25 - Pressão

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Jin HuiYing

 . O vento quente da tarde ensolarada entrava pelas janelas do pavilhão, balançando as bandeiras com 'Faíscas em meio a neve', o cheiro dos incensos transmitiam paz e luto, meus joelhos estavam dobrados em frente a um mural com a pintura de um homem e uma mulher, os dois possuíam um sorriso em seus rostos, o da mulher era gentil e caloroso, já o do homem parecia genuinamente feliz, os cabelos longos do homem estavam presos em um rabo de cavalo parecido com o de Jin Ling, já os da mulher estavam parcialmente presos em um penteado em formato de flor, pareciam felizes.

 . Consegui identificar traços meus e de Jin Ling nos dois, o nariz afinado do homem, o rosto mais redondo da mulher, os olhos bem abertos dela, a boca fina dele, nos parecíamos com ambos, meus olhos não se desviavam por um segundo, me pergunto como eram suas vozes, suas personalidades, o toque de suas mãos.

 . As duas reverências já haviam sido feitas, eu deveria estar conversando com eles não é? Mas as palavras me fugiram naquele momento, no momento em que me encontrei sozinha com meus pais, com seus espíritos pelo menos, pelo que contaram, minha mãe morreu com o pensamento de que estava morta e meu pai nem soube da minha existência, o que eu deveria falar? Escolhi apenas ficar em silêncio, acender um incenso e orar, um sopro quente balança minha franja a afastando de meus olhos que ardem, engulo em seco, é como se dissessem que esta tudo bem, para eu falar o que quisesse e o que sentia que precisava ser dito, fecho os olhos e respiro fundo.

- Eu... - minha voz treme - eu queria ter conhecido vocês - olho para a pintura mais uma vez - eu...eu fiquei feliz ao saber que não fui abandonada, mas...eu não soube como reagir quando soube que estavam mortos - paro de falar quando uma lágrima solitária desce por meu rosto, eu a limpo com rapidez - desculpe...é que...eu não sei o que fazer ou falar...posso chama-los de pais? - eu rio trêmula - sabe...agora eu sou a 'Jovem Dama Jin'...estou assustada, e se eu não for suficiente? Eu não sei como agir aqui em LanLing, sinto que posso desabar a qualquer segundo sabe?...mas eu não posso, eu tenho que ajudar A-Ling - sinto outra lágrima escapar - eu só...me sinto tão inútil aqui...tão sozinha...mas eu tenho que ser forte...eu não posso envergonhar meu irmão ou meus tios ou vocês...eu só me sinto...sufocada - quando percebi minhas lágrimas manchavam meu rosto e molhavam meu vestido, eu parecia patética? Digna de pena, talvez? - me desculpe...por não ser mais forte...por n-não ser boa o suficiente - eu tentava ao máximo enxugar aquelas lágrimas doloridas, não podiam me ver chorando - eu...s-sou apenas uma civil que virou a Dama Jin da noite pro dia e-e esta tentando dar o seu m-melhor....mas é tão difícil - eu já não tentava mais impedir aquelas lágrimas, não era possível impedi-las - me desculpe... - minha garganta doía pelo nó que eu tentava engolir a qualquer custo, era a primeira vez que chorava desde que cheguei a LanLing, a primeira vez que me mostrava tão vulnerável. 

 . Quatro meses, já fazia quatro meses que eu estava em LanLing, foram quatro meses com altos e baixos, passei algum tempo com meu irmão apesar de ambos estarmos atarefados, conheci fada, sempre passamos algum tempo nós três juntos, recebi cartas dos meus tios, ambos estão bem aparentemente, felizes com seus homens, recebi cartas de Shizui e Jingyi também, sempre fico animada quando recebo o aviso de uma carta de Gusu, Shizui se tornou um ótimo amigo, alguém com quem posso conversar casualmente, Jingyi, as cartas de Jingyi sempre são repletas de piadas bobas que me fazem rir, além de alguns flertes sutis, conversamos sobre tudo, sobre suas recentes caçadas noturnas, sobre nossas respectivas tarefas, sobre nosso dia a dia, eu me sentia tão livre com ele, mas não tinha coragem para dizer aquilo que realmente sentia, a pressão que afunda meu peito, os assédios dos anciãos que me rondam como abutres apenas esperando que eu fraqueje para me manipular, ou as cartas das outras seitas, propostas, de diversos tipos, em suma, de casamentos, me sentia como uma moeda de troca quando as lia, mas nunca incomodei meu irmão com isso, apenas engolia meus sentimentos e respondia cordialmente recusando as propostas.

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