"Se arrume, você vai pra casa hoje". Foi a notícia mais legal que recebi em 1 mês e 3 semanas naquele hospital. Dizem que 16 é a idade da beleza, mas com toda certeza, quando cheguei aos 17, a vida olhou pra mim e disse "Tá pensando que vai ficar bonito né querido? Não vai não". Então eu senti meu estômago sendo beijado por um capô de uma BMW, entortando minha bicicleta e me lançando na diagonal sobre um poste cheio de sacos de lixo e pasmem: garrafas de vidro. Segundo o médico, eu não me fodi tanto, porque o cara freou a tempo e a bicicleta absorveu a maior parte do impacto. Mas como eu não poderia sair ileso, uns cacos de vidro entraram no meu abdome e eu tive que passar por uma cirurgia para tira-los de lá.
Eu já não tinha uma cor legal. Não importava quanto sol eu tomasse, nunca ficava bronzeado. Eu era tão branco, que aquela situação me fazia parecer pior do que eu realmente estava. Vida longa ao capô.
***
Faltava um dia pra recomeçar as minhas aulas. A má notícia, é que não aproveitei nada, absolutamente nada, das minhas férias. A boa notícia, é que meu pai conseguiu que eu não precisasse escrever uma redação falando sobre como foi minhas férias, porque segundo ele, a médica disse "não é bom estimular uma situação traumática". Quando na verdade, era só ele mais traumatizado do que eu.
No dia seguinte, me acordei cedo e me preparei para o meu último ano lidando com jovens tão insuportáveis quanto eu. A buzina tocou lá em baixo, na rua, então soube que era meu pai. Meu pai é meio que a ordem dessa cidade, um xerife ou sei lá. Apesar de Vagevuur ser uma cidade pequena e o máximo de crime que pode acontecer aqui, seria um roubo de ovo de galinha. Os moradores votaram numa assembléia para que a cidade tivesse policiais. Então, quando eu era criança e meus pais se divorciaram, meu pai conseguiu minha guarda, ele foi promovido e viemos morar aqui. Uma cidade montada por estrangeiros.
Quando entrei no carro, joguei a mochila para o banco de trás do carro e senti um cheiro forte no cinto de segurança. Um cheiro de perfume feminino.
- A noite foi boa hein, Xerife. - Brinquei com meu pai. Ele massageava sua tempora irritado.
- Aquela garota me deu trabalho a noite inteira. Dá pra acreditar? Atentado ao pudor! No meio de uma praça! Só saiu ilesa, porque estava altamente alcoolizada. Ela parece ter sua idade.
Segurei o riso. Era bom começar o dia com bom humor.
- Onde deixou a garota? - Perguntei.
- Na casa dela, mas os pais não estavam para a receber. Talvez seja por isso que ela seja tão problemática, não ter pais presentes acaba não colocando rédea numa situação e tudo perde o controle. - Disse o meu pai, que eu só via por 30 minutos do meu dia.
O cheiro no cinto, enchia minhas narinas com uma sensação prazerosa. Não era um cheiro doce e exato. Parecia assumir diversos cheiros ao mesmo tempo, cada um deles, mais viciantes. Era como estar hipnotizado. Ou numa sala com seus cheiros favoritos. Meu pai ainda resmungava do meu lado.
Quando paramos no sinal, um homem bateu no vidro do carro e me pediu uma ajuda, eu tirei moedas do porta luvas e o dei. De repente, ele segurou o meu braço e o lambeu, rindo ele disse "você tem gosto gostoso", eu puxei o braço com força pra dentro e meu pai subiu os vidros e acelerou para aproveitar o sinal aberto. Ele ria bastante, "existe doido pra tudo", ele dizia enquanto dirigia. Eu tentei rir também, mas algo na expressão daquele homem me incomodou... incomodou muito.
***
Ao descer da viatura do meu pai e adentrar a Escola DiDante, tinha cochichos em todos os corredores sobre uma nova aluna. Ninguém sabia quem era. Não sabia nome, de onde veio e pra que sala iria. Não é como se fosse um grande evento e nem nada do tipo, mas é aquela história do "carne nova no pedaço". Talvez fossem os hormônios ou talvez não, deveriam estar criando alguma teoria de que espécie de aluna ela seria. Isso determinaria se ela seria apoiada ou... torturada para sempre (ou até o fim do ano letivo).
E minha sala, era a mesma. A mesmas paredes brancas, cobertas de cerâmica do meio para baixo, as carteiras cinzas com azul e a enorme lousa que ia quase de ponta a ponta. O chão de piso cinzento, o teto de concreto e as janelas do lado direito com grades. O céu estava nublado lá fora, eu me sentei no lugar costumeiro, do lado direito, perto das janelas, entre o meio e o fim da sala. O pessoal entrava falando alto, algumas garotas rindo estridente. A menina rica da minha sala, Alice, olhou para mim por um instante. Eu ergui as sobrancelhas e fiz a expressão de um sorriso. Ela me olhou com asco, jogou os cabelos loiros e ondulados em cascata e se sentou para conversar com suas amigas. Eu me recolhi, tirei meu caderno e caneta da mochila e pus sobre a mesa. Sacudia a caneta esferográfica com ansiedade, até que a professora chegou.
Seu nome era Izabel. Uma professora com ego de gente rica, mas que na verdade tentava se manter com o salário de professora. Ela lecionava português, que é uma matéria que eu particularmente gosto. Mas ela conseguia tornar cansativa, pelo seu ar de superioridade e arrogância. Se ela estivesse de bom humor hoje, só ia tirar o ponto inexistente de alguém. Se estiver de mal humor, ela fará de tudo para você levar uma suspensão.
A aula havia começado por volta das 7 da manhã e até aí tudo bem, até que chegou as 08h15. A porta da nossa sala estava com um problema na dobradiça, então a professora encostou a porta com uma mesa vazia, que chamou atenção da sala inteira quando foi arrastada e caiu no chão com impacto.
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VAGEVUUR
Fantasi"Ela me transmitia uma sensação estranha, de sabedoria e amargura. Era fatal, quase não precisava falar, seu olhar transparecia. Tinha olhos hipnóticos, ligeiramente diabólicos. E eu via que ela não esperava nada de nada e nem de ninguém. Era absolu...
