Capítulo 90 - Revelação

8.5K 660 387
                                        

POV VALENTINA:

Eu não consigo explicar a profundeza que a Luiza me olhava. Eu acho que nunca vi aqueles olhos tão tristes. Ele entregava uma culpa que com certeza lhe atormentava. Sua voz está mais trêmula que suas mãos e seu peito subia e descia em um frequência pesada.

— Claro amor, pode me contar. — Seguro sua mão que tremia e então ela fecha os olhos e respira fundo.

— Que eu nunca imaginei ser mãe, você já sabe. — Ela me direciona o olhar. — O que você não sabe, foi o que aconteceu durante a minha gestação. — Olhava Luiza atenta. — Quando eu engravidei foi um choque muito grande pra mim. E todo esse início você também já sabe. — Ela não conseguia manter os olhos fixados aos meus. Por mais que ela tentasse, sempre acabava desviando e encarando o chão.

— Sim, você estava no último ano da faculdade. O Otávio foi um filho da puta e seus pais não aceitavam sua gravidez. — Comento.

— Isso... Assim que eu descobri da gravidez eu não pensei em dar um fim na minha gestação. Inicialmente não foi algo que me passou pela cabeça. A Duda até me perguntou se eu queria seguir com a gravidez, e na época eu disse que não sabia ainda. — Ela pausa respirando.

Luiza fica alguns minutos em silêncio sem conseguir continuar falando. Era nítido o quanto ela estava se esforçando pra me contar o que eu já imagino que aconteceu, pelas suas últimas palavras. Luiza tentou abortar o Leo, isso está claro. Isso explica a forma que ela repete que quase matou nosso garotinho. Mas eu não quero tomar conclusões precipitadas, eu quero ouvir tudo o que ela tem a me dizer.

— Eu não vou te julgar, Luiza. Pode confiar em mim, meu amor. — Olho ela firme.

— Eu não sei se consigo, Valentina. — Ela volta a chorar.

— Calma... — Levanto seu rosto. — No seu tempo, está bem? — Ela concorda com a cabeça e eu abraço ela. Depois de mais alguns minutos ela retoma a falar e eu volto a segurar sua mão.

— Então os meses foram passando e a gestação foi evoluindo, mas quanto mais as semanas passavam, mais eu me perdia de mim. Eu estava fazendo terapia e tomando os medicamentos necessários. Eu fui diagnosticada com depressão profunda aos meus 15 anos de idade no auge da minha adolescência.. Eu era muito instável, melhorava, mas logo tinha recaída. Desde então eu fazia um tratamento intensivo. E isso até me ajudou a lidar bem com o acontecimento da gravidez. Mas tudo mudou quando... — Ela engole seco. — Quando eu descobri o sexo do meu bebê. — Sua voz sai ainda mais falha. — Assim que eu descobri que estava grávida de um menino, tudo mudou e uma raiva enorme me consumiu. Eu não queria gerar uma versão do Otávio dentro de mim. Eu me recusava. Já estava passando por uma gravidez indesejada e ainda estava gerando um menino? Uma cópia do "pai"? E com essa descoberta do sexo eu tive vontade de desistir dessa criança. — Seu tom de voz era aflitivo e ela apertava minha mão com força. — Então eu surtei. E quando eu ainda estava grávida de três meses parei de ir na terapia e joguei todos os meus medicamentos na privada. Mesmo sabendo que eles me mantinham no "eixo" e eram cruciais pra mim. Eu não contei pra ninguém. A partir daí eu já não queria mais seguir com a gestação. Não era capaz de me olhar no espelho sem sentir nojo do que estava dentro de mim. Os três homens que passaram pela minha vida me destruíram de formas diferentes.

— Três contando com o Léo? — Pergunto perdida.

— Primeiro foi o meu pai. Ele era meu herói Valentina, ele me fazia sentir a garota mais incrível e especial do mundo por tê- lo na minha vida, mas esse homem foi o primeiro a me decepcionar. Tudo mudou quando ele viu a carta. Era uma morte pra ele só de pensar na possibilidade da filha dele gostar de meninas. E desde de então ele nunca mais foi o mesmo comigo. Tudo, TUDO que aconteceu depois na minha vida por culpa do meu pai, Valentina, absolutamente tudo mesmo. — Seu choro é forte.

SIMPLESMENTE ACONTECE - VALUOnde histórias criam vida. Descubra agora