Capítulo- 29

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Alexa se remexeu e abriu os olhos. Tonta e confusa à princípio, não conseguiu compreender o que estava acontecendo. Mas, lentamente, as manchas turvas deram lugar às imagens mais nítidas e olhando para o seu corpo nu dentro da banheira cheia de gelo, braços e pernas amarrados, a pele doendo de frio, o sentimento que a dominou foi um pânico desesperador.

E quando levantou as vistas e olhou para frente, a surpresa fez seu coração bater tão forte que a caixa torácica estremeceu e ela pensou que fosse enfartar.

Arregalou os olhos sem acreditar no que estava contemplando. A mulher vestida de preto, usando camiseta de manga longa, calça de couro e bota tratorada estava sentada em uma banqueta segurando um punhal.

— Simona? — Alexa falou com a voz fraca.

— Oi, amiga, já faz tanto tempo que nem sei mais como devo chamá-la: Ravena ou Alexa? Eu prefiro Ravena — Simona falou num misto de fúria e sarcasmo.

— Então eu não estava enganada. Era você no sinal, atravessando a rua. Eu te procurei tanto!

— Verdade? — Simona deu uma risada alta.

— Por que está fazendo isso comigo? O que você quer?

Simona enfureceu-se:

— Não se faça de sonsa! Sabe o que eu quero!

— Se estiver falando do Paolo...

— Não é o Paolo — Simona enfatizou as palavras. — Mas é uma pena que não posso mais me vingar dele porque alguém já fez isso por mim. E apesar de ele ter matado o meu bebê, foi você quem me tirou a chance de ser mãe outra vez.

— Não foi bem assim. Olha, Simona, vamos conversar...

Simona apontou o punhal para ela. Alexa retesou-se.

— Você sempre teve inveja de mim. Desejava ter a minha vida, possuir as minhas coisas, por isso me condenou a uma vida infeliz, sem filhos.

— Isso não é verdade. Eu a amava e nunca quis prejudicá-la. Nós éramos amigas.

— Falou bem, éramos amigas, até você me trair duas vezes: a primeira quando roubou o meu namorado e a segunda quando mandou me esterilizar. Achou que eu estava tão dopada naquele hospício que nunca ficaria sabendo, não é, amiga?

— Simona ...

— Você me destruiu! — O grito de Simona foi como o uivo de um animal sendo abatido.

Alexa tremeu. Os olhos vermelhos e encovados de Simona revelavam uma personalidade doentia e perigosa.

— Assinou aqueles papéis dando permissão para que eles arrancassem meu útero, ovários e trompas. Me tirou tudo.

— Eu sinto muito! — Alexa balbuciou.

— Sente mesmo? — Simona perguntou com acidez e ironia.

— Dei permissão porque você não tinha mais ninguém. Eles disseram que era uma regra do hospital esterilizar todas as pacientes e eu só tinha que assinar.

Simona aproximou-se apontando o punhal para a barriga de Alexa.

— Vou fazer você conhecer a sensação de estar oca por dentro. É assim que me sinto todos os dias.

Alexa engoliu em seco diante das palavras e do brilho da loucura que via nos olhos de Simona. Reconheceu a insanidade no semblante de ódio, no rosto pálido e espavorido e cada fibra do seu corpo estremeceu, gelou de medo.

Tentou se encolher na banheira, mas não tinha mais para onde ir. E foi rápido demais o corte horizontal que Alexa recebeu na região pélvica logo abaixo do umbigo. Imediatamente a carne se abriu e o sangue se espalhou fundindo-se ao gelo. Uma tontura misturada com náusea se apossou dela e então veio a dor; uma dor infernal.

— Eu vou acabar com você e levar o seu filho comigo. Vou te cortar aos poucos até não restar mais nada. Agora fala! Onde o garoto está?

Em meio à dor, Alexa começou a rir. Um riso indignado e desesperado.

— O que está pensando, sua louca? Pode me matar, pois jamais entregarei o meu filho.

Depois do retorno de Lucas, Alexa ainda não conseguia se sentir segura e temia que a qualquer momento o sequestrador aparecesse, por isso decidiu colocar o garoto temporariamente numa clínica especializada para tratamento de crianças com TEA.

— Fala onde ele está! — Simona rangia os dentes.

Alexa a olhava fixamente sabendo que a sua vida estava por um fio.

— Não brinque comigo, Ravena!

Simona tremia, entortava a boca e piscava os olhos descontroladamente, num tique nervoso alucinado. Estava completamente desvairada e insana.

Alexa respirou fundo pressionando o corte da maneira que podia com as mãos amarradas à sua frente, ao mesmo tempo em que tentava pensar em algo para ganhar tempo. Mas estava perdendo muito sangue e seu cérebro começou a ficar lento.

— Simona, me deixa ir, por favor!

Mas Simona estava prestes a manifestar a sua loucura da forma mais alucinada.

— Adeus, Ravena!

Simona levantou o braço segurando o punhal na direção do peito de Alexa que fechou os olhos e se preparou para morrer. E naquele exato momento uma voz bastante audível ecoou no aposento:

— Parada!

Alexa abriu os olhos e viu Dylan parado na porta do banheiro com uma arma engatilhada, apontada na direção de Simona.

O que aconteceu em seguida foi muito rápido e confuso. Simona lançou o punhal na direção de Dylan cravando-o na região do abdômen. Dylan disparou um tiro certeiro no peito dela, em seguida caiu para trás.

Alexa assistiu a tudo sem acreditar, como se estivesse vendo uma cena de filme de terror. Queria que aquilo fosse apenas um pesadelo. Queria desesperadamente acordar.

O corpo de Simona desabou por cima dela e ambas se encararam. Por uma fração de segundos Alexa viu o olhar vingativo da assassina louca ser transformado no olhar doce da adolescente que um dia foi a sua única amiga. Mas logo em seguida, a visão de Simona desvaneceu, apagou para sempre.

Apavorada, Alexa voltou a olhar para a porta onde o corpo de Dylan estava totalmente imóvel, estirado no chão, na entrada do banheiro.

Atordoada, com zumbido auditivo, viu homens fardados com roupas escuras invadindo o ambiente e homens vestidos de branco carregando os dois corpos.

Enquanto alguém a tirava da banheira cheia de gelo, ela continuava gritando, mas os ruídos no ouvido não deixavam que ouvisse o seu próprio grito. E por fim, tudo se apagou.


Caríssimos leitores e leitoras.

Dylan morreu???



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