CAPÍTULO 17 - Se Ao Menos...

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Estávamos todos sorridentes, até lembrarmos que faltava uma verdade. Apenas mais uma e poderíamos sair de tudo aquilo. Olhei para Gaspar e ele parecia ligeiramente tenso.

- Vai ficar tudo bem. - Eu falei.

- Eu estou orando por isso. - Ele respondeu. Cassandra deu uma risada.

- Orando no inferno astral. - Ela disse. Orfs olhou para ela com os olhos semi cerrados.

- Cala a boca Oco. - Eu falei, ela fechou a cara. A porta de Gaspar apareceu. Uma porta vermelha. Ele olhou para mim e eu acenei com a cabeça. Ele abriu a porta e entrou.

***

Estávamos numa casa que nunca vi na vida. Gaspar era uma criança sorridente e gordinha, estava ao lado de uma mulher ruiva que deduzi ser sua mãe.

- Papai! Anda! Vamos nos atrasar! - Ele gritava para a casa inteira ouvir, exibindo a boca banguela com os dentes da frente inferiores faltando. O pai dele brotou na sala e o segurou nos braços, erguendo ele no ar e girando. Gaspar ria muito.

"Eu tinha 5 anos quando tudo aconteceu. Estávamos nos preparando para iniciar uma nova vida. Mamãe andava muito alegre e papai também. Na época, ele trabalhava como servidor público. Iríamos viajar de carro. Íamos do Sul ao Centro Oeste. Mas é verdade quando dizem que a felicidade dura pouco".

De repente, estavamos todos dentro de um carro. O pai e a mãe de Gaspar cantavam "Dancing Queen" da Abba, que passava na rádio. Eles cantavam alegres e desafinados. Gaspar reclamava e dizia que ainda bem que o pai era servidor público e não cantor, se não eles morreriam de fome. Estávamos todos numa rodovia, que seguia numa rotatória quase do lado de um precipício de árvores. O pai de Gaspar o olhou por um momento fazendo careta e Gaspar olhou para frente espantado, no exato momento que uma criatura cadavérica e podre saltou no meio da pista.

- Papai! Cuidado! - Gaspar gritou. O pai fez um giro arrastado no volante e passou pela esquerda, raspando no bicho. A criatura com suas garras enormes, se prendeu na janela aberta soltando urros assustadores. A rodovia se tornava estreita. O pai de Gaspar parecia temer seguir com aquele desequilíbrio, mas também não podia parar. A porta ao lado da mãe de Gaspar se destravou. As garras afiadas do bicho partiram cinto de segurança e a puxou para fora com o carro em movimento, numa queda em rumo ao precipício. Gaspar gritou "mamãe!". A porta vermelha apareceu em nossa frente, a realidade se apagou e Gaspar foi cuspido para fora dela, se chocando contra as paredes do quarto.

- Tutu! - Cassandra reclamou. Um ronco foi escutado ecoando pelas paredes. Pupilas vermelhas brilhantes surgiram juntamente a um sorriso de dentes triangulares que pareciam bastante afiados.

- Nós queremos a verdade! - A voz grave, estridente e monstruosa de Tutu falou.

- Eu estava dando a verdade a você... - Gaspar respondeu com a cara fechada.

- Você sabe do que estou falando rapaz, não tente mentir pra mim. Eu sei que você não é tolo e eu sei que você se lembra. - Tutu retrucou. Gaspar olhou para mim.

- Eu não posso... - Ele falou. Tutu deu sua risada demoníaca.

- Isso não é um opção. - A besta respondeu. A porta vermelha se transformou em grandes portas de madeira com alças para puxar. - Eu lembro de você, sempre destemido. Quando criança dizia para o bicho papão "Eu não tenho medo de você". Mas e agora?

Gaspar congelou. Tutu sorriu.

- Agora você tem medo de mim.

As portas se abriram com um baque. O corpo de Gaspar foi arrastado pelo chão por uma força invisível.

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