Fora de alcance

302 46 20
                                    

Acordar em Seattle deveria estar sendo de pura alegria, mas para mim está sendo de pura decepção, talvez se eu estivesse no Brasil e na minha casinha, não teria que ver o Ramon morrer aos poucos.

Eu: Então é nada de Brasil por enquanto? — Pergunto assim que me sento para tomar café da manhã.

Márcio: Sim, vamos ficar aqui para acompanhar o enterro dele — Diz sem me olhar e eu ergo a sobrancelha.

Eu: Já está matando ele? — Meu pai finalmente me olha — Ele é o seu amigo!.

Márcio: Não estou matando ninguém, Carla, só estou contando o que ele pediu — Diz pacificamente.

Eu: E você vai aceitar assim?, vocês dois?, é o melhor amigo de vocês, tem como demonstrar que se importam?.

Hugo: Aceitar o quê?, não está no nosso alcance fazer absolutamente nada, o médico já deu o diagnóstico e não tem mais jeito!.

Eu: Médicos erram o tempo inteiro, ele pode ter se enganado — Não era eu quem disse que estava na fase de aceitação?, perdida no personagem.

Márcio: Acho meio difícil o médico do Ramon ter errado o diagnóstico, é o médico mais competente de Seattle — Bufo negando com a cabeça.

Helena: Ao invés de ficar tentando achar erros no trabalho de um profissional competente e diplomado, por que não faz o que o Ramon pediu?, filha, ele só quer ter momentos felizes com a gente, pode ser?, tem como você tentar ficar bem por ele?.

Eu: Ele nem gosta de você — Ela desvia o olhar — Por que?, por que ele tem ranço de você, mãe?.

Helena: Não faço a mínima ideia — Noto um nervosismo no tom de voz dela — Ramon nunca gostou de mim, nunca entendi!.

Eu: Motivos tem, não é? — Ela me encara por alguns segundos como se quisesse me bater — Aliás, motivos tem para muitas coisas e eu ainda vou descobrir — Olho para o Hugo.

Luísa: Vocês se questionam demais, é por isso que são tão frustrados. Carla, o médico dele não errou, basta só você olhar para o Ramon para perceber que ele não está bem!.

Helena: Exatamente!.

Luísa: Por que não listam coisas que dá para ele fazer antes de morrer ao invés de ficarem discutindo?, seriam muito mais úteis — Ela diz e se levanta da mesa.

Márcio: Ela é sempre assim? — Nego com a cabeça e vou atrás da Luísa.

Desde o encontro com o meu tio Ramon, eu senti a Luísa estranha e pensativa, não sabia o que estava acontecendo com ela mas iria descobrir.

Eu: Você está bem? — Pergunto assim que me sento na cama dela — Está pensativa!.

Luísa: Estou bem, só estou confusa. Não achou estranho o jeito como o seu tio Ramon olhou pra mim?.

Eu: Sim, eu achei, foi de fato estranho. Os olhos dele brilharam na sua direção!.

Luísa: Pois é, muito estranho!.

****
E mais uma vez estamos na casa dos Ribeiro's e dessa vez com um único propósito, fazer o meu tio sorrir de verdade. Dessa vez quem nos atendeu foi Pietro e a primeira pessoa para quem ele olhou foi para mim, é impressionante como esse menino mudou, ele é quatro anos mais velho do que eu e sinceramente, estou afim de pegar ele só por esporte.

Ramon: Vamos cozinhar, pessoal? — Faço careta, parece que ele falou japonês — Pegue seus aventais e mãos na massa — Diz sorrindo, um sorriso iluminado aliás.

O Fruto ProibidoOnde histórias criam vida. Descubra agora