Ele não se importou

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No outro dia, o pessoal levantou super cedo, eu particularmente nem dormi e creio que eles também não tiveram uma boa noite de sono. Desço encontrando todos na sala, Catarina chorava de forma silenciosa enquanto Pietro se perguntava o porquê.

Márcio: O que está fazendo de pijama ainda? — Não respondo — Filha, precisamos chegar cedo para terminar de arrumar tudo!.

Eu: Eu não vou — Vejo todos me olharem espantados, menos o Hugo.

Márcio: Como é que é?, Carla, não arruma briga agora não, por favor!.

Eu: Não estou brigando, só estou dizendo que não quero ir a velório nenhum — Ele passa a mão no rosto e solta uma lufada de ar para não se exaltar.

Helena: Por que não quer ir, meu amor?.

Eu: Porque não quero, simples assim. Ramon não se importou em nos deixar, por que tenho que me importar em comparecer ao velório dele?.

Pietro: Mas que merda é essa que você está falando? — Noto a raiva no olhar dele.

Eu: Seu pai nos deixou desamparados, fez de tudo para viver tudo o que queria sem ao menos lutar pela a vida, ele desistiu e nem se preocupou em saber se ficaríamos bem. Ramon Ribeiro foi um fraco!.

Pietro: Você lava a PORRA DA SUA BOCA PARA FALAR DO MEU PAI — Ele se exalta — VOCÊ NÃO SABE DE MERDA NENHUMA, NÃO SABE O TANTO QUE O MEU PAI SE AGARROU A VIDA!.

Eu: SE AGARROU A VIDA? — Me exalto também — FALA SÉRIO, PIETRO. Eu não vi o Ramon lutar por ele EM NENHUM MOMENTO!.

Pietro: PORQUÊ ELE SABIA QUE NÃO TINHA MAIS JEITO — Ele chora — Ele lutou, lutou até demais — Ele senta no chão totalmente sem rumo — Mas viu que estava lutando por uma causa perdida, meu pai já não tinha mais forças para continuar e foi por isso que resolveu chamar vocês — Fixa seu olhar em mim — PORQUE ELE SABIA QUE A HORA DELE TINHA CHEGADO E QUERIA SE DESPEDIR DAS ÚNICAS PESSOAS QUE IMPORTAVA.... vocês!.

Eu: Isso não importa mais!.

Pietro: Importa, importa sim. Você vai trocar de roupa agora ou prefere ir de pijamas?, você vai para esta porra de velório querendo ou não, prometeu para ele que iria — Os outros estavam em completo silêncio, sem paciência alguma para discutir comigo.

Olho para Luísa que me encarava desacreditada e com apenas um sinal de cabeça ela me manda subir para o meu quarto, e eu obedeço. Assim que passo pela porta, Luísa passa logo em seguida fechando a mesma, e depois se senta na minha cama me mandando fazer o mesmo.

Luísa: Eu sei que Ramon foi um herói pra você — Ela segura as minhas mãos — Sei que você amava ele  como um pai, sei que ele te passava a segurança que você nunca teve com o Márcio. Carla, eu sei que Ramon foi muito mais do que um tio para você, eu sei — Abaixo a cabeça chorando — Mas tudo tem um fim e infelizmente o fim dele chegou, não estava no controle dele impedir. Não estava no controle de ninguém, já te falamos isso. Você se negar a ir ao velório e culpar ele, dizer que ele foi fraco e que não lutou pela vida, faz de você uma garota insolente e mimada!.

Eu: Está do lado dele?.

Luísa: Não é questão de lado, amiga, é da morte que estamos falando. A gente acompanhou o fim do sofrimento dele, ele fez questão de passar os últimos momentos com a gente. Querendo ou não a gente pegou a parte "tranquila", que foi a parte da aceitação, por isso você diz que ele não se agarrou a vida, mas pensa um pouquinho no Pietro — Ela tenta secar a minha lágrima, mas era em vão — Ele passou cada etapa ao lado de Ramon tendo que fingir ser forte, ele esteve nos momentos mais difíceis do pai, momentos que a gente não viu. Pietro teve que presenciar o pai adoecer dia após dia, teve que ver o pai lutar mesmo sem forças. Pensa como é difícil, depois de ter passado por tudo isso, ouvir de uma pessoa que não acompanhou nada, que o pai dele foi um fraco!.

O Fruto ProibidoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora