47

9 3 0
                                        

O céu está tempestuoso

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

O céu está tempestuoso. Os clarões emitidos pelos relâmpagos entram pela janela, iluminando tudo. Me pego perdida em devaneios, observando a fúria da natureza, como se ela sentisse dor pelo que nós fizemos com ela, mas nos amasse demais para acabar conosco. Meu interior parece o mesmo céu furioso. Não vejo mais nenhum caminho com clareza, apenas ouço rugidos e tento ver para onde seguir. Pensei que soubesse o que estava fazendo. Pensei que me sentiria realizada, completa e feliz. Em partes, me senti assim. Quando toda a mudança aconteceu, eu só pude torcer para que eu estivesse certa. Jessie tem me ajudado de inúmeras formas, desde a adaptação com a cidade até passar 100% do meu tempo falando em inglês. Mas ultimamente, venho sentido que o vazio inicial não vai passar. Posso me acostumar, mas terei que aprender a conviver com esse pedaço de mim faltando. Esse pedaço que está na Itália. Tudo o que consegui pensar nos últimos dias era em como gostaria de poder fazer certas coisas que fazia antes. Quero surfar, quero andar de skate pelas ruas, quero ir ao Caffe Fratelli e rir com as meninas, quero ir a festivais para ouvir a Summer Station novamente, quero sentir o ar italiano de volta. Sinto falta do meu fã de John Green favorito. 

Sinto que meus sonhos não são os mesmos se não posso compartilhar com quem amo. A distância tem se tornado insuportável nesses meses em que estive em Nova York. Por isso precisei conversar com Thomas mais cedo, e agora estou um pouco mais perto de casa. 

Estou sobrevoando Paris, pronta para minha conexão. A casa está silenciosa. Meus olhos se enchem de lágrimas ao ver as luzes amarelas acesas pela janela. A bicicleta de Clara está encostada no muro branco, perto das flores que plantei há um bom tempo. Subo as pequenas escadas que levam à porta de madeira azul. A porta que separa uma parte de mim. Estendo a mão e bato. Demora alguns segundos até que a porta se abre, e Cecília está parada, me encarando em choque.

- Amanda?! - Ela franze a testa, ainda estacada no lugar. Sorrio como nunca e a abraço forte, sentindo meu coração explodindo do peito. A seguro pelos ombros, para olhá-la melhor e tento conter as lágrimas.

- O que aconteceu? - Ela pergunta preocupada, enxugando os olhos.

- Conto tudo depois. Onde está a Clara?

- Está com o Pietro, eles estão organizando tudo para a lançamento do livro. - ela me ajuda com as malas, que foram esquecidas aos pés dos degraus. 

- Está cansada? Podemos ir até lá. Eu estava exausta depois de mais 12 horas viajando, louca para tomar um banho e comer alguma coisa, mas eu precisava mais ainda encontrar Clara.

Nunca pensei que uma espera na porta de alguém fosse tão tortuosa, ainda mais sabendo que além de Clara, a banda estava ali para um ensaio. Não sabia se meu coração poderia ficar dentro do peito. -

 Oi, Cecí... - Pietro travou assim que me viu, me abraçando em seguida, sorridente. - Caramba!!! - Oi! - sorri de volta. - O que faz aqui? Não que não seja bom te ver, mas... e Nova York?

- Prometo que conto tudo, mas... a Clara está aqui?

- Claro, está. - Ele nos deu passagem - Entre!Seguimos Pietro até a sala, onde Clara estava debruçada na mesa de centro com o notebook na frente e um copo de café gelado ao lado. Harry e Brandon estavam na cozinha, bem ao lado da sala e pareciam estar em alguma missão impossível de virar uma panqueca sem fazer sujeira. Me aproximei por trás do sofá, e espiei a tela.

 - Gostei dessa parte. - Disse, fazendo Clara dar um pulo. Assim que me viu, ela gritou e deu um jeito de pular o sofá para me abraçar. Eu senti muita, muita falta de casa.

 - Sua maluca! O que você pensa que está fazendo aqui? Não tinha um álbum pra lançar? - Clara me repreendeu, mas seu olhar se suavizou. - Pelo amor de Deus, nunca mais fique tanto tempo longe. Os meninos ouviram a confusão e vieram me abraçar também. Eu estava muito feliz em vê-los, precisava enxugar os olhos de tempos em tempos. Meus olhos vasculharam a sala procurando aqueles olhos azuis tão familiares. 

- Ele está lá fora. - Brandon me disse, apontando para a porta dos fundos. Pietro assentiu, e segui para lá, devagar.

 Luan estava sentado num balanço branco na varanda, encarando as ondas que se quebravam ao longe, perdido em pensamentos.  Seus olhos encontraram os meus, e tudo fez sentido. Ele se levantou e corri até ele, segurando o vestido branco e sem me importar em deixar meus sapatos para trás no percurso. Seus braços me envolveram e seu cheiro me inundou, tornando tudo o que eu precisava real. Meu lar era bem ali. Seus lábios famintos me disseram, sem necessidade de palavras, que ele sentia o mesmo.

 - Finalmente te deixei sem fala. - Sorri contra seus lábios.- A verdade é que pensei que meu sonho era estar fazendo o que amo, independente do lugar. - Comecei, me acomodando no sofá com eles. - Mas estar em Nova York por tanto tempo sem me sentir em casa, me mostrou que nem sempre é assim. Eu amei estar lá, conhecer tantos músicos talentosos, fazer o que eu sempre quis e ter a chance de trabalhar em um álbum. Mas não era a mesma coisa do que estar aqui.Luan apertou minha mão de leve quando meus olhos marejaram.

 - Eu queria poder ter mais do que uma chamada de vídeo com vocês. Queria as panquecas de Cecília, o sorriso de Clara, ouvir vocês tocando de novo, queria o sorriso irônico do Luan. - Ri. - Eu precisava de vocês, de Gênova. E voltar só demonstrou que a Itália não fechou as portas para mim.

 - Isso quer dizer...? - Brandon começou.

- Quer dizer que falei com Thomas. Ele entendeu o que disse, e me encaminhou para uma das gravadoras que se interessaram por mim. Acontece que essa gravadora é de Milão. Por ter feito parte da Metropolitan, eles me aceitaram na mesma hora. Então terei que fazer algumas viagens por algumas vezes no ano mas... posso ficar bem aqui. Posso morar em Gênova, e meu álbum vai ser lançado por eles. 

Aquela noite foi a mais especial que tive em muito tempo. Comemos pizza e atualizamos as novidades, sorrimos e simplesmente esquecemos de tudo lá fora. Vivemos. E vivemos muito.

Escrito por @BeiErduo 

sonhos, livros e café [FINALIZADA]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora