que consegui comprar esse livro. - Cecília diz, olhando para seu mais novo livro. - eu estou apaixonada por tudo nele, mal posso esperar para começar a ler.
Ri entendendo a euforia. Estou procurando por algum livro especial, aproveitando a oportunidade de promover jovens escritores. Mas quero algo novo. Algo diferente. Sigo para o lado que ainda não fui, deixando Clara, Cecília e Ana na barraca de cordéis.
Passo os olhos por cada trecho de poema, cada livro até que um em especial me chama a atenção. Parece um diário, capa imitação de couro, com detalhes floridos e aparência antiga. "Nada mais do que pensamentos soltos". O título em especial me atraiu. Começo a folhear, sentindo que era aquele que deveria levar. Ao me virar, vejo Luan. Ele está segurando um livro, concentrado, lendo alguma página. Seus olhos-oceano estão atentos, ele parece absorver cada palavra escrita ali. Pago o livro e me dirijo até ele, devagar. O livro que ele segura é sobre O pequeno príncipe.
- por favor, desenha-me um carneiro.
Ele não me olha, mas tira um algo do bolso e se vira para apoiar no livro. Não sei o que pensar, mas não era essa a reação que esperava. Penso em sair devagar, quando ele se vira, me estendendo um papel.
- o carneiro que você quer está aí dentro.
Ele desenhou a caixa com três furos. Sorri, completamente absorta pela sensação quente que se espalhou pelo meu peito. Algo parecido com... alívio. Ele não havia me ignorado.
- então também é fã de Antoine de Saint-Exupéry? - pergunto, guardando o desenho na primeira página do meu livro.
- todos deveriam ser. Ele escreveu uma verdadeira obra, infelizmente, mal apreciada por muitos.
- concordo. Chorei da primeira vez em que li.
Luan dá um sorriso torto, mas sem o sarcasmo habitual.
- deveria ter imaginado que sim.
- o que isso quer dizer?
- só de conhecer você.
- me explique mais. - peço. De repente, eu realmente quero saber o que ele pensa sobre mim.
- você é você. Tem esse jeito quietinha, meiga, toda praiana de bem com a vida. É meio previsível que seja sensível.
- isso seria ruim?
- não necessariamente. Mas conhecendo mais você, sei que pode ser um tanto solitário. Você é intensa.
Franzo a testa. Não tivemos nenhuma conversa sobre isso para ele afirmar com tanta convicção. Ele logo retoma a fala.
- suas músicas. No luau da Clara, você cantou com todo seu coração. Algo em você naquela noite tinha mais brilho do que habitualmente. E depois... suas letras.
Sorri. Ele realmente prestou atenção na minha música. Algo que realmente importa pra mim, e ele não apenas notou, mas me _viu_. Ele viu quem eu sou de verdade através da música.
- aliás... - ele mexe no bolso- isso é pra você.
Ele estende a mão, revelando um pequeno pen drive preto.
- gravei alguns acordes que acho que você iria gostar. Nada pronto, mas talvez te inspire a escrever algo.
Sorri, olhando aquele pequeno objeto de plástico e metal que significa dezenas de possibilidades de fazer o que eu amo: música.
- obrigada. Mesmo, obrigada.
E então ele sorriu. De verdade, um sorriso inteiro, revelando os dentes perfeitamente alinhados. Quase parece outra pessoa.
Avisto Cecília e Clara indo para mais longe, e me apresso.
- preciso ir. Muito obrigada, vou ouvir o quanto antes.
- disponha.
Começo a caminhar, mas me viro. Preciso dizer algo.
- aliás - começo e ele se vira, levantando os olhos do livro - você devia sorrir mais.