Capítulo 210: Confiança

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POV Luna

— Ela fez o pedido durante a última consulta que tivemos. O sigilo médico paciente proibi-me de falar sobre os assuntos discutidos nas sessões. Apenas disse porque nem imaginei que ela não conversaria com você antes de decidir algo nesse nível. — Amanda estava nervosa e conseguia ouvir os passos dela pelo quarto.

— Entendo, então por que ela não falou? Já faz semanas, certo? — Tentava não criar teorias paranoicas sobre isso, ela só deve estar a espera dum momento mais propício para conversarmos... Obvio que não.

— Sim, se não me engano umas duas ou três semanas. — A voz da Amanda dava-me uma impressão de arrependimento. — Não deveria ser eu a contar isso... Não deveria.

— Realmente não deveria ser você, mas preciso ser informada dessas situações. — Termino de vestir uma calça rosa, um cropped preto e um coturno. — Qual o nome da médica? — Saio do closet e vejo Amanda pensativa com a mão no rosto.

— Luna! Já disse que não posso falar essas informações. Não podia ter dito nada. — Ela encarava-me preocupada. — Cristal não vai mais confiar em mim.

— Quê? Isso não é motivo suficiente para tudo isso. — Digo sem pensar. — Não quer falar o nome, tudo bem! Vou dar um jeito de descobrir.

— Luna, pelo amor! Não fala, nem questiona nada disso com a Cristal. Espera ela contar para você no tempo dela, por favor. — Amanda pede com uma expressão preocupada.

— O que pode acontecer se eu for conversar com ela que a preocupa tanto? — Preciso dum bom motivo para não ir atrás desse assunto.

— Cristal está na terapia para superar os traumas e reconstruir a confiança dela nas outras pessoas. — Apenas concordo com a cabeça enquanto ela explicava. — Essa foi a primeira vez que ela realmente conversou comigo sobre uma vontade dela e me pediu sigilo. Isso pode ser nada para você, mas é um passo importante para o desenvolvimento dessa confiança. Se simplesmente for até ela, ficará claro que quebrei o sigilo e pode ter um impacto negativo, consequentemente fazê-la regredir no tratamento. Por favor, não comente sobre isso com ela e com ninguém.

— Okay! Quero muito saber a causa dessa mudança, mas vou guardar a minha curiosidade para mim. — Digo e ela respira aliviada.

— Obrigada! Vem, o almoço deve ser servido em breve. — Amanda se vira para a porta.

— Almoço? Que horas são? — Pego o meu celular sobre o móvel próximo à cama.

— Onze e pouco, como chegaram muito tarde, quase ninguém foi comer o café-da-manhã. Dona Marli disse que vai puxar as orelhas de vocês. — Ela sorri e sai do quarto.

A acompanho até a cozinha onde Marli e o senhor Gaspar, porteiro da vinícola, conversavam próximos a algumas panelas no fogão.

— Olha quem finalmente acordou! Pensei que também não fosse almoçar. — A senhora diz como se me desse um sermão de mãe.

— Chegamos muito tarde dum compromisso. — Digo envergonhada.

— Compromisso, na minha época, chamávamos isso de forró, baile e ainda assim não chegávamos tão tarde ou cedo, no caso. Já estava acordada quando a mocinha Renata chegou. Esse povo jovem não dá mais valor a uma noite boa de sono, mas não vou falar nada. — Marli mexe em algumas panelas enquanto Amanda colocava alguns pratos na mesa e ria.

— Cristal passou por aqui? — Pergunto enquanto a procurava com o olhar.

— Senhorita Giorno saiu há algum tempo, parecia irritada por isso não perguntei aonde ia. — Gaspar responde com um sorriso simpático e acolhedor.

— Vou a procurar. — Caminho até a parte dos fundos da vinícola.

— Não demore ou vai perder o almoço também. — Marli grita da cozinha e só consigo rir.

Observo as vinhas e alguns trabalhadores. A paisagem nem parecia real de tão bela, uma pintura em movimento. Giovanni mandou uma mensagem a um ou dois meses, não sei qual a intenção dele, mas contou que não precisava da renda a qual a vinícola gerava e se nos compromissarmos em cuidar dela, ele poderia passar a propriedade para o nome da Cristal ou de qualquer outra pessoa. Ainda não sei o que responder ou se deveria tomar alguma decisão quanto a isso. Gostaria de ter uma boa relação com ele, mas sinto que aceitar esse acordo é o mesmo que vender a minha "amizade" ou outra relação.

— Ah! Senhorita? — Um homem alto, forte e sujo pelo trabalho se aproxima.

— Bom dia! — Sorrio, ele tira um chapéu surrado e limpa o rosto.

— Bom dia! Desculpa incomodá-la, mas enquanto colhia as uvas, encontrei um defeito na cerca. — Ele diz com a cabeça baixa.

— Um defeito? Obrigada por informar, vou chamar o senhor Gaspar. Poderia mostrar isso a ele? — Peço e ele apenas concorda com a cabeça.

Entro na casa e chamo Gaspar para me acompanhar até o homem.

— Eduardo! Algum problema nas vinhas? — Gaspar o cumprimenta que não aparentava estar tão retraído quanto antes.

— O fio de choque da cerca foi interrompido em alguns lugares. — Eduardo coloca o chapéu novamente.

— Vamos lá, mostra onde que já dou um jeito de resolver. Deve ser ter sido aqueles adolescentes de novo. — Gaspar ajeita os poucos fios brancos que possuía na cabeça em baixo duma bela boina verde-escuro.

— Deve ser, vi a dona aqui fora, mas ela estava tão concentrada num notebook que achei melhor não incomodar. — Ele solta uma risada envergonhada enquanto caminhava com o Gaspar em direção às uvas.

— Viu a Cristal? — Perguntou mais alto pela distância.

— Sim, a patroa estava sob uma árvore, um pouco a cima do estacionamento, no morro. — Ele explica, agradeço e caminho sem pressa para o estacionamento.

Vejo Cristal ao longe sentada na grama. O cabelo dela ainda não alcançou o comprimento de antes, mas estava próximo. Os fios dançavam com o vento e a pele parecia estar sob o sol pela primeira vez.

Nem a distância nos separa (Continuação)Onde histórias criam vida. Descubra agora