Sonhos, uma palavra que resume o mais belo da vida e que infelizmente raramente sai das noites em que você imagina o ramo que sua vida poderia ter tomado. Mas não é assim para essas três melhores amigas, recém formadas e sonhadoras elas querem domin...
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Já se passa das onze da noite, mas estou tão inquieta que o sono não vem. Me levanto, apanho meu livro e vou para a areia da praia, ouvir o som das ondas abafar meus pensamentos. Sinto o mar beijar meus pés, como se me perguntasse o que me deixa tão pensativa em tal hora da noite.
Institivamente, me lembro do Natal. Luan e eu fomos até Florença, na casa de minha avó. Ela ficou feliz em me ver, apesar de ter feito perguntas pouco discretas sobre mim e Luan. Mas, depois que expliquei que somos apenas amigos e que ele não comemoraria o Natal, ela entendeu. Assim, depois da ceia, ela foi dormir, nos deixando com as louças sujas e a mesa para desfazer. Não foi uma tarefa difícil, no entanto.
Assim que terminamos tudo, subimos para a sacada. A cidade estava iluminada, mas nada se comparava às estrelas que pontilhavam o céu naquela noite tão perfeita. Luan se apoiou no parapeito, perdido nas constelações assim como eu.
- já pensou que aquela estrela ali pode já estar morta, e só estamos vendo o brilho que restou? - pergunto.
- já parou para pensar que o estado natural do universo é a noite? Na verdade, a luz do sol é tão forte que nos traz o dia, mas o universo em si... é apenas noite.
Sorri. Após um tempo de silêncio, Luan sorri também, um pouco pensativo.
- às vezes me pergunto se foi tudo um mero acidente cósmico.
- o big bang? - indago.
- como uma explosão resultaria em algo tão perfeito? Olhe as montanhas, as rochas, tudo tão perfeito que se tornou habitável. E então, pode-se gerar vida e mais vida. Se essa teoria for verdadeira, então as chances de existir vida fora da Terra é quase nula. Quais as chances de um acidente como esse acontecer de novo?
- mas talvez a teoria criacionista esteja certa. Alguém ou algo criou tudo isso. E então a possibilidade de existir vida fora da Terra é muito, muito grande.
Ele sorri, me olhando. Alguma coisa em mim pareceu congelar, mas de alguma forma quente. O modo como as coisas com ele se tornaram fáceis me assusta. Até poucos meses atrás, ele era apenas o garoto insuportável que ignora as regras. Mas agora, ele é o garoto que está compartilhando teorias sobre o universo em uma noite estrelada de Natal comigo.
No dia seguinte, tomamos gelatto nas ruas cheias de turistas. Visitamos alguns lugares que eu costumava ir na infância, tiramos fotos e até compramos coisas. Pensei que talvez Luan não fosse querer participar dos planos, por ser "algo familiar" como ele mesmo disse, mas minha avó acabou conversando com ele e então ele simplesmente topou tudo. Eu não faço ideia do que exatamente eles conversaram, mas seja lá o que for, o fez sorrir.
Assim que voltamos para Gênova, contei tudo para as meninas enquanto desfazia as malas.
- que fotos são essas? - Cecília pergunta, vendo algumas estendidas na cama.
- ah, tiramos algumas e pensei em colocar no mural.
Me sento junto delas para vermos as fotos. A primeira, sou eu e Luan com nossos gelattos na Piazza della Signoria. Depois, Luan de braços cruzados segurando um riso enquanto eu pulava com os braços abertos na Ponte Vecchio. Na próxima, minha vó está no meio de nós dois, e estamos segurando um saco de pipocas. A última, um pouco tremida, minha vó tirou quando Luan e eu andávamos de bicicletas duplas pela rua de casa, rindo.
- caramba, fazia tempo que não te via sorrir assim. - Clara falou enquanto passava as fotos pelos dedos novamente.
- o que? Bom, foi divertido. Mas eu sorrio o tempo todo!
- sim, e é por isso que sempre sabemos quando é um sorriso por hábito ou - Cecília me mostra as fotos - um verdadeiro.
- bem, meninas, temos que acordar cedo. Melhor dormirmos. - Clara anuncia, percebendo meu desconforto.
Assim que elas saem do quarto, penduro as fotos no mural, me perguntando um milhão de coisas.
☆☆☆
- pensei que não perdesse um único dia de surf.
Me viro e me deparo com Will, o braço apoiado no aquário. Sorrio, passando por ele para pegar o balde de peixes no armário.
- geralmente não perco. Mas dormi tarde, e preferi dormir um pouco mais de manhã, ou ficaria muito cansada.
Will vem até mim e carrega os baldes em meu lugar, me seguindo até os tanques, onde jogo os pedaços de peixe para as arraias.
- hoje à tarde vou estar lá na praia. Te vejo por lá?
- não sei, hoje meu horário é longo, saio mais tarde.
Will concorda com a cabeça. Quando chegamos ao fim do corredor das arraias, agradeço pela ajuda e guardo os baldes novamente, lavando as mãos com cheiro de peixe cru. Me despeço de Will e sigo para a parte das tartarugas. Como de costume, Lily é a primeira a vir até a beira, estendo minha mão e acaricio sua cabeça, estendendo uma folha de alface fresca.
O movimento hoje está mais fraco, os turistas estão voltando para casa depois das festas, então tenho mais tempo para ficar aqui. Meus olhos se deparam com a placa "proibido fumar" logo à frente, e meus lábios se curvam em um sorriso teimoso.
- escuta só, loirinha.
Will me estende um papel.
- o que...?
- de nada. Agora que tem a tarde de folga, não tem desculpa para não ir surfar.
- mas...? O que você fez? - sorri.
- pedi pro Thomas te dar uma folga. Ele é amigo do meu pai, cresci com ele. Então, te vejo lá?
Ainda estou um pouco surpresa. Will pediu ima folga para mim. Ele quer me ver de novo, na praia. Antes, sua simples presença me deixava nervosa e sem fala. Vê-lo demonstrando interesse em mim era tudo o que eu queria.
Mas por que não me sinto como pensei que sentiria?