Capítulo 24

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Uma criança chorava abaixo de um carvalho, com o joelho e testa sangrando, arfando desesperada. O joelho fora fraturado, tendo a ponta do osso despontando para fora, rasgando a pele.

A visão era de revirar o estômago, com as artérias expostas, a carne molhada pelo sangue, e o rasgo transbordando através da fratura.

Tinha tanto sangue saindo do machucado que a visão a causou um desconforto descomunal.

Era uma garotinha tão pequenina, de cabelos loiros e pele clara. Ela se aproximou dela, vendo a menina ofegar aflita, com as mãos sobre a laceração brutal.

O pequeno e frágil corpo tremia em espasmos brutos pela dor que deveria a dilacerar sem piedade alguma.

Alguém gritou distante, se virou para além da garotinha no chão, buscando a voz vindoura.

Um bosque. Estavam em um bosque, que parecia tão familiar e ainda assim desconhecido, com outra figura surgindo, indo ao encontro da garotinha machucada que gritava em dor.

Deuses! O que houve? — a figura mais velha, uma fêmea, se ajoelhou ao lado da menina, exigindo saber.

Eu tentei subir até o galho mais alto e cai! — em meio ao choro a criança tentou explicar.

Se aproximou tentando enxergar o rosto sem face das duas, quando de repente, a garotinha ergueu a cabeça e o mundo pareceu explodir em luz.

Estou com medo vovó!

A fêmea ofegou temerosa com a visão dos olhos esféricos refletindo a mais pura e feroz das luzes, vindo dos olhos da garotinha.

Gwen então assistiu paralisada a fêmea mais velha erguer a mão, repleta de luz em sua palma e pressionar contra o joelho da mais nova.

De repente, os olhos da mais velha eram chamas, ao invés de luzes, chamas queimavam em puro poder.

Chamas alaranjadas.

Sorrindo, ela acariciou o rosto da garotinha, que aos poucos foi se acalmando enquanto a outra a curava com seu poder.

Vai ficar tudo bem, Gwen. — a mais velha sussurrou no ar.

Gwen.

E o mundo se desfez, com as sombras surgindo em um furacão de névoa, fúria e escuridão a levando para longe daquela lembrança.

Ela tentou voltar, tentou sair daquele aglomerado de sombras que a envolviam em uma onda sufocante.

Vai ficar tudo bem, Gwen.

Aqueles olhos esféricos cheios de luz dourada pareciam impregnados em sua mente como um arauto.

— Ela é uma ameaça. — ouviu uma voz familiar, em meio a escuridão, encontrando a figura de Poltrix, um dos anciões, apontando o dedo em riste. — Sua presença em nosso povo nos trará desgraça!

— Junto a ela, o caos vira. — Godric, de cabelos vermelhos, outro dos velhos anciões surgiu na penumbra.

— O que querem dizer? — A avó de Gwen surgiu bem atrás dela, os fitando com desdém.

— Acabe com tudo isso Gillyn. Termine com todo esse ciclo de uma vez. — Poltrix vociferou.

— Você está dizendo para...

— Mate essa criança. — ele a cortou atroz. — Acabe com essa ameaça e com tudo isso.

Gwen arfou em um tremor.

As sombras a levaram para um riacho tão familiar, onde a mesma fêmea de antes, ensinava duas crianças a se equilibrarem sob as imensas rochas.

Sejam um com a correnteza. — a avó de Gwen disse em um comando para os dois. Skye possuía um equilíbrio perfeito. Enquanto Gwen tremia pelo frio que a água emanava.

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